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Construção de base militar dos EUA na patagônia argentina gera repúdio da população

Reativada em 2018, a construção da base militar dos EUA em Neuquén foi denunciada pela própria população local.

Uma base militar dos Estados Unidos está em processo de construção na patagônia argentina, sul do país, na província de Neuquén. Bancada por fundos do Comando Sul, unidade de operações militares dos EUA na América Latina e o Caribe, a construção é estimada em US$ 1,3 milhão e avança silenciosamente desde o ano passado, sem alardes nem anúncios por parte do governo nacional.

Oficialmente intitulado como Centro de Operação e Coordenação para Emergências, o projeto é definido pelo governo estadunidense como uma base de ajuda humanitária, atendendo ao pedido do governo de Neuquén para “albergar a membros da Defesa Civil e outros corpos” para enfrentar os “desastres naturais”.

O governo da província estaca, em comunicado, que o projeto se enquadra no programa de Assistência Humanitária e Resposta a Desastres, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Citam, como exemplo, a assistência nos territórios do Chile e do Haiti após serem afetados por terremotos.

No mês passado, em 26 de abril, a chefe do Comando Sul, Laura Richardson, visitou a Argentina e se reuniu com o Ministro da Defesa, Jorge Taiana, para discutir sobre cooperação militar.

A base dos Estados Unidos não consta entre os tópicos oficiais tratados no encontro. Consultado pelo Brasil de Fato, o Ministério da Defesa negou ter qualquer relação com a construção da base militar estadunidense no sul do país.

Por sua vez, o governo de Neuquén tampouco respondeu às solicitações judiciais apresentadas pela sociedade civil, que exige transparência sobre os atos públicos e a publicação dos documentos do acordo, conforme estabelece a Constituição.

Segundo o jornal Río Negro, autoridades da província negam tratar-se de uma base militar, e afirmam que o terreno de 14.940m² será destinado para escritórios da Defesa Civil e um galpão.

Caravana em 2018, em Neuquén, contra a base militar dos EUA teve a presença das Mães da Praça de Maio. / Multisectorial No a la Base Yanqui en Neuquén

A resistência da população foi determinante para que o projeto fosse postergado até hoje. A primeira tentativa dos EUA de instalar bases militares, em 2012, incluía Neuquén, no sul, e Chaco, ao norte do país.

Ambas propostas foram barradas após o repúdio popular e o apoio de algumas figuras do governo naquele momento.

Também demonstram que a escolha dos locais para instalar bases não é aleatória, mas costuma coincidir com a presença de recursos estratégicos no território, como a água doce.

“Essa história já tem 22 anos”, diz Elsa Bruzzone, historiadora e especialista em geopolítica, estratégia e defesa nacional. Ela conta que em 2000, o governo estadunidense denunciou a suposta existência de células terroristas do grupo libanês Hezbollah e da organização palestina Hamas na zona da Tríplice Fronteira.

“A zona consiste em um dos pontos mais importantes de recarga e descarga do aquífero guarani, o 4º maior reservatório de águas subterrâneas do mundo e compartilhado entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.”

Na mesma época, as agências de inteligência norte-americanas também apontaram para a suposta presença do grupo Hezbollah na Venezuela.

Como secretária do Centro de Militares para a Democracia Argentina (Cemida), Bruzzone alerta sobre as implicações de uma base militar dos Estados Unidos no território.

Destaca que nunca houve um relatório ou observação que comprovasse a existência de grupos terroristas na Tríplice Fronteira.

“Os Estados Unidos marcam os inimigos que enfrentam para instalar-se nos territórios. Há a luta contra o narcotráfico e o terrorismo; os desastres naturais; as migrações; a ajuda humanitária”, diz, mencionando as bases secretas, conformadas sob as mesmas justificativas.

Prisão da base naval dos EUA em Guantánamo, Cuba, criada após os ataques de 11 de setembro, detém pelo menos 40 presos políticos.

