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Brasil não está se abstendo, diz diplomata dos EUA

Douglas Koneff, diplomata dos EUA

O apoio do Brasil às sanções econômicas contra os russos é uma questão de escolha, disse ao GLOBO o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Douglas Koneff.

Ele afirmou que os EUA aprovam o que o país tem feito em fóruns internacionais e diz que a voz brasileira importa.

Na chefia da embaixada desde 2021, Koneffe ficará no posto até a chegada de Elizabeth Bagley, que aguarda a aprovação de seu nome pelo Senado americano.

O ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, disse que Brasil, China e Índia não querem receber ordens do “Tio Sam”. Como o senhor vê essa declaração?

As observações do ministro Lavrov são uma tentativa da Rússia de encontrar os poucos amigos que eles têm para enfraquecer a determinação das nações democráticas, mas não vai funcionar.

O presidente Jair Bolsonaro evita falar mal da Rússia. Isso incomoda aos EUA?

As ações do Brasil importam, a voz do Brasil importa. Estamos vendo o Brasil votar na Assembleia Geral da ONU, no Conselho de Segurança, no Conselho de Direitos Humanos…

O Brasil não está se abstendo, o Brasil assumiu uma posição com outras nações democráticas de que a única solução é que acabem imediatamente as hostilidades, que as partes voltem para a mesa de negociações.

Agradecemos as posições do Brasil sobre isso. Brasil e Rússia também têm uma relação de longa data e esperamos que o Brasil use qualquer influência que tenha no governo russo para acabar com essa guerra.

Mesmo condenando a invasão, o Brasil não é a favor de sanções…

Esta é uma escolha que todas as nações precisam fazer. Mas esperamos que todos os países ao redor do mundo usem qualquer influência que tenham para tentar acabar com esta guerra, se eles têm um relacionamento com Vladmir Putin, e exortá-lo a acabar com essa violência contra cidadãos ucranianos.

O presidente Biden conversou hoje (ontem) com o presidente Xi Jiping, da China, pedindo-lhe que use sua influência com Putin para encerrar essa guerra.

Há muitas críticas aos EUA, que invadiram o Iraque e nunca sofreram sanções por isso…

Esta não é uma situação comparável, é muito diferente. O que estamos tentando fazer é prevenir e acabar com a violência.

É por isso que há mais de 30 países se unindo para impor amplas sanções econômicas contra o governo russo e vamos continuar e aumentá-las, se for necessário para acabar com essa guerra e devolver o futuro ao povo ucraniano.

Como os EUA veem a proposta da ministra da Agricultura, Teresa Cristina, de excluir os fertilizantes das sanções?

Os fertilizantes não são um item proibido sob sanções econômicas, que dificultam a compra de fertilizantes porque é muito difícil transportá-los da Rússia ou Bielorrússia para o Brasil.

O Brasil considera importante reduzir sua dependência de fertilizantes de qualquer país, e isso inclui a Rússia, que representa 23% das importações desses produtos. Os EUA podem trabalhar com o Brasil para reduzir essa dependência.

Brasil e EUA poderiam fazer outras parcerias para reduzir os efeitos das sanções em suas economias?

Essas sanções econômicas foram adotadas porque Putin começou uma guerra, e Putin pode acabar com essa guerra amanhã, se quiser.

Essas sanções têm impacto nas famílias dos EUA, que também estão pagando muito mais caro pela gasolina, a inflação está alta, da mesma forma que está acontecendo aqui no Brasil.

Precisamos trabalhar juntos para mitigar os impactos das sanções econômicas, porque não sabemos quanto tempo elas vão durar.

Putin está muito nervoso com essa incrível coordenação entre os países, tanto em sanções econômicas, como em fertilizantes, alimentos e petróleo.

Há espaço para uma aproximação política entre os presidentes Biden e Bolsonaro?

Temos uma relação próxima. É inédita a forma como as nossas instituições e nossos setores privados trabalham em conjunto.

O Brasil é um dos nossos parceiros mais próximos em muitas áreas: democrática, econômica e cultural. Tenho certeza que nós também continuamos avançando em coisas boas para os EUA e o Brasil.

Há preocupação de que Bolsonaro possa atacar instituições brasileiras durante as eleições?

Temos confiança na capacidade do Brasil de realizar eleições livres em outubro.

Vocês têm um processo eleitoral que causa inveja a muitas nações, incluindo os EUA, onde levamos muito tempo para contarmos nossos votos. No Brasil é um processo muito eficiente. Suas instituições são fortes.

Qual a avaliação dos EUA sobre o Brasil do ponto de vista ambiental?

O desmatamento é claramente um problema. Os dados que vimos nos últimos meses não são animadores. Mas todos nós precisamos trabalhar juntos para resolver isso.

A comunidade internacional, os mercados globais, investidores e consumidores estão todos olhando como o Brasil vai implementar essas promessas, como o fim do desmatamento ilegal até 2028.

O Brasil pode ser um modelo para o mundo quando se trata de desenvolvimento sustentável.

O Brasil pode contar com os EUA para acessar a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)?

Com certeza. Já há algum tempo apoiamos a adesão. O Brasil merece estar na OCDE por muitas, muitas razões. Está mais adiantado do que qualquer outro país no cumprimento dos requisitos.

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