Panouranismo

Algumas características do sentimento podem ser reveladas, tais como a intuição, a contemplação, a aceitação incondicional, a amoralidade (ausência de parâmetros de certo e errado), o afastamento de qualquer sentido de verdade, a mediocridade, a imprevisibilidade, a complexidade, autonomia, as portas da percepção completamente abertas (o que não significa que percebemos tudo, mas que estamos abertos e receptivos a tudo), aceitação plena e incondicional de tudo que vive é teu próximo, pressentimentos, a compreensão de que não sabemos mais que um cachorro olhando pra lua, dentre outras.

Fora disso o sentimento é diáfano e nunca será percebido pelo pensamento, pois pertence a um sistema cognitivo muito diferente deste.

Os sentimentos são nutrientes da vida, das conexões e da cognição e fluem de estado a estado, de corpo a corpo, de célula a célula e de átomo a átomo. Ligam todas as formas vivas e todas as formas etéreas numa teia infinita e de proporções que não podemos sequer imaginar.

Poderia ser ao sentimento que o bardo se referia quando dizia que existem mais mistérios entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. O pó dourado que está em tudo e que quase ninguém vê.

Se deixássemos fluir os sentimentos, sem resistências, viveríamos como vivem todos os seres que para nosso pensar são inferiores, pois lhes falta justamente a razão.

Mas é a razão que amputa nossas possibilidades universais oferecidas generosamente pelo fluxo do sentimento.

Com nossa percepção cerrada pela racionalidade, impedimos a homeostase de funcionar em plenitude, impedimos aprendizados preciosos cujas sensações são da ordem da vida comum, compartilhada com todos os seres vivos, onde não existe solidão ou abandono, só acolhimento e generosidade.

As sensações advindas do fluxo sentimental exibem uma diversidade absurda de modulações e aqui vou ser tímido nas descrições: leveza, bem estar, atenção descuidada, cuidado com movimentos bruscos, silencio, mesura, gentileza sutil consigo e com tudo, tranquilidade em estar só, desinteresse, falta de foco, fruição, abundancia, suficiência, são algumas sensações que podem ser atribuídas ao fluxo.

Ao nível celular, o fluxo nutre com os equilíbrios homeostáticos, em que a proximidade contagia por meio de um perispírito energético uma saudável emanação, tão sensível e suave que, se não encontrar os obstáculos do pensamento, nutrem cada célula, que por sua vez contagia a próxima e assim por diante, irradiando para fora do corpo elemental em direção a outros organismos, tornando tudo parte dessa expansão que é pertencimento ao mistério da vida.

Essa verdadeira pangeia vital, que tudo une e abraça e cuja fragmentação é apenas hipotética e ilusória, pois mesmo na aparente separação a energia continua fluindo nos espaços que interagem todas as células, todos os organismo vivos.

Em A metamorfose das plantas, publicado em 1790, Goethe apresenta sua teoria de que todas as estruturas botânicas, da raiz aos frutos, são metamorfoses de um único órgão basal.

Dessa forma, todos os vegetais compartilhariam uma estrutura primordial que variaria de acordo com as condições nas quais se envolvesse.

A teoria de Goethe é uma revolução no pensamento científico de sua época, além de uma elegante e complexa elaboração abstrata.

A metamorfose das plantas descreve tanto um processo natural quanto um conceito metafísico de ser originário. Algo que apenas um cientista-poeta poderia realizar.

O continente sentimental que é nossa forma primeva continua fluindo no entreato de nossa aparente individualidade. E sentir-se parte de algo tão grandioso nos torna também grandiosos. É o titã grego que conjura todos os elementos num só móbile de vida.

Existe um ritual na velha Grécia chamado hiketeia, em que o sujeito se colocava em posição de súplica, em que os sinais emitem os significados de um pedido. Pois o sentimento aquiesce à hiketeia sempre que o pensamento silencia. Pois quem suplica silencia o pensamento na suspensão momentânea que acontece nessa posição especial.

E são os sinais cardinais que emitem a disposição para a hiketeia: edema, calor, rubor, dor, perda. Mas é preciso saber-se enfermo.

O pensamento é sinônimo de racionalidade, de ideologia, de dominação, de colonização, de egoísmo, de verdade, de objetificação, de coisificação.

O pensamento é classificador, por isso hierarquiza, é ubíquo, por operar segundo um critério de verdade universal e do que é certo e errado, o pensamento é julgador, é seletivo, é replicador da ordem estabelecida, opera sempre no julgamento que faz com que o pensamento seja convincente de sua soberania.

