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WikiLeaks diz que grupo antidireitos europeu tem mais de 200 sócios brasileiros

Criador do site Wikileaks é preso na embaixada do Equador em Londres ´foto arquivo

Brasileiros estão entre os principais sócios dos movimentos ultraconservadores de extrema direita HazteOir e CitizenGO, sediados em Madri, na Espanha.

Documentos publicados pelo WikiLeaks – em vazamento nomeado “A Rede da Intolerância” – revelam a mobilização dos grupos que promovem agendas antidireitos, como iniciativas contra o aborto legal e contra pautas LGBTQIA+, em vários países.

Entre os mais de 17 mil arquivos, a Pública encontrou uma lista que cita mais de 200 brasileiros que seriam sócios das organizações.

Entre eles há servidores públicos, ex-candidatos a cargos políticos, empresários, médicos, juristas e nomes ligados a grupos que disseminam desinformação no Brasil.

A CitizenGO foi lançada como plataforma internacional da HazteOir em 2013, tornando-se o guarda-chuva do grupo ultracatólico, que já realizava campanhas LGBTfóbicas e contra direitos reprodutivos na Espanha desde 2001, e que também é conhecida por possíveis conexões com a sociedade secreta católica El Yunque, do México.

Apesar da mudança de nome, a principal estratégia de atuação continuou sendo o ciberativismo, com a organização de petições on-line, e o lobby político.

Na justificativa para o vazamento dos documentos o WikiLeaks afirma:

“Ambas, a HazteOir e a CitizenGO, veiculam suas campanhas e outros trabalhos usando o disfarce de princípios familiares, mas os documentos vazados evidenciam que seus valores são traçados em um universo ultraconservador cristão.

Eles fazem muitas ações on-line através de petições, mas também trabalham no mundo real. Como, por exemplo, com o “Ônibus do Ódio” – um ônibus laranja brilhante que estampa slogans como ‘Meninos são Meninos’ e faz tours pela Espanha e América”.O comunicado se refere ao “Free Speech Bus”, ônibus que carrega mensagens transfóbicas pela Europa e Estados Unidos.

Microdoações voluntárias ( grassroots ) são a principal fonte de renda da CitizenGO, segundo seu site. De acordo com os documentos vazados, em 2014 brasileiros fizeram 102 doações para a entidade, totalizando 1.222,18 euros.

Um documento interno da CitizenGO, acessado pela Pública em colaboração com o site mexicano Contralínea, mostra o Brasil como o quinto país em volume desse tipo de doações, atrás apenas de Itália, Polônia, Reino Unido e Espanha, onde fica a sede.

Nas Américas, segundo esses documentos, os brasileiros lideram os apoios financeiros ao grupo ultraconservador, ficando à frente de países como México, Canadá e Estados Unidos.

A lista com mais de 200 nomes de cidadãos brasileiros identificados como sócios, à qual a reportagem teve acesso e que também está entre os documentos reunidos pelo WikiLeaks, mostra 182 pagamentos feitos na moeda brasileira BRL (real); um montante de R$ 1.873,05, com doações entre R$ 0,87 e R$ 28,94.

Esse outro documento não detalha o montante doado por cada sócio, nem a data dos repasses, mas é possível saber que os apoiadores são de várias localidades: desde capitais como Brasília, Manaus, Fortaleza, Belo Horizonte, Goiânia e São Paulo até cidades como Ouro Branco, em Minas Gerais. Há ainda uma outra lista com quatro doadores brasileiros, que registra repasses feitos em 2009, no valor total de 140 euros.

Em entrevista à Pública , no entanto, o pesquisador e secretário do Fórum Parlamentar Europeu para os Direitos Sexuais e Reprodutivos, Neil Datta, afirma que as doações mais altas à CitizenGO vêm de outras fontes:

“A CitizenGO alega que é financiada apenas por pequenas doações feitas por cidadãos, mas isso não é totalmente verdade. Por um lado, ela tem muitas pequenas doações de indivíduos […], mas você não pode simplesmente criar um site e começar a coletar dinheiro sem um capital inicial.

E o que o vazamento do WikiLeaks mostra é que, para estabelecer a CitizenGO, a HazteOir fez basicamente o que todos fazem, que é criar um documento com um conceito e mandar para potenciais doadores pedindo US$ 100 mil, US$ 200 mil. E quem são esses doadores que eles abordaram? Primeiro os bilionários espanhóis. […] Famílias ricas, algumas da aristocracia espanhola. Eles abordaram também o bilionário mexicano Patrick Slim, que é suspeito de estar associado ao El Yunque, e dois oligarcas russos [Vladimir Yakunin e Konstantin Malofeev] que tiveram conexão com separatistas ucranianos de extrema direita.