“Todas as bases dos EUA descobertas na Colômbia entraram como ‘luta contra o narcotráfico e o terrorismo’. As bases da OTAN nas colônias centro-americanas são bases militares descobertas, como Guantánamo [Cuba]. Em Honduras, está a base Soto Cano, também descoberta – onde levaram Manuel Zelaya após o golpe de estado em Honduras, em 2009. Em El Salvador estão em Comalapa. No Peru, se instalaram sob o pretexto de ajuda humanitária, cercando toda a parte amazônica do país.”

O avanço sobre a Tríplice Fronteira ocorre em um contexto em que os Estados Unidos já estão instalados no Paraguai, na base de Mariscal Estigarribia, no Chaco paraguaio, e no Brasil, no Maranhão, na base de Alcântara, com os olhos voltados para a Amazônia.

Em 2003, o governo de Luis Inácio Lula da Silva (PT) decidiu retirar o Brasil de um acordo que franqueava acesso aos EUA à base de Alcântara por entender que a iniciativa feria a soberania nacional.

Meses depois, a plataforma sofreu uma explosão deixando 21 trabalhadores mortos e a destruição de um protótipo de lançador de foguetes, quase pronto.

“É uma região que os EUA reclamam soberania desde 1817, começando com o argumento de que o rio Amazonas é a continuação do rio Mississipi. Já previam a riqueza da Amazônia, com seus mais de mil rios, grandes reservas de água doce do planeta, biodiversidade, plantas, que servem de insumo para 80% dos medicamentos dos laboratórios farmacêuticos”, aponta Bruzzone.

“Depois, foram descobertos os hidrocarbonetos e minerais, altamente estratégicos para o desenvolvimento da indústria aeroespacial.”

No ano passado, o governo de Jair Bolsonaro retomou o acordo com os Estados Unidos, entregando as operações de lançamento de foguetes a três empresas ianques e uma canadense.

Nesse sentido, a instalação de uma base na Tríplice Fronteira ainda é considerada pelas organizações como uma pendência para os Estados Unidos, bem como reforçar sua presença em toda a região diante do crescimento geopolítico da China e da Rússia.

“Diversas intervenções de senadores e outros representantes norte-americanos já manifestaram a necessidade de fortalecer sua presença no ‘quintal’ dos Estados Unidos, que somos todos os países latino-americanos”, ressalta Fernando los Bragas, integrante da Multisetorial “Não à base militar ianque em Neuquén”.

“A vinda de Laura Richardson neste ano representa o acordo, que, na verdade, é uma entrega absoluta.”

Base em Neuquén sem licença social

Foi com a mudança de governo que o projeto militar norte-americano avançou na Argentina. Com a eleição de Mauricio Macri (Partido Republicano – PRO), abertamente simpático aos negócios assimétricos da região com os Estados Unidos, o então presidente, em 2018, firmou o contrato com o Comando Sul para a construção da base militar em Neuquén.

E foi além, oferecendo a instalação dos Estados Unidos na cidade de Ushuaia, extremo sul do continente e ponto de acesso estratégico para a Antártida.

Como parte da Terra do Fogo, um arquipélago que forma a “ponta” final do país e do continente, a zona é cobiçada para a criação de um Polo Logístico Antártico como escala para as rotas marítimas à Antártida.

Trata-se de um antigo projeto que move conflitos geoestratégicos entre China e Estados Unidos.

A proposta de Macri não avançou devido à negativa do governo provincial. O governo de Alberto Fernández (FdT) já expressou o desejo de que a China participe do projeto, o qual a Rússia também manifestou interesse.

Atualmente, o desenvolvimento do Pólo Estratégico avança, mas com recursos próprios do Estado, segundo o Ministro da Defesa, Jorge Taiana.

Em 2016, o deputado Luis Maria Bardeggia (Frente de Todos – FdT), de Río Negro, na Patagônia, enviou um pedido de informação ao Poder Executivo, demonstrando preocupação pelas negociações com o governo estadunidense, relatadas apenas pelos meios de comunicação.

