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Aluna trans agredida diz que não quer voltar para a escola “nunca mais”

Aluna-trans agredida em escola

Uma aluna trans foi agredida por cerca de dez estudantes na última quarta-feira na Escola Estadual Galdino Pinheiro Franco, em Mogi das Cruzes (SP).

A jovem de 16 anos diz que está revoltada e não quer retornar para a instituição de ensino. Exames revelaram que ela sofreu hematomas no rosto, pernas e costas.

“Não quero voltar nunca mais [para a escola], de jeito nenhum. Estou com uma raiva imensa deles. Uma raiva muito grande, com ódio, sangue no olho. Quero justiça”, diz a jovem. “Quer dizer que a gente é transexual, a gente é animal, é um bicho? Não, a gente é humano. Deus ama todos. Lá na frente eles podem ter filhos. Eles não sabem como os filhos deles vão ser”, acrescentou.

“Daqui pra frente eu quero mudar de escola. Estou muito revoltada mesmo. É uma sacanagem uma pessoa, sou uma pessoa, com dez pessoas contra mim. Ninguém aguentaria. Eu fui forte. Se fosse outro, teriam arrebentado a cara”, completa.

O boletim de ocorrência foi registrado como ato infracional de lesão corporal. De acordo com o delegado Francisco Del Poente, só a investigação vai poder dizer se houve crime de homofobia.

Segundo o registro, a confusão começou depois que os meninos da sala começaram a jogar bolachas e fazer piadas contra uma menina negra, amiga da jovem, a chamando de “cabelo duro”.

A estudante trans pediu que eles parassem. Porém, além de desrespeitar o pedido, um dos alunos jogou um copo no rosto dela. A jovem foi atrás para tirar satisfações e afirma que cerca de 10 estudantes começaram a agredi-la com socos e chutes.

“Começou com soco, com chute. Tentei me defender, tentei me esquivar daquilo. Depois me tranquei numa sala. Tentaram abrir a porta para me pegar lá dentro e nós não deixamos barato”, afirma a adolescente.

Durante a briga, segundo a jovem, outras pessoas que não estavam envolvidas também acabaram sendo atingidas.

Ela ainda diz que chutou carteiras e afirma que o ato foi consequência da revolta pela situação que enfrentou.

“Na hora da raiva a gente fica cega. Eu machuquei pessoas que não tinham nada a ver com a briga e entraram no meio. Peço perdão para as pessoas que machuquei”.

Mãe diz sofrer pela filha

A mãe da adolescente afirma que a confusão foi resultado de uma série de agressões sofridas pela filha, por transfobia, desde início do ano letivo, que começou na última quarta-feira (2). Esse é o primeiro ano dela na escola.

“Eles ficam tirando sarro da situação dela. Ela é um ser humano. A gente tem que respeitar todo mundo. Eu acho que cada um vive do jeito que quer. Cada um tem suas escolhas. Acho que eles não tem que ir batendo, socando ninguém, achando que ela tem que ser diferente”.

Ontem chegou no limite. Foram 10 pessoas que bateram nela. Ela ficou nervosa e acabou que ela também foi pra cima das pessoas. Ela falou que não estava aguentando mais, aí ela estourou. Tudo isso já vem acontecendo um tempo”.

“Ela está acuada. Não quer sair. Está com medo, porque ameaçaram de pegar ela lá fora também. Eu não sei o que vai acontecer se ela sair para a rua, porque as pessoas são traiçoeiras também. Não sei o que está acontecendo, o pensamento deles”.

“Eu estou acabada. A gente nunca pensa que vai acontecer com os filhos da gente. Quando acontece, você fica sem chão, não sabe o que fazer. Tem que falar mesmo, sair botando as caras e falando, pra ver se, pelo menos, ameniza”.

O secretário estadual de educação, Rossieli Soares, comentou o caso em uma rede social. Na postagem, ele afirma que não tolera atos violentos dentro das escolas, principalmente motivados pelo gênero.

Diz também que as cenas registradas em Mogi das Cruzes são lamentáveis. Rossieli destaca que a Ronda Escolar e as equipes do Conviva foram acionadas e que foi determinada a abertura de uma apuração imediata do caso.

RPP

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