Porque a renda básica vai ajudar na recuperação do PIB

Navio abandonado no estaleiro em Itajaí

Uma das grandes fragilidades do mainstream econômico brasileiro, nas últimas décadas, foi a absoluta incapacidade de desenvolver visões sistêmicas da economia.

A análise superficial de mercado viciou a mídia a energar a economia apenas a partir dos grandes agregados, sem a menor preocupação em analisar relações de causalidade ou de enxergar a economia a partir da soma das avaliações setoriais e interdisciplinares.

Quanto custou ao país o aumento de juros que desviou recursos do orçamento que poderiam ser aplicados em infraestrutura?

Quanto a economia perdeu em produtividade com a estrada que não foi construída, a pesquisa que não foi financiada, o estaleiro que parou no meio do caminho?

Essa pobreza analítica permitiu a consolidação da visão falsamente simplificadora da realidade econômica, na qual qualquer gasto público foi colocado na conta do desperdício, todo corte de despesas na conta das ações virtuosas, independentemente de qualquer análise de externalidades positivas ou negativas.

Agora, com o avanço das grandes bigdatas, de sistemas mais complexos de tratamento estatístico dos dados, cada vez mais jovens economistas passaram a enxergar a economia a partir de visões complexas, contemplando relações de causalidade mais relevantes do que a mera análise dos grandes agregados.

É o caso do trabalho “Capital e Trabalho no Brasil do Século 21: o impacto de políticas de transferência e de tributação sobre desigualdade, consumo e estrutura produtiva”, da economia Débora Freire, da Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Prêmio BNDES 2018.

Débora se baseou no modelo de equilíbrio geral computável, teoria consolidada em outros centros, a partir de estudos de um modelo da escola australiana.

 Com base na metodologia desenvolvida em sua tese, Débora decidiu analisar os impactos da renda de emergência no desempenho do PIB em 2020.

Analisou 11 faixas de renda das famílias, o impacto das famílias até 3 salários mínimos, que receberiam a renda básica, através de dois cenários: pagamento por três meses ou até o final do ano.

E incluiu, na ponta da oferta, 56 setores produtivos, a partir das contas nacionais do IBGE.

Até 3 SMs, qualquer renda é consumo na veia. Todo o dinheiro recebido vai para o consumo. Assim, o consumo das famílias até 3 SMs – beneficiárias da renda básica – se espraia pelas demais faixas de renda, através do aumento das vendas dos setores, especialmente aqueles com classificações maiores no consumo as famílias: alimentos, bebidas, artigos de vestuário, calçados, produto farmacêuticos.

E setores mais voltados para o mercado interno, especialmente setor de serviço. Há impactos, então, na produção, no emprego, no consumo das famílias, nos investimentos e na arrecadação.

Pelos cálculos, três meses de renda básica promoveriam um desvio de 0,45 no PIB do trimestre. Ou seja, se o PIB cair 1 ponto, haverá a mitigação de 0,45 por efeito da renda básica.

No caso de benefício até o final do ano, o impacto será de 0,55 do PIB. O impacto positivo nas receitas fiscais cobririam 45% do custo da renda básica.

Luis Nassif

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