Em termos de lavagem de dinheiro, uma coisa que o WikiLeaks mostra é que a CitizenGO também foi financiada por um político italiano [Luca Volontè], que no começo deste ano foi condenado a quatro anos de prisão porque estava recebendo dinheiro ilegal vindo de fontes de corrupção do Azerbaijão em troca de votos contra os direitos humanos do Conselho Europeu.

Então você tem o financiamento vindo de famílias aristocratas espanholas, lavagem de dinheiro e oligarcas russos na base da CitzenGO”, explica.

Vazamento “A Rede da Intolerância” mostra a atuação de grupos conservadores para a promoção de agenda antidireitos.

Neil Datta detalha essas doações no estudo “ Tip of the Iceberg – Religious Extremist Funders against Human Rights for Sexuality and Reproductive Health in Europe 2009-2018” (A ponta do Iceberg – Financiadores extremistas religiosos contra os direitos humanos para a sexualidade e saúde reprodutiva na Europa de 2009 a 2018, em tradução livre) e afirma que em dez anos o financiamento a grupos e ações antidireitos humanos (por exemplo, ações para fazer retroceder direitos ao aborto e direitos reprodutivos em geral, divórcio, direitos LGBT, políticas antigênero) foi de mais de US$ 700 milhões.

Sócios no Brasil
Entre os nomes citados na lista onde aparecem mais de 200 nomes de brasileiros como sócios da CitizenGO estão pelo menos três servidores Federais: o ex-candidato a deputado estadual pelo PSL do Rio de Janeiro Douglas Lacerda, que é técnico do Ministério Público da União (MPU); o servidor da Câmara do Deputados Vilson Pereira de Sousa, que faz parte do quadro efetivo da Casa e usou o e-mail institucional no cadastro da CitizenGO; e a funcionária concursada da Petrobras Ludmila Carvalho Coradine.

No Gab, uma rede social de ultradireita, Douglas Lacerda fez posts defendendo o voto impresso auditável e ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF).

“Não confunda discurso de ódio com verdades que você odeia. Uma mentira repetida mil vezes se torna jornalismo”, escreveu na descrição do seu perfil. Ludmila, além de contratadora de serviços da estatal desde 2006, se apresenta como “mentora de mães” e é dona da plataforma “Multimãe”.

Presidente da HazteOir em frente a ônibus considerado transfóbico
A lista de brasileiros associados à CitizenGO inclui ainda acadêmicos e médicos que misturam discurso científico e religioso.

Um deles é Daniel Secco, coordenador do curso de engenharia mecatrônica da USP São Carlos.

Além de orientar alunos e ministrar aulas na universidade, ele é representante da entidade cristã “Ministério de Universidades Renovadas” no campus.

Outro nome citado no documento é o do professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Marco Ridenti.

Ele mantém o “Diálogos Fé e Ciência”, um canal no YouTube que se autointitula “um grupo ecumênico”, embora seja apoiado pela Paróquia Salesiana Sagrada Família, que é católica.

Ridenti também assinou um artigo na Gazeta do Povo no qual questiona o lockdown como medida de combate à pandemia.

Uma das discípulas de Olavo de Carvalho], a advogada Martha Balby Gandra, também está listada entre os sócios da CitizenGO.

Em post do blog de Carvalho, há uma menção a ela como “musa olavete”.

Também olavista, Marlon Derosa é listado como doador da organização. Ele é diretor da editora conservadora Estudos Nacionais e colunista no portal de mesmo nome, onde publica artigos de opinião defendendo, entre outras coisas, a criminalização total do aborto e a regulamentação do homeschooling (ensino doméstico) e criticando o que ele chama de “agenda globalista”.

Em alguns de seus textos no site, ele divulga petições da CitizenGO.

Derosa é especializado em “bioética”, área de estudo transdisciplinar entre biologia e filosofia, muitas vezes usada por conservadores para misturar a moral judaico-cristã com a ciência.

Dentro dessa especialidade, publicou os livros “Abortos forçados”, “Abortos ocultos” e “Precisamos falar sobre aborto: mitos e verdades”, e coordena um grupo de Telegram antiaborto chamado “Formação Pró-Vida”.

Nas redes sociais, ele ainda compartilha conteúdos contra anticoncepcionais e fertilização in vitro .

Em resposta à reportagem, Derosa contou ter conhecido a CitizenGO “pela internet, por ver petições online” e confirmou ter realizado doações de R$ 10 mensais, sem detalhar o período, que já teriam sido canceladas.

