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“Quem tem pele escura não passa”, diz fotógrafo português na Ucrânia

Refugiados da Ucrânia, racismo

Fotógrafo português que está cobrindo in loco a guerra na Ucrânia testemunha atrocidades: “Quem tem pele escura não tem vez nem voz.

Os negros ficam em meio a tanto lixo: garrafas, sacos plásticos, uns panos velhos, simplesmente encostados na grade, à deriva. E essa diferença brutal entre eu e eles é que não consigo tirar da cabeça: eu queria cruzar a fronteira, sou branco, passei. Entrei porque sou branco. É uma tristeza constrangedora. Eu não sabia que tinha tantos negros na Ucrânia […] Você me pergunta qual a maior lição que tenho tirado daqui, e eu te respondo: que nós, seres humanos, somos uma grande merda”

A seguir, leia o relato do fotógrafo português Adriano Miranda, de 56 anos, concedido a Daniela Pinheiro, do TAB. O profissional trabalha para o mais bem conceituado jornal de Portugal, o Público, e está neste momento em Lviv, na fronteira da Ucrânia com a Polônia.

por Adriano Miranda

Há quatro dias, chegamos em Lviv, onde ainda não houve bombardeios. A cidade lembra Viena, e o clima na rua pode confundir. Há calma aparente, mas uma tensão premente. Veem-se os militares, os policiais armados com fuzis, mas também os pais que levam as crianças para brincar no parque. Parece o filme ‘A Vida é Bela’: vive-se uma normalidade durante a anormalidade para sobreviver com sanidade. Mas, só hoje, descemos quatro vezes para o bunker, que fica no subsolo do nosso hotel.

A maioria dos prédios têm porões, que se tornaram bunkers para o caso de um ataque. Livrarias, hotéis, museus, em todos há. Mas não são daquele tipo antigo, como os buracos da Segunda Guerra Mundial. O do nosso hotel era um cassino desativado. Tem banheiros, tem até televisão.

A sirene toca e temos que procurar abrigo. Hoje, em um dado momento, a sirene tocou duas vezes num intervalo de apenas 15 minutos. Mais cedo, houve um boato no nosso grupo de WhatsApp (temos um grupo com outros jornalistas portugueses que estão aqui — uns 20, pelo menos) de que a cidade seria bombardeada hoje. Foi quando eu pensei o pior.

Felizmente, não era nada. Eles estão fazendo exercícios militares para treinar a população para correr para os refúgios. Mas como saber se é treinamento ou realidade?

O nível de ansiedade numa situação dessas é tremendo. E a solidão também.

Acho que isso é até pior. Quando você volta para o seu quarto, tudo pode acontecer. E você está trancado lá sozinho.

Eu tenho dificuldade para dormir. Tudo o que eu passo e vejo durante o dia ganha proporção maior quando deito a cabeça no travesseiro.

Restaurantes, cafés estão abertos, mas só até as 20h — os empregados têm que voltar para casa. Não se pode comer do lado de fora. Pode ser por causa do frio (a temperatura média é de zero grau), mas também pode ser por uma questão de segurança.

Estamos comendo muito pouco porque não dá para parar, temos que enviar as notícias para a redação, estamos duas horas à frente no fuso.

Hoje, tudo o que eu comi foi uma fatia de pão, um patê — não sei se era de frango ou de carne. Tanto faz, também.

Ontem, foram dois rissoles e uma lata de suco industrializado. Eu, o repórter (João Ruela Ribeiro) e a nossa tradutora (ele prefere não revelar seu nome) passamos a maioria do tempo caminhando pelas ruas. Não é fácil apanhar transporte público ou táxis.

Chegar em Lviv foi muito difícil. Pegamos várias caronas, entramos em vans com outros jornalistas, com gente desconhecida que só queria sair de Kiev.

Contaram-nos que chegamos aqui na pior hora: quando a cidade ainda não foi invadida, então, pode ter bombardeio, pode ter sniper, pode ter tudo.

Essa é uma cidade-chave porque está no epicentro do ponto de ajuda humanitária de fuga. Eu até trouxe coletes de proteção, desses que se veem nos correspondentes de guerra, mas aqui não é preciso. Nem máscara. Covid-19 não existe mais aqui.

O medo da guerra está lá sempre, mas você simplesmente não pensa muito, não se detém em refletir, só vai, só faz. Como vai ser o dia de amanhã? Não sei, mas vou continuar.

Não sei como ou quando vamos embora. Se chegar foi difícil, ir embora é praticamente impossível. Não há estrutura, nem avião, nada.

Falo com minha mulher, meu filho e minha mãe todos os dias. Pediram-me para não vir. Não tinha como. De verdade, não sei por que vim.

Foi impulso, foi missão. Essa razão patética, desgraçada, curiosa, querer reportar, fazer, mostrar. Considero-me um homem que tem medo, mas aqui não tenho.

Um dos primeiros lugares que fomos foi a um teatro centenário, que havia se transformado em abrigo para as dezenas de refugiados que buscavam segurança ou tentavam fugir para a Polônia.

O lugar é bonito, funciona normalmente como casa de espetáculos. Encheram-lhe de colchões, o que ficou parecendo, à primeira vista, uma instalação, um cenário.

