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Veículos elétricos no Brasil: domínio chinês no mercado incomoda a Tesla de Elon Musk e os EUA?

A poderosa chinesa BYD

Uma das principais fábricas automobilísticas do Brasil, localizada em Camaçari (BA), é uma síntese do mercado nacional: em 2021, as atividades foram encerradas pela norte-americana Ford, e o espaço foi comprado anos depois pela chinesa BYD, que em março iniciou as obras para a instalação de um novo complexo de produção de carros elétricos.

Saíram de cena os norte-americanos e entraram os chineses. Era fim de 2021 quando uma decisão da Ford, primeira montadora a se instalar no Brasil, surpreendia o mercado local: após mais de um século fabricando carros no país, a montadora dos Estados Unidos anunciava o encerramento das atividades com o fechamento de três fábricas — nas cidades de Horizonte (CE), Taubaté (SP) e Camaçari — e a demissão de mais de 5 mil trabalhadores.

Em 2019, já havia paralisado uma das linhas de produção mais tradicionais no país, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

Na Bahia, restaram as antigas instalações e um terreno de quase 5 milhões de metros quadrados que foi comprado pelo governo estadual por R$ 290 milhões.

Até que no ano passado a gigante chinesa BYD anunciava a intenção de instalar um complexo fabril na mesma localidade.

Ao custo de R$ 3 bilhões, as obras foram iniciadas no último mês e a área vai receber três fábricas para linhas de montagem e processamento de lítio e ferro-fosfato, além de produção de peças.

Conforme a marca, a expectativa é de produção de 150 mil veículos elétricos por ano entre o fim deste ano e o início de 2025. Além disso, é a primeira fábrica de veículos totalmente elétricos do Brasil e também a primeira da BYD fora da Ásia.

Enquanto a chinesa conquista o mercado brasileiro a passos largos, a principal concorrente no âmbito internacional sequer iniciou as atividades no Brasil: a Tesla, do bilionário Elon Musk, que nas últimas semanas chegou a atacar o governo brasileiro e até o Supremo Tribunal Federal (STF) ao ameaçar não cumprir decisões judiciais relacionadas à rede social X.

Na América do Sul, a primeira loja da empresa, que no início do mês anunciou a demissão de 10% dos funcionários, só foi inaugurada em janeiro deste ano no Chile, enquanto no Brasil a expectativa é só para o fim do ano.

Dados da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE) revelaram que no ano passado a venda de carros elétricos no país foi recorde: ultrapassaram 93 mil unidades, um número 91% superior ao consolidado em 2022.

O doutor em sociologia e pesquisador do Grupo de Estudos da Inovação (GEI) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Rodrigo Wolffenbüttel explicou à Sputnik Brasil que o mercado de veículos elétricos conta com dois tipos: aqueles puramente movidos por bateria e os chamados híbridos, que possuem um preço menor e também funcionam a gasolina ou etanol.

“Se levarmos em consideração os veículos movidos exclusivamente a bateria, temos um predomínio de montadoras chinesas que aconteceu de forma muito rápida. Em questão de dois anos, eles se inseriram, fizeram um grande movimento de entrada no mercado nacional, investimentos e publicidade”, pontua o especialista, que enfatiza ainda os preços mais vantajosos quando comparados aos de outras marcas.

Já o coordenador acadêmico da Fundação Getulio Vargas (FGV) para cursos da área automotiva, Antônio Jorge Martins, acrescenta à Sputnik Brasil que companhias chinesas como a BYD ajudaram também a movimentar outras montadoras já presentes historicamente no país.

Prova disso, segundo o especialista, são os investimentos recordes anunciados pelo setor automobilístico na última semana, em evento que contou até com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — conforme a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), são R$ 125 bilhões previstos até 2032.

“A vinda das chinesas provocou até a comodidade das empresas que se situavam no Brasil, diante da oferta dos veículos elétricos com alta tecnologia e preços menores. Isso fez com que houvesse uma mexida no mercado brasileiro de tal forma que muitas também se voltassem para a motorização híbrida, com um volume de investimentos muito grande, outros menores dependendo do estágio em que se encontram”, resume.

Lucas Morais

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