Daí que silenciar o pensamento não requer muito esforço. Aceitação incondicional de todas as formas de vida na conexão conosco, contemplação, que é a observação calma e silenciosa de tudo que nos envolve.

Se etimologicamente êxtase significa sair de si, a saída do pensamento é também um sintoma de êxtase e, ao mesmo tempo, um preencher-se de deus, um entusiasmo: um êxtase entusiástico. E deus é o céu.

Portanto, a enfermidade é o pensamento que alimenta o ego e fragiliza todo o ser.

Sobre o papel das plantas na metamorfose da vida, replico aqui uma entrevista de Emanuele Coccia, autora do livro fundamental A vida das plantas, uma metafísica da mistura:

“A ciência contemporânea também, sem se dar conta, não deixou de ver as plantas como a origem do mundo. As plantas são, em muitos sentidos, uma força cosmogónica: são os seres que criaram o mundo tal como o conhecemos e habitamos, que fizeram e continuam a fazer nosso mundo em, ao menos, três sentidos.

Primeiro, ao conquistar a superfície da terra e espalhar-se por todo o globo terrestre, as plantas produziram (e continuam a produzir continuamente) a atmosfera rica em oxigênio que tornou possível a vida de toda a vida animal superior: cada animal superior só pode viver porque pode respirar os restos do metabolismo das próprias plantas.

Em segundo lugar, ao explorar em maior escala um mecanismo “inventado” pelas próprias cianobactérias, as plantas permitem transformar a energia solar em matéria viva: a vida orgânica é apenas a consequência dessa capacidade alquímica de transformação do sol em massa animada e, sobretudo, de invenção de infinitas formas de existência dessa energia.

Chamamos “vida” a esta imensa retorta alquímica ao ar livre, que inventa formas capazes de traduzir e fazer existir a energia de outras formas.

Mas é apenas graças à variante vegetal deste processo de exploração e de transdução da energia solar que a vida no planeta deixou de ser um fato marginal – tanto quantitativa como qualitativamente – para dela se constituir enquanto a sua principal característica, a sua própria essência.

Finalmente, as plantas inventaram um corpo que se estrutura não para se opor à exterioridade, mas para aderir a ela o máximo possível: melhor fundir-se com o mundo para melhor modificá-lo.

Compreender a planta significa, portanto, compreender o mundo e, inversamente, o mundo é, em primeiro lugar, um fato vegetal. Toda a cosmologia deve partir de uma reflexão botânica.

Deste ponto de vista, o livro não é um tratado sobre botânica especulativa: ele é um tratado sobre cosmologia, que, no entanto, nega pelo menos três pressupostos da cosmologia tradicional.

Primeiro, o princípio que gera o mundo é um elemento mundano e não um super-sujeito anterior e exterior ao mundo: háum  mundo apenas porque – e aí está a sua causa e a sua consequência – a origem e sua expressão estão contidas uma na outra.

Portanto, não pode haver reflexão sobre um objeto mundano que não seja, de fato, uma reflexão cosmológica.

Em segundo lugar, a origem do mundo não deve ser buscada em um lugar e tempo remotos: ele está em toda parte e existe em todos os momentos, porque a gênese do mundo, do nosso mundo, não é um acontecimento singular (um Big-Bang), mas um processo perpetuamente contínuo.

O mundo começa sempre pelo seu centro, no meio, e por isso não há história que não seja cosmologia – [ou cosmológica].

Em terceiro lugar, toda forma viva é, ao mesmo tempo, uma forma do mundo que ela, ao mesmo tempo, produz e contempla: é por isso que o livro pode partir de alguns órgãos ou partes do corpo da planta (a flor, a raiz, a folha) para definir as propriedades do cosmos (sua natureza atmosférica, a singularidade do céu, a existência da mistura universal).

Por outro lado, para observar o mundo nós não precisamos de um ponto de vista, mas de um ponto de vida: o universo vive, é um produto dos viventes, em qualquer escala, e é observando o vivo que podemos explicar o universo, e o contrário.

De modo distinto do que pensa Meillassoux, nunca podemos ultrapassar o nosso ponto de vida: tudo o que o realismo especulativo diz e pensa pressupõe a presença de pessoas vivas que falam, escrevem e respiram.

Na sua recusa em reconhecer a espiritualidade de toda a natureza, a ciência contemporânea permanece uma forma de humanismo arcaizante.”

Mas, ao contrário do que postula a autora, o pensamento jamais poderia compreender a existência cósmica da natureza, pois ele próprio é o avatar da objetificação da natureza desde pelo menos a eleição do humanismo como a gênese do processo de colonização.