Da mesma forma, no ano passado, a deputada Patricia Jure (Frente de Esquerda e de Trabalhadores – FIT) e o vereador César Parra (Partido Obrero) enviaram um projeto solicitando esclarecimentos ao Executivo, já sob o governo de Alberto Fernández, e ao governo da província de Neuquén.

“Qualquer base humanitária ou de intervenção diante de catástrofes para Defesa Civil deve ser construída com fundos provinciais ou nacionais, não com uma doação proveniente de uma força militar ou de um órgão imperialista responsável por massacres ao redor do mundo”, alegaram Jure e Parra no pedido.

Foi no final do ano passado que as atividades sobre o terreno chamaram a atenção da população. Agora cercado com arames e com a estrutura inicial já armada para a instalação, tudo indica o avanço das obras para a estrutura, projetada em cerca de 600m² e localizada  próximo ao aeroporto de Neuquén e aos rios Neuquén e Limay.

Em novembro, a comunidade neuquina apresentou uma ação de amparo através da organização Multisetorial para exigir a documentação sobre o acordo entre Argentina e Estados Unidos. Segundo os denunciantes, o projeto está “camuflado de ajuda humanitária”.

“Estamos trabalhando com o objetivo de informar à sociedade sobre essa situação, e o que significa a presença do Pentágono em qualquer país”, explica Leonardo del Grosso, integrante da Multisetorial e morador de Neuquén.

O ativista ressalta que as irregularidades no processo de instalação da base são apenas um demonstrativo a mais sobre suas reais intenções. “Onde está o Pentágono há terrorismo, narcotráfico, tortura, abusos, massacres”, pontua.

A região da Patagônia guarda importantes reservatórios de água doce e um dos maiores de gás e petróleo não convencional: a formação Vaca Muerta, localizada em sua maior parte justamente na província de Neuquén.

Além disso, organizações alertam para a proximidade com os hectares em posse do magnata britânico Joe Lewis e das Ilhas Malvinas, arquipélago parte do território argentino ocupado pela Grã-Bretanha desde 1833.

“Lewis tem instalado um aeroporto de 2km de extensão, na província de Río Negro, ao lado do oceano Atlântico, através do qual há intercâmbios aéreos constantes com as Ilhas Malvinas”, aponta Fernando los Bragas, destacando a aliança entre Reino Unido e Estados Unidos sobre a região.

Assim, a Patagônia se conforma como um território em disputa, entre os movimentos de governos nacionais e provinciais, os interesses geopolíticos de potências mundiais e a soberania das comunidades locais e dos povos originários, que são continuamente expulsos de seus territórios em prol de atividades extrativistas.

Nesse sentido, os planos por trás de uma anunciada ajuda humanitária para a instalação de bases estadunidenses ficam expostos, como afirma Bruzzone, se traçarmos um mapa seguindo as áreas em disputa pelos EUA.

“Localidade de Resistência, na Província de Chaco, e a Tríplice Fronteira: aquífero guarani. Na província de Neuquén: formação de Vaca Muerta.

Seguimos até Ushuaia: acesso ao Atlântico Sul e Ilhas Malvinas. É o controle total do estreito de Magalhães e do Canal de Beagle e das comunicações entre os oceanos Atlântico e Pacífico”, afirma Bruzzone, destacando que a base dos EUA é como uma base da Otan nas Malvinas.

“Assim, possuem controle de toda a plataforma continental argentina e de todas os jazidas offshore de hidrocarbonetos e nódulos polimetálicos do Atlântico Sul, concentrações de minerais altamente estratégicos para indústrias de todo tipo, mas principalmente aeroespaciais.

Também estendem sua projeção ao oceano Índico e a todo o resto da América do Sul e à Amazônia”, pontua. Para a historiadora, neste esquema reside a diferença entre a visão imperialista sobre este território como “quintal” dos Estados Unidos ou a “Nossa América”, assim como todo o continente africano e países da Ásia Ocidental.

“Isso explica todas essas ofensivas imperiais e colonialistas que se produzem por todos os cantos do planeta. Onde estão as bases, estão as nossas riquezas naturais”, diz a pesquisadora de geopolítica.

Fernanda Paixão

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