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Atacando salários, Guedes transfere sua incompetência para os trabalhadores

Brasil: inflação quase 11% 2021

O secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Juruna, criticou a argumentação do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao atacar os reajustes salariais de servidores em tom apocalíptico.

Segundo o ministro, o aumento salarial para o funcionalismo gera inflação, endividamento e juros altos.

Em apresentação de balanço de fim de ano da pasta, ele afirmou que a concessão indiscriminada de reajustes sabota as gerações futuras, ao aumentar a dívida pública.

Para Juruna, esse discurso busca poupá-lo de sua incompetência, já que ele é o comandante da política econômica de Bolsonaro desde 2019. Ele é o culpado pelo cenário econômico.

“Querer jogar nas costas dos trabalhadores e do funcionalismo público a causa da inflação é buscar subterfúgios para sua incompetência”.

O tom cataclísmico de Guedes se expressa rumo ao longo prazo.

“Se todos tiverem esses aumentos, será uma desonra com as futuras gerações. Que aí nós vamos [ver]: a inflação vai voltar, nós vamos mergulhar no passado. Nós vamos nos endividar em bola de neve de novo. Os juros vão subir, a inflação não terá tido uma alta temporária, será uma alta permanente”, declarou o ministro.

Com essa retórica, Guedes se exclui de qualquer cenário catastrófico para a economia. Os problemas da economia nunca serão responsabilidade dele, mas de fatores externos a sua gestão.

Preparando-se para a estagnação pós-pandemia

Para Juruna, o que tem causado prejuízo ao país é justamente a maneira como o governo Bolsonaro conduziu a pandemia, tem aumentado de forma acelerada e drástica a taxa de juros e eliminado qualquer possibilidade de investimento público em todas as áreas.

As declarações de Guedes ocorrem um dia depois de sua pasta enviar ao Congresso Nacional ofício em que solicita a abertura de R$ 2,5 bilhões no Orçamento de 2022 para a concessão de aumentos para algumas categorias de servidores.

No documento, a pasta pede também R$ 355 milhões em emissão de títulos públicos para financiar o aumento da contribuição da União para a previdência desses servidores.

Sua retórica antecipa as críticas do funcionalismo, já que a medida parece atender a promessa do presidente Jair Bolsonaro, nesta semana, de garantir aumentos para policiais federais, policiais rodoviários federais e agentes penitenciários em 2022.

“O Brasil vai mergulhar num passado conhecido e tenebroso [se todos os pedidos de aumento forem concedidos]. O nosso papel é assegurar que isso não aconteça”, afirmou o ministro.

Guedes ressaltou que o congelamento da remuneração do funcionalismo, que vigorou entre junho do ano passado e dezembro deste ano, foi necessário para elevar os gastos com saúde ao longo dos anos de pandemia.

O tom triunfalista, por sua vez, é adotado para atribuir a seu governo os poucos e tímidos avanços ocorridos durante a pandemia, conforme ela arrefece.

Segundo Guedes, 2021 foi o ano em que o país “se reergueu”, depois de enfrentar “receios” de desemprego em massa, de fome e de registrar centenas de milhares de mortes provocadas pela pandemia.

“Se tivesse que fazer uma síntese de 2021, eu diria que o Brasil se reergueu, e a doença tombou. Fizemos vacinação em massa da população brasileira, de novo surpreendemos o mundo com o funcionamento da nossa democracia”, destacou o ministro.

Sua mensagem omite as enormes dificuldades sanitárias causadas pelo próprio governo, investigado por uma CPI pela sabotagem da vacinação. Embora tenha voltado ao mapa da fome, com imagens escabrosas de miséria pelo país, e uma das maiores taxas de desemprego do planeta, o ministro trata tudo isso como apenas “receio” de que poderia ocorrer.

“O Brasil está em pé porque a economia está como estava no dia em que a doença chegou”, comentou o ministro. Para o ministro, a inflação, atualmente superior a 10% no acumulado de 12 meses, é um fenômeno temporário, decorrente da pandemia.

Ele disse que as maiores pressões em relação aos preços vêm de problemas de oferta, como a escassez global de algumas matérias-primas e a interrupção de fluxos comerciais e de cadeias produtivas.

O problema do argumento é que o Brasil é dos principais fornecedores dessas matérias primas e alimentos do mundo, sem qualquer medida governamental de controle de exportações e garantia de segurança alimentar de sua população.

Juruna ironizou a auto-atribuição de competência do governo, expressa nas pesquisas eleitorais pelos altos índices de desaprovação da política econômica e do governo Bolsonaro, além da previsão de eventual derrota do presidente no pleito eleitoral em 2022.

“Deve ser por isso que estou vendo as pesquisas a favor dele. Por isso, vejo a opinião pública elogiando Bolsonaro e ele”, disse o sindicalista.

Cezar Xavier

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