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‘Macumbeira e preguiçosa’: Turistas zombam de mulher de axé em Salvador

Um vídeo feito por dois turistas do Rio de Janeiro tem causado revolta nas redes sociais. Os dois homens aparecem ofendendo uma mulher com indumentárias e roupas características dos povos de axé, no Pelourinho.

Em um dos trechos, um deles questiona: “Aquela baiana ali, ela falou que vai me dar axé. Ela tem cara de macumbeira?“, diz enquanto filma a mulher, que estava sentada do outro lado da rua.

Em seguida, outro turista pergunta ao amigo: “Ela é o que, irmã?”. “Marmoteira“, responde o outro. “E preguiçosa“, diz o homem que filma, enquanto ri e completa: “Ela vai roubar o seu axé, isso sim!“.

Os homens que filmaram o vídeo foram identificados como Rômulo Souza e Ludwick Rego, nutricionista e influenciador digital, com pouco mais de 24 mil seguidores no perfil do Instagram.

Diante do caso, a Associação Nacional das Baianas de Acarajé e Mingau, receptivos e similares da Bahia (ABAM), divulgou uma nota de repúdio sobre o vídeo e ressaltou a importância do Novembro Negro para reflexões e discussões sobre pautas que atingem diretamente o povo negro, como o racismo e a intolerância religiosa.

“Viemos em público acolher essa Senhora, que não é Baiana de Acarajé, mas ganha seu sustento no ponto turístico de Salvador com seu dom de cura com as folhas e boas energias, acolhendo baianos e turistas que solicitam seu serviço. Por tanto Senhor @Ludivickrego e toda sua cúpula que compactua em continuar as chibatadas em nosso povo de negro, de axé e que ganha o sustento da sua família com trabalho digno e merece nosso total respeito e empatia, não vamos tolerar essa sua afirmação tão absurda e cheia de deboche. O Novembro Negro existe para que pessoas como você se eduque e busque dissolver o racismo estrutural para que o mesmo não seja reproduzido“, diz um trecho da nota.

À Alma Preta Jornalismo, a presidente da ABAM, Rita Santos, confirmou que a mulher filmada se chama Eliane de Jesus e que ela não é baiana, mas sim, uma Ekede [cargo no candomblé] de terreiro que dá banho de folhas no principal ponto turístico do Centro histórico da capital baiana.

Em um vídeo, enviado ao G1, Eliane diz que não sabia que estava sendo filmada e só ficou sabendo do vídeo pela internet.

Ela, que trabalha no Pelourinho há mais de dez anos, considerou que a atitude dos turistas foi de intolerância religiosa.

“E eu estou muito indignada, estou muito ferida com isso, porque isso é intolerância religiosa. Eu trabalho no Pelourinho há mais de dez anos, benzo, e sou suspensa como Ekede em uma casa. Então não é certo ele chegar e fazer isso com minha imagem. Isso é uma intolerância contra a minha religião”, afirma.

Retratação
Após a repercussão do caso, os turistas se desculparam e disseram que foi uma “brincadeira”. Em vídeo, também enviado ao G1, um deles usa a palavra “denegrir” para se retratar. A palavra é considerada racista.

“A gente veio aqui nesse vídeo fazer uma retratação, pedir desculpas ao povo da Bahia, ao povo do Pelourinho, ao povo do axé, que em momento algum a gente quis ofender a cultura, né, inclusive eu faço parte do axé, e nós ali estávamos numa brincadeira de uma pessoa que estava vendendo axé, que a gente sabe que axé não se vende. Quem é realmente da religião sabe que axé não se vende. Você abençoa uma pessoa e ela dá aquilo ali que ela pode“, diz Ludwick.

“Foi uma brincadeira entre amigos que a gente postou, foi uma infelicidade, mas em momento algum a gente quis denegrir a imagem da Bahia, quis denegrir a imagem do Pelourinho, quis denegrir a imagem dos baianos, e falar também que a pessoa que nós falamos no vídeo não é uma vendedora de acarajé. Em momento algum nós menosprezamos uma trabalhadora ali, uma vendedora de acarajé, nós fizemos essa brincadeira com uma pessoa que estava tentando vender axé, estava me perturbando para querer benzer minhas guias”, justifica.

Dindara Ribeiro, Alma Preta

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