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Haddad: “se Bolsonaro puder criar as condições objetivas para um golpe, ele irá fazê-lo”

Haddad

 “Bolsonaro não é um raio em céu azul”.

Assim o ex-ministro da Educação e ex-prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, inicia sua resposta à pergunta “Haverá um novo Brasil?”, título do mais recente episódio do Forças do Brasil, novo programa do jornalista Mario Vitor Santos na TV 247.

Explicando o que quis dizer com a metáfora, o também professor de ciências políticas da Universidade de São Paulo (USP) afirma que “Bolsonaro é uma espécie de recidiva de vários problemas insepultos da história do Brasil, [a qual] é marcada pela escravidão, pelo patriarcalismo, pelo patrimonialismo, pelo sexismo, pela misoginia, pelo racismo…”.

Haddad desenvolve a visão de que o país encontra em Bolsonaro o ápice da inércia histórica que nos leva à violência e, dessa forma, não se pode tomar sua eleição como evento anômalo, mas sim como o resultado lógico de uma sucessão histórica extremamente visível.

Mantendo o mesmo tom de fuga a lugares-comuns imposto por Haddad, Mario Vitor realiza uma série de perguntas a respeito da visão de Haddad sobre as eleições de 2022 e a possibilidade de um golpe militar no Brasil, a farsa do PIB, a manipulação midiática promovida pela Rede Globo sobre a segurança pública no país, geopolítica e imperialismo estadunidenses.

Além disso, ao longo da conversa, Haddad falou sobre a possibilidade de candidatura em 2022 ao governo de São Paulo e sobre revolução.

Eleições 2022, impeachment e golpe militar
A respeito da corrida presidencial que nos espera no futuro próximo, o ex-ministro afirma: “eu acho que em 2022, de alguma maneira, o Brasil vai responder à seguinte pergunta: vamos fazer um novo esforço para sepultar, de uma vez por todas, esse atraso que nos acompanha há 500 anos, ou vamos abraçar o nosso passado de violência por mais quatro?”.

Haddad acrescenta ainda que a eleição de 2022 “é uma eleição muito diferente de todas as outras, porque o clima de anti-política em 2018 favoreceu muito a aventura Bolsonaro.

Porém, passados quatro anos, a questão irá se colocar de uma maneira muito mais decisiva e muito mais transparente, até pelo fato de que o ex-presidente Lula muito provavelmente participará da eleição e, nessa condição, as alternativas vão estar colocadas de maneira muito mais eficaz do que em qualquer outro período da nossa história”.

O ex-prefeito acredita, portanto, que o que está em jogo em 2022 é um teste para ver se a população está disposta a optar pela violenta barbárie ou pela quebra da inércia da intolerância.

Está claro para o professor que as consequências da aventura Bolsonaro trouxeram consigo danos cujas dimensões mal podemos compreender.

“O país efetivamente não aguenta o Bolsonaro por mais seis anos”, diz Haddad. Assim, a escolha lógica é tirá-lo do poder e abandonar os 500 anos de violência, porém ficamos à mercê da capacidade do brasileiro de quebrar essa inércia.

Quando questionado a respeito da possibilidade de Bolsonaro sofrer um impeachment antes das próximas eleições, Haddad afirma já ter sido mais otimista.

“Eu não entendia como é que as pessoas poderiam manter na presidência uma pessoa comprometida com o caos, com o genocídio, com a morte deliberada. Eu não entendia como é que o Congresso poderia suportar os últimos 12 meses”, disse.

Ainda acrescentou que pelo menos três quartos dos 400 mil mortos na pandemia poderiam estar entre nós caso “a gestão da crise sanitária fosse minimamente responsável”.

Apesar dos danos causados pelo governo Bolsonaro, Haddad diz: “eu acredito que o arranjo que [Bolsonaro] fez com o centrão dificultará muito a tramitação de um processo de impeachment, porque é um acerto orçamentário como nunca se viu na história do Brasil. […] Até aqui o Congresso tem dado respaldo para toda sorte de irresponsabilidades desse governo”.

O professor afirma, porém, que é completamente favorável ao impeachment.

Já no que diz respeito à possibilidade de um golpe, o ex-ministro da Educação afirma que “se Bolsonaro puder criar as condições objetivas para um golpe, ele sem dúvida alguma irá fazê-lo”.

Haddad diz que “Bolsonaro não tem o menor problema de atacar as instituições democráticas, acabar com o estado democrático de direito”, porém se demonstra cético quanto ao êxito de um movimento como esse.

Com a eleição do Biden, com a eleição do Alberto Fernandez, com uma série de mudanças na geopolítica mundial, ficou mais difícil desafiar as instituições no horizonte do Bolsonarismo. Isso não significa que ele não vai tentar, mas a chance de êxito diminuiu”, disse.

A ilusão do PIB
Conversando sobre as perspectivas de crescimento do PIB para 2021, Mario Vitor pergunta ao ex-prefeito como ele acha que isso impactará as eleições de 2022.

“Até por uma questão de estatística o PIB vai subir. As pessoas precisam compreender que quando o PIB sobe ele pode estar carregando uma inércia estatística do passado recente. Isso não significa que o desemprego está diminuindo – pode significar pouco em termos de bem-estar social. Então eu não acredito que o bem-estar social vai melhorar”, diz Haddad.

Dessa forma, o ex-prefeito explica de maneira sucinta que o crescimento econômico previsto para esse ano não significa que houve melhores resultados na taxa de desemprego ou diminuição da fome no país. É meramente uma consequência matemática e não deve ser interpretado como índice de efetividade do governo.

