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Olimpíadas de Inverno com boicote diplomático

Olimpídaas dse Inverno na China enfrenta boicote diplomático

Os Jogos Olímpicos de Inverno iniciaram na última terça-feira (2) na China, com cerca de de 27 mil pessoas entre atletas, equipe técnica, jornalistas e trabalhadores em geral.

Haverá 15 modalidades: oito de gelo e sete de neve. O Brasil será representado por 11 atletas que irão disputar provas de esqui, skeleton e bobsled — esta é a 9ª participação nacional no evento esportivo.

O governo chinês mantém sua política de “covid-zero”, por isso determinou que todas as competições acontecerão em espaços determinados, criando uma bolha de contenção de possíveis contágios.

Além disso, todos os atletas devem apresentar comprovante de vacinação e são realizados testes diários para evitar um surto da doença.

Após ter sido o primeiro país a identificar a presença do vírus sars-cov2, a China também foi a primeira nação a conter o avanço da pandemia. Desde outubro do ano passado, não registra nenhum óbito pela doença e já imunizou 90% da população de 1,4 bilhão de pessoas.

Ao total acumula 139.457 infectados e 5.700 falecidos desde o início da pandemia, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

No entanto, antes mesmo do evento começar já levantou polêmicas por conta do boicote diplomático dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Austrália.

A decisão foi anunciada ainda em dezembro do ano passado com a justificativa de que o governo chinês estaria violando direitos humanos da minoria étnica Uigur, na região de Xinjiang.

“Os boicotes são produto das relações internacionais no momento histórico em que elas acontecem. Nós estamos acompanhando há alguns anos esse embate entre EUA e China e é claro que os Jogos Olímpicos são um momento ideal para que essa rivalidade ganhe proporções internacionais”, comenta a pesquisadora dos Jogos Olímpicos e professora da Universidade de São Paulo (USP) Katia Rubio

Embora promovam o boicote, os EUA e demais nações não impedem que seus atletas participem dos Jogos “Estaremos 100% com eles e vamos torcer de casa”, declarou a porta-voz da Casa Branca Jen Psaki.

Os Estados Unidos levarão um time composto por 224 atletas, o Canadá levará 215 pessoas, o Reino Unido será representado por 50 atletas e a Austrália por 44.

Os EUA são o segundo país com mais medalhas olímpicas nos jogos de inverno, um total de 305 premiações, atrás somente da Noruega com 368 medalhas em 23 edições do evento.

“É uma mudança na postura dos comitês olímpicos nacionais, porque no passado quando o país promovia um boicote aos Jogos, os atletas eram impedidos de participar. Isso implicava numa numa perda para a vida do atleta sem possibilidade de avaliação do impacto”, explica Rubio.

A chancelaria chinesa condenou a ação. “As Olimpíadas de Inverno de Pequim são uma reunião de atletas olímpicos e amantes de esportes de inverno de todo o mundo, não uma ferramenta de manipulação política para qualquer país”, declarou o porta-voz chinês Wang Wenbin.

Pequim chegou a prometer uma retaliação à altura, caso o boicote se confirmasse, mas até o momento o governo chinês não reagiu.

“Eu vejo isso como um gesto triste e desesperançoso. Expressa muito mais da tentativa dos EUA de manipular a audiência doméstica do que provocar uma resposta da China. A resposta da China é correta: estão dando as boas vindas a quem quiser participar”, analisa o historiador e professor da Universidade do Novo México Kenneth Hammond.

Cerca de 30 chefes de Estado e de governo compareceram à inauguração do evento nesta sexta-feira. Os presidentes da Argentina, Alberto Fernández, e da Rússia, Vladimir Putin, estiveram entre os presentes.

O senador Roberto Rocha (PMDB-MA), líder o Grupo Parlamentar Brasil-China, deixou claro que o Brasil pretende estabelecer boas relações com a nação asiática.

“Gostaria de reafirmar o compromisso do Parlamento brasileiro em trabalhar arduamente em favor do fortalecimento dos laços de amizade e fraternidade com o povo chinês e, por meio deste, com os demais povos de todas as nações do mundo que estarão reunidos em Pequim”, afirmou o parlamentar.

