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Enriquecimento de urânio pode ser saída para Brasil?

Usina nuclear Angra 1 e 2

Com a instalação de novas cascatas e maior enriquecimento de urânio, o Brasil enxerga, cada vez mais, a energia nuclear como uma alternativa para amenizar a crise das hidrelétricas. A Sputnik Brasil entrevistou analista para saber como está a geração dessa energia no país.

Na semana passada, as Indústrias Nucleares do Brasil (INB), anunciaram que o Brasil vai aumentar em 10% a produção de urânio enriquecido em novembro, com o objetivo de fortalecer a produção de energia nuclear e reduzir a dependência de hidrelétricas.

A INB é uma estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia, e que exerce no país o monopólio da produção e comercialização de materiais nucleares, de acordo com o portal Poder360.

Segundo a mídia, para aumentar a produção do elemento químico, a INB implantará uma nona cascata de ultracentrífugas na Fábrica de Combustível Nuclear (FCN), que fica no município de Resende (RJ).

A projeção é que a fábrica seja capaz de atender 70% da necessidade da usina até 2023, ano em que deve ser inaugurada uma décima cascata.

O Brasil enfrenta a pior crise hidrelétrica dos últimos 91 anos por conta do baixo nível de água nos reservatórios, o consumidor viu a conta de luz chegar nas alturas e a probabilidade de “um apagão geral” se tornou, de certa forma, possível diante desse cenário.

A Sputnik Brasil entrevistou Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), para saber como está a atividade de energia nuclear no país e o andamento para finalização de Angra 3, próxima usina nuclear do Brasil.

Vista das usinas de energia nuclear Angra 1 e 2, no bairro de Itaorna, no município de Angra dos Reis, no sul do estado do Rio de Janeiro. O complexo nuclear na região deve crescer com a construção da usina de Angra 3.

Cunha conta que a INB está inaugurando a nona cascata no município de Resende agora, porém, a instalação de novas cascatas vem acontecendo de forma progressiva no país, uma vez que “todo ano há o estabelecimento de uma nova cascata de produção”.

“O objetivo é conseguir suprir as necessidades [das usinas nucleares] de Angra 1, 2 e 3. Quando Angra 3 estiver funcionando, espera-se ter toda linha de produção com a capacidade suficiente para abastecer a mesma e ainda ‘sobrar’ alguma coisa para vender no mercado internacional”, explicou.

Ao mesmo tempo, Cunha recorda a reativação ocorrida no ano passado da mina de Caetité. Localizada na Bahia, a usina conta com “a maior parte do minério extraído sendo transformado em fosfato, usado na agricultura, entre 70% a 80%, e o restante da parte de urânio é entregue à INB, que detém o monopólio da produção do combustível nuclear no Brasil”.

Concentrado “Yellow Cake” produzido pela usina da INB (Indústrias Nucleares do Brasil), durante análise no laboratório da usina. O concentrado é resultado da aplicação de ácidos sobre o urânio em estado mineral

O especialista destaca que o país é a nona maior reserva de urânio do mundo, e possui uma das ultracentrífugas mais modernas do momento.

“Apesar de estar atrasado e não ter começado a ser construído ainda, temos um projeto importantíssimo que é o Reator Multipropósito Brasileiro [RMB], que vai produzir radiofármacos destinados ao diagnóstico e tratamento do câncer e outras doenças”, disse o especialista ressaltando que o mesmo reator “também testará combustível”.

Para Cunha, é muito importante que o país possa produzir esse combustível já que assim se “garante o suprimento diante de uma indústria mundial extremamente controlada”.

Supervisor de rádio proteção durante monitoramento radiológico no edifício do reator na Usina Nuclear Angra 2. A Usina Angra 3 vai ser exatamente igual a Angra 2, em Angra dos Reis (RJ).

Valor da energia nuclear
Cunha chama atenção para o “papel relevante” que as usinas nucleares podem ter diante da crise dos reservatórios, os quais “há mais de décadas não se recompõem”, adicionando que uma recomposição desses espaços executada através de outros meios, se não a energia nuclear, tem custo elevado.

“A recomposição desses reservatórios através de geração térmica a gás, carvão, óleo, além de poluente, é muito cara. Operacionalmente a energia nuclear é muito barata, apesar do investimento grande inicial, esse valor se paga porque a vida útil de uma usina está chegando a 100 anos, então quando chegar no final, esse investimento valeu a pena.”

E para o desenvolvimento pleno da energia nuclear no Brasil, o especialista diz que é necessário “fazer o projeto de novas usinas saírem do papel, aumentar a escala de produção na linha da INB em Resende e colocar mais cascatas para funcionar. Quanto mais cascatas, maior volume de combustível”.

Conclusão de Angra 3
O especialista relata que a obra da próxima usina nuclear brasileira “foi dividida em dois caminhos”: o primeiro “é o chamado caminho crítico”, ou seja, a tentativa de acelerar uma parte da obra correspondente ao fechamento da parte civil, do domo, da montagem, através de licitação.

“Isso acabou de acontecer, tem uma empresa vencedora dessa licitação e agora está nas mãos da Eletrobras.”

O outro caminho seria relativo ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que contratou uma empresa “que está fazendo todo o detalhamento do restante do empreendimento, inclusive o financeiro”.

“Vai acontecer captação de recursos no mercado via BNDES que está gerenciando isso para injetar na segunda parte da obra […] e a expectativa é que a toda a usina esteja pronta em 2026 entrando em operação em 2027, essa é a expectativa atual.”

Atualmente, a produção brasileira de urânio atende apenas 60% da demanda anual da usina nuclear de Angra 1. Já o restante do urânio enriquecido é importado da Europa e de outros países, como a Rússia e o Cazaquistão. Com a conclusão das obras de Angra 3, a expectativa é que a demanda pelo uso do material aumente.

Yasmin Scale e Ana Lívia Esteves.

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