“Não há uma associação, qualquer cidadão pode doar pelo site esses valores se quiser apoiar a ONG”, afirmou.

Outro articulista de site de extrema direita também aparece na lista de sócios: Lívio Oliveira.

O economista escreve para o “Vida Destra”, onde publica textos como o intitulado “A importância da Religião na Economia”, muitos deles com elogios a Bolsonaro.

Em um de seus artigos, publicado em março de 2020, Oliveira chamou de “grito de Independência” as manifestações antidemocráticas , que atacaram instituições como o Congresso e o STF e geraram aglomeração em meio à pandemia de Covid-19.

A reportagem contatou todos os apontados como sócios ou doadores, mas não obteve retornos até a publicação.

O coordenador da entidade no Brasil, Guilherme Araújo, escreveu à Pública :

“A CitizenGO é apartidária. Qualquer aproximação com figuras políticas se dá por afinidade de valores e das petições, na medida em que algumas dessas figuras se identificam com alguma petição ou utilizam a plataforma para fazer alguma campanha”.

Por email, o diretor pontuou ainda que qualquer pessoa pode fazer uma petição na plataforma.

Neil Datta afirma que a HazteOir e a CitizenGO têm conhecida relação com o partido de extrema direita espanhol Vox e que a estratégia é coletar assinaturas através de diferentes causas para depois pedir doações financeiras e engajar as pessoas em causas relacionadas ao espectro ultraconservador:

“Eles abordam essas pessoas com pedidos de financiamento. Esse é o principal objetivo das petições. Você tem esses milhões de endereços de e-mails e pode pedir que eles mandem 5€, US$ 2.

Além disso, você assina uma petição e depois outra, e acaba em várias listas, sendo abordado para mais e mais doações”.

Por outro lado, ele explica que quem cria as petições também recebe dinheiro:

“Eles estabelecem acordos em que dizem: “Nessa língua você vai produzir esse tanto de petições e por essas petições nós vamos lhe dar esse valor em euros ou dólares. Se você criar dez petições, nós vamos lhe dar mil euros por petição. E por cada cem ou mil assinaturas nós vamos lhe dar esse tanto de dólares e euros, e você compartilha essas assinaturas com a gente”.

Operações no Brasil
No Brasil, a CitizenGO abriu uma filial em 2016, registrada em Belo Horizonte (MG).

“Em quatro anos de atuação arrecadamos cerca de 120 mil reais, com contribuições mensais na faixa de R$2,5 mil”, respondeu por e-mail à Pública o diretor da associação, Guilherme Ferreira Araújo. Católico conservador, dono de uma editora de publicações religiosas e tradutor.

Além de sua militância a favor da agenda ultraconservadora nas campanhas da CitizenGO, Araújo criou a Edições Cristo Rei para “contribuir para a instauração do Reinado Social de Cristo”.

A ideia reúne católicos que defendem a instauração de uma sociedade regida pela lei divina, que siga as regras da doutrina católica.

O projeto de transpor princípios religiosos para leis e decisões judiciais é um ponto comum que une a atuação da CitizenGO e de outros grupos ultraconservadores no Brasil.

Araújo é ligado ao Centro Dom Bosco , uma entidade católica que trabalha com a missão de “recristianizar o Brasil”, através de influência no debate público e incidência política, com interlocutores como a deputada federal Chris Tonietto (PSL-RJ), uma das principais articuladoras de pautas antiaborto na Câmara dos Deputados.

Ela aparece em um post da entidade no Facebook , ao lado de uma assessora e de Gregory Mertz, um ativista da CitizenGO nos Estados Unidos, durante a 63 a CSW – 63ª Sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher das Nações Unidas. O Brasil foi representado no evento por Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Em uma petição dirigida à ONU, a entidade afirma que “três militantes pró-vida da CitizenGo participariam das negociações”, muitas delas sobre direitos reprodutivos e igualdade de gênero.

O diretor da CitizenGO Brasil e Chris Tonietto têm atuações complementares na defesa de pautas ultraconservadoras e interagem nas redes sociais. Em 2019, Araújo publicou uma campanha da CitizenGO para que o estudioso Paulo Freire, reconhecido mundialmente, deixasse de ser o patrono da educação no Brasil.

O diretor marcou a deputada pedindo ajuda na divulgação, ao que ela respondeu positivamente. Em outra ocasião, o diretor da CitizenGO Brasil foi convidado para ser mestre de cerimônias do lançamento da Frente Parlamentar contra o Aborto na Câmara dos Deputados.

Agência Pública

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