Cerca de 1200 atletas participaram da entrega da tocha olímpica num circuito fechado por conta das restrições da pandemia / Iramsy Peraza / Telesur

Boicotes olímpicos

Esta não é a primeira ocasião em que nações promovem um boicote político às Olimpíadas. O primeiro boicote aconteceu em 1920, na Bélgica.

Logo após a Primeira Guerra Mundial, o país que havia sido invadido pela Alemanha negou-se a receber a equipe germânica no seu território.

No entanto, os casos mais emblemáticos foram nas edições de 1980, em Moscou, e 1984, em Los Angeles.

Por conta da Guerra Fria, a geopolítica mundial ainda era determinada pela bipolaridade: de um lado aqueles que apoiavam o capitalismo com os Estados Unidos como potência hegemônica e do outro, os países orientação socialista, alinhados à União Soviética.

Os EUA boicotaram os Jogos Olímpicos de Moscou após a URSS invadir o Afeganistão e decidiram não participar da competição. Ao todo 62 países ocidentais seguiram os passos de Washington e o então presidente Jimmy Carter chegou a ameaçar cassar o passaporte dos atletas que decidissem competir.

Em resposta, na edição seguinte, realizada em Los Angeles, o governo soviético também se negou a participar e cerca de 14 países ficaram de fora dos Jogos.

Mais tarde, em Seul, 1988, a Coreia do Norte quis sediar algumas provas da Olimpíada que aconteceria na Coreia do Sul, mas a ideia foi recusadas pelos sul-coreanos e pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

Em protesto, os norte-coreanos decidiram boicotar os Jogos e foram acompanhados por Cuba, Nicarágua, Etiópia, Madagascar e Ilhas Seychelles.

“O esporte é uma manifestação cultural colocada na sociedade num momento histórico. Então política e esporte são uma coisa assim. Uma coisa única. Se não fosse assim o Comitê Olímpico Internacional não seria uma instituição que vive eleições, que vive a escolha de sede mediada por caminhos políticos. E isso interessa obviamente a quem detém o poder”, defende Katia Rubio.

Essa rivalidade entre as duas maiores potências econômicas mundiais também se expressou nos Jogos Olímpicos de Tóquio, quando o The New York Times mudou sua forma de contabilizar o ranking de medalhas para os EUA permanecerem na dianteira, frente ao êxito da seleção chinesa.

Guerra comercial

Desde 2017, Pequim é o maior detentor de títulos da dívida externa dos Estados Unidos, cerca de 3% do total. Em outubro de 2021, o país asiático possuía US$ 1,065 trilhão (aproximadamente R$ 6 trilhões) em títulos da dívida, equivalente a 20% das ações em mãos estrangeiras.

A balança comercial entre os dois países é favorável para o lado chinês desde 1985. Esse desequilíbrio desencadeou na “guerra comercial” desatada pela gestão republicana.

Desde o início do mandato de Trump, os EUA impuseram novos encargos e sanções contra o governo chinês, que respondeu com mais impostos aos produtos estadunidenses.

Com a legislação que exige que todas as transacionais que se estabelecem em solo chinês devem compartilhar parte da tecnologia com a nação, a China passou da dependência dos componentes estadunidenses a ser praticamente autossustentável no setor tecnológico e sai na frente na corrida pela internet 5G.

Além dos EUA, o Reino Unido também tem uma economia muito imbricada à chinesa. Os dois maiores bancos privados da China são britânicos: HSBC e Stantard Chartered.

“Eles querem usar essa ideia sem sentido de guerra, querem retratar a China como agressiva, uma postura que na verdade representa os Estados Unidos, muitas vezes trabalhando com seus aliados, para manter as provocações. São os EUA que enviam tropas secretas para Taiwan, que enviam força naval para o Estreito de Taiwan, que claramente faz parte do território marítimo chinês, são os EUA que fazem exercícios provocativos no Mar do Sul da China. Então certamente há um componente militar”, analisa Hammond.

Michele de Mello

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