É a própria natureza quem gera os fluxos sentimentais energéticos e é por esse fluxo que opera a homeostase e a autopoiese, por seu alinhamento cognitivo caudal. Faz sentido a expressão de que a “vida é um fato celeste”.

O pensamento se movimenta em torno de um centro irradiador, mas a natureza é movediça, imprevisível, dinâmica:

“A terra não é nem nunca será uma casa, também e sobretudo, porque não há nada de originário, nada de “natural” na natureza, de seguro, de a priori, estável de uma vez por todas.

A Terra não é habitável por si mesma, não é naturalmente capaz de abrigar seres humanos ou outras formas de vida superior. Ela assim tornou-se graças à ação das plantas.

E a sua ação foi, em primeiro lugar, uma catástrofe ecológica sem precedentes: é o que se chama de grande oxidação ou de grande catástrofe do oxigênio.

A natureza da terra, se é que existe uma, é apenas a de ser um deserto, como todos os outros planetas, um espaço em que os elementos não se misturam e estão congelados num equilíbrio químico imemorial.

Foram os viventes que fizeram da terra um lugar habitável. É a sua atividade “poluidora” que altera irremediavelmente este equilíbrio, tornando-a hospitaleiro. Nós não vivemos na Terra, mas dentro da bolha efêmera aberta por outros viventes.

Apenas graças a este poluente extremamente poderoso é que estamos vivos: sem a “poluição” (emissão de oxigênio) das plantas, morreríamos em poucos segundos.

A questão “ecológica”, portanto, não é obviamente a de deter a poluição, mas de compreender que vivente poderá fazer da poluição humana sua condição de possibilidade, seu alimento, seu oxigênio.

Nós esquecemos o papel dos organismos que se alimentam de ruínas, de dejetos: a pesquisa deveria ir na direção daqueles seres que podem reinventar o ciclo metabólico em que ele, o ciclo, parece parar. A questão é sempre: quem pode nascer de nós?”

Nos diz a mesma autora para salientar a profunda desordem da vida. A vida é emergente, muito diversa, portanto, do pensamento e da racionalidade, que são organizadores expressos pelo poder e pela hierarquia diante da vida, como tão bem expressa o especismo em seu alastramento vigoroso que ainda sentimos no nosso presente.

Com o humanismo o homem se colocou no centro de tudo, mas com o especismo, se colocou acima de todos, primeiro o homem europeu, mas com a colonização, os colonizados também passaram a cumprir o papel do colonizador, inaugurando a soberania humana.

Que se alastrou com a religião, as ciências, a educação, o capitalismo alimentando as consciências.

Imaginar os sentidos e as sensações advindas do silenciamento desse dispositivo de intervenção que é o pensamento é muito mais do que enfatizar a soberania da natureza como expressão da vida, mas é religar o humano-terra, esse ser integral com tudo que é vivo, que não utiliza, não submete, não expropria, não usurpa, não usufrui, sem os equívocos dos naturalistas que romantizam sua imersão na natureza como uma dádiva da inteligência e da consciência.

Não serão os seres superiores que continuarão dominando a terra, mas sim aqueles que estiverem ligados ao fluxo magmático pelo cordão umbilical dos sentimentos.

E os sentimentos só prevalecerão com o silenciamento da racionalidade e de todos os seus atributos generosos.

A rigor, nos entendemos como aqueles que detêm esse dispositivo ontológico que chamamos pensamento, mas o ser é apenas uma intensificação de conexões cognitivas que o humano é incapaz de qualificar e sequer de perceber, que são os sentimentos advindos de toda vida quando se dilui sua performance egoísta.

Os mais corajosos ensaios sobre decolonialidade sugerem que a única forma de escapar da danação colonizadora é desaprender a língua colonizadora e retornar às formas de linguagem anteriores ao processo colonial.

Ora, a língua e a linguagem são os atributos fundamentais do pensamento, são seu nutriente. Reconhecer que ela é o sedimento colonial implica em reconhecer que o pensamento é definitivamente seu avatar.

Nossa autora escolhida de hoje é francesa e nutre involuntariamente esse destino metropolitano. É ela quem nos diz que panouranismo explicita que tudo o que é não é senão céu, e o céu não é senão a matéria de tudo.

A palavra grega para céu é ouranos, são as fronteiras em que o pensamento não pode ultrapassar e o céu é apenas o espaço dos entes. E o que circula entre os entes é o sentimento, pois o pensamento é o ego e é o que separa e rompe a ligação entre os viventes.

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), escritor e permacultor

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