No lugar das cadeiras do público, agora havia uma imensa mesa com doações de comida. No palco, uma bicama.

As pessoas chegam ali sem querer. Há uma solidariedade tremenda. É um clima muito diferente: as pessoas falam baixo, leem, comem, claro. Alguns choram quando, nas entrevistas que nos dão, falam do que aconteceu com eles, mas, em geral, é algo calmo.

Ontem, fomos para a estação de trem. Ali, a situação é dramática. Está tudo misturado, as pessoas só querem entrar num trem e partir.

Mas, mesmo assim, impera uma certa ordem, ainda que todos que estejam lá já saibam o que os espera.

As despedidas já foram feitas antes. Ali, é a imagem do ente querido, do parente, indo embora, sob a nuvem da incerteza se algum dia vão se ver novamente. É fato dado.

Tinha esse pai, que estava com a filha — a história foi a capa do jornal. Ele não tinha ideia de onde estava sua mulher, o que tinha acontecido com ela, se estava viva ou morta.

Ele queria entrar no trem e ir embora com a filha, mas há essa lei que proíbe homens de até 65 anos saírem do país sob pena de serem desertores.

Eles têm que ficar para lutar na guerra. Mas quem ficaria com a menina?

Os guardas não acreditavam na história dele. Esse homem estava desesperado. Ele não pedia água, pão, cobertor, nada. Sabe o que ele queria? Comprimidos. Ele queria calmantes. Ninguém tinha.

Sou um jornalista que acredita na imparcialidade, na distância para não comprometer meu trabalho, na importância de não dar opinião pessoal.

Essa ideia de ser metódico e frio acabou aqui. Eu abraço as pessoas, eu tenho um sentimento fraterno genuíno. Aquele homem… Eu nunca mais vou vê-lo, eu nunca vou saber o que aconteceu com ele e com a filha. Eu nunca mais vou saber deles.

Isso é a pior coisa que pode acontecer a um jornalista. É frustrante, é de uma impotência atroz. Você me pergunta qual a maior lição que tenho tirado daqui, e eu te respondo: que nós, seres humanos, somos uma grande merda.

Na fronteira, vi cenas que nunca imaginei. Vimos aquelas pessoas que tinham abandonado tudo, as que estavam à procura dos familiares, desesperadas, sem nada, com fome, em busca da situação básica de saúde. E o que me tirou absolutamente do sério:

o racismo.

Acho que fomos os primeiros a reportar isto: a diferença de tratamento para os ucranianos brancos e para os indianos, africanos, árabes, que também estavam lá.

Estou falando de imigrantes, desde trabalhadores até estudantes universitários. A diferença já se dava na chegada.

Os que tinham pele escura não tinham vez, iam pro fim da fila, nem tinham voz.

É verdade que, se houvesse uma mulher negra com um bebê no colo, eles a ajudavam, mas ela não tinha o mesmo tratamento de uma ucraniana loira com um bebê no colo.

Em um momento, na fronteira — são tipo 300 metros entre a entrada ucraniana e a entrada polonesa —, havia tantos homens negros e os de pele escura, em geral, em meio a tanto lixo: garrafas, sacos plásticos, uns panos velhos, simplesmente encostados na grade.

À deriva. Eles não iam entrar. E eu não pude fotografar nada daquilo porque os guardas tomariam minha câmera, poderiam me prender.

E essa diferença brutal entre eu e eles é que não consigo tirar da minha cabeça: eu queria cruzar a fronteira, mostrei meu passaporte, sou branco, entrei.

Entrei porque sou branco. Não foi porque eu era A, B ou C. Era porque eu era branco. Os outros estão barrados. Eles não entram porque têm pele escura. É uma tristeza constrangedora.

Também na fronteira nos deparamos com uma fila de 25 km de carros parados, crianças brincando na mata ao longo da estrada e, de vez em quando, aparecia um negro a pé. E é curioso, porque aqueles que não tinham malas com rodas levavam a mala na cabeça, o que me lembrou as mulheres africanas com aqueles alguidares na cabeça.

Ainda ontem vi na estação dois jovens, um deles ferido. Era levado nas costas pelo amigo. Ninguém deu apoio. Nem a polícia, nem as pessoas, nada. Eu não tinha mesmo essa noção da quantidade de pessoas negras que havia por lá.

Nem sei o que fazem lá, se vão trabalhar na colheita, nas estufas, nas obras, não sei.

Eu sempre fui de esquerda, minha família também, sempre me interessei por política desde criança — literalmente.

Mas ser de esquerda ou de direita não faz a mínima diferença. Ainda que tenha muita gente que pensa que isso vem da esquerda porque acha que o Putin é comunista.

Isso é ignorância demais. Quem está nesse mundo e acha isso é porque é ignorante demais mesmo.

Essa guerra é estúpida, cruel, absurda, desumana. As pessoas esquecem que existe a ONU.

E isso aqui virou uma conversa de União Europeia, Otan e Estados Unidos. Não pode ser isso. São duas nações soberanas, civis, que estão sendo massacradas.

E veja que não faço distinção entre o povo ucraniano e o russo. São seres humanos.

Fotógrafo português Adriano Miranda, de 56 anos

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