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Pandemia: três momentos críticos para a gestão da saúde pública no Brasil em um ano

Momento atual é marcado pela militarização do Ministério da Saúde, que passou a ter um general no comando e afastou servidores técnicos com poder de decisão

As ações do governo federal frente à pandemia de covid-19 no Brasil podem ser divididas em três frentes: o protagonismo dos governadores em relação ao governo federal, o falso dilema entre a economia e a saúde e a militarização do Ministério da Saúde com o substituição de quadros técnico por militares.

Essa é a avaliação da pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Francis Sodré, e marcam os momentos que influenciaram as ações de controle e acompanhamento da pandemia durante todo o ano.

“Em um primeiro momento, o que o Ministério da Saúde optou por chamar de parceria com os estados, nós chamamos de protagonismo dos governadores”, explica a pesquisadora, que afirma que ações como controle da circulação de pessoas, notificação dos casos, além da construção de hospitais de campanha e compra de leitos foram tomadas pelos estados.

Paralelamente a isso, o posicionamento do governo federal produziu um “discurso dúbio” com medidas “negacionistas que não pautavam evitar aglomerações, higiene das mãos ou uso das máscaras, mas um falso tratamento precoce baseado em medicamentos que traria uma suposta cura”, afirma a pesquisadora.

Medicamentos como a hidroxicloroquina, já defendida por Bolsonaro, são comprovadamente ineficazes contra a covid-19.

Segundo Sodré, a ação dúbia do governo federal, de um lado, e o protagonismo dos governadores, do outro, marca o mês inicial de controle da pandemia e faz a transição para a segunda frente da política e gestão e controle do novo vírus.

De acordo com a pesquisadora, esse segundo momento começa com a chegada de um novo ministro da Saúde, Nelson Teich.

“Teich chega em um momento em que o Brasil atravessa um alto índice de desemprego, não só entre aqueles trabalhadores com vínculos já vulneráveis e precários, mas também desemprego entre aqueles trabalhadores que tinham emprego e renda garantidos”, relembra.

Naquele momento, começou a ser pautado a necessidade de um auxílio emergencial durante a pandemia e o “falso dilema” entre a economia e a saúde.

“Chamamos esse segundo momento de ‘falso dilema’ entre a economia e a saúde, porque o discurso ministerial coadunava com o argumento que era preciso salvar a economia para só depois salvar a saúde pública”, afirma a pesquisadora.

O terceiro momento é marcado pela chegada do general do Exército Eduardo Pazuello à frente do Ministério da Saúde, reforçando a militarização da pasta.

Para Sodré, houve uma espécie de formação de um ministério de campanha do Exército, trocando todos os técnicos com cargos relevantes e poder de decisão por militares.

“Esses quatro meses iniciais com três ministros da saúde à frente da pasta da saúde finalizam com a militarização do Ministério e a ocupação de militares nos cargos principais da gestão da política de saúde no Brasil, e permanecem durante todo o ano de 2020 até 2021 mesmo com o aumento exorbitante do número de casos e óbitos”, finaliza Sodré.

No próximo dia 15 de março, o general e ministro da Saúde Eduardo Pazuello completa 10 meses na pasta. Nesse período, liberou o uso da hidroxicloroquina e cloroquina, defendeu o tratamento precoce, minimizou o tamanho da pandemia ao questionar a “ansiedade” da população em relação ao início da vacinação e agora vê recordes de mortes diárias.

Nesta segunda-feira (8), o Brasil atingiu a maior média diária de mortes por covid-19 desde o início da pandemia.

Em cada um dos últimos sete dias, morreram, em média, 1.525 brasileiros, a maior média móvel de óbitos, segundo o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass). Nas últimas 24 horas, foram registradas 987 mortes, totalizando 266.398 brasileiros mortos.

Em relação ao número de novos casos confirmados, foram 32.321 no último período, somando 11.051.665 casos confirmados.

Caroline Oliveira e Ana Paula Evangelista

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