Eleições ao governo de São Paulo
“Quanto a São Paulo, minha posição é bastante transparente: eu entendo que temos que constituir uma frente para derrotar o candidato do Bolsonaro (por razões óbvias), mas também promover uma alternância de poder no comando do estado. São 28 anos de PSDB – está na hora de São Paulo viver uma nova experiência”, diz Haddad quando questionado sobre sua possível candidatura ao governo.

O petista também diz que “no que depender [dele], faremos todo o esforço para que a gente consiga criar uma frente anti-BolsoDoria. Isso está acima de qualquer interesse pessoal”.

No entanto, de forma clara e simples, Haddad faz questão de dizer: “quando você se senta à mesa para discutir um projeto e alguém já entra colocando seu próprio nome como uma coisa importante para ela mesma, sem que ninguém tenha dito antes, eu acho ruim”. O ex-prefeito, assim, explicita que busca o melhor para o estado e não a execução de uma agenda própria.

Manipulação midiática
A última pesquisa divulgada pelo Datafolha diz o seguinte: Lula está a 3 pontos percentuais das intenções de voto necessárias para vencer no primeiro turno. No entanto, essa pesquisa não foi noticiada pela TV Globo e, segundo o jornalista Mario Vitor, “parece haver um manto de silêncio na emissora a respeito desse assunto”.

Diante disso, Fernando Haddad apontou: “o concessionário de um serviço-público (como o realizado a Rede Globo) pode ter suas preferências partidárias […] porém se ele contamina a informação com a linha editorial, ele está rompendo uma cláusula contratual importante de uma concessionária de um serviço de comunicação”.

O professor demonstrou que há uma contradição entre o dever de informar e uma agenda própria dos concessionários do serviço da Rede Globo.

“Quando você fala em fazer jornalismo por uma concessão pública, isso exige um tipo de comportamento que nem sempre se observa. É necessário separar a linha editorial da informação, das reportagens”, disse.

E ainda apontou as raízes históricas para essa problemática: “essas concessões nunca passaram por um processo que garanta o direito do cidadão à informação fidedigna. Foi tudo fruto de compadrio”.

O professor afirma que grande parte desse processo concessivo se deu ao longo da ditadura militar, durante a qual o governo buscava sustentação e através das concessões a membros de famílias poderosas tentava atingir esse objetivo.

Dessa forma, Haddad lança as provocações: “Quem é que retransmite há 50 anos a Globo na Bahia?

Em Alagoas, quem retransmite?”.

Sem citar nomes, afirma que são as mesmas famílias de sempre – fortalecendo a ideia de que muito se segue por inércia no país.

Segurança pública no Brasil
“Eu acho que nós temos que abrir um capítulo na Constituição Federal a respeito de segurança pública”, disse o professor quando perguntado sobre sua visão diante da política higienista de Bolsonaro, a qual mais recentemente se refletiu na chacina do Jacarézinho. Haddad defende que “temos que ter um sistema único de segurança pública” e passa a enumerar algumas ações que ele crê que devam ser tomadas:

Federalização de alguns crimes;
Alteração do modus operandi da polícia civil dos estados para permitir o ciclo completo – não apenas ficar encarregadas dos inquéritos. Sua atuação deveria estar presente da repressão do crime até a investigação;

Concessão aos governadores a autonomia de organizar as forças policiais como ele entender que seja o correto;

Recriação do Ministério da Segurança Pública.
Quando questionado sobre possíveis manifestações policiais contrárias a essas mudanças, o professor defende: “Tem muito policial militar que concorda com essas mudanças”.

Ainda adiciona: “Você acha que policial gosta de morrer do jeito que estão morrendo?

A quantidade de policiais brasileiros que morrem é um negócio extraordinário.

É a polícia que mais mata, mas é a polícia que mais morre. Então não pense que o policial está feliz”.

Haddad também afirma a gradualidade e positividade da reforma da segurança pública nacional. “Nós não estamos falando em extinguir nada. Estamos falando de uma transição lenta de desenho institucional para beneficiar todo mundo”, disse.

Segundo sua visão, a forma como está desenhada a segurança pública na Constituição Federal é um dos fatos mais ricos em consequências para a violência no Brasil.

“Eu garanto que se mudar o desenho [da segurança pública na Constituição] a gente muda a cara desse país”, afirmou o petista.

Geopolítica e imperialismo estadunidenses
“Os norte-americanos estão organizados de forma nem sempre coerente interna e externamente”, diz Haddad a respeito do modo de ser dos Estados Unidos. Com isso, o petista convém a ideia de que o discurso progressista interno não acompanha de igual medida as ações no globo, onde os EUA ainda agem de forma sumamente imperialista segundo Haddad. Além disso, o ex-prefeito desmente a afirmação de que “o país liberal não possui política industrial”.

“A política bélica americana é a política industrial dos Estados Unidos. É isso que as pessoas precisam entender: os Estados Unidos fazem política industrial pelo orçamento militar, não é pelo BNDES (que eles não tem). É o investimento em tecnologia militar que gerou as principais inovações da terceira e quarta revoluções industriais dos Estados Unidos”, disse.

 Dessa forma, Haddad desconstrói uma das maiores falácias neoliberais e demonstra o forte papel do Estado na economia estadunidense.

Quando perguntado sobre o possível fim do imperialismo, o professor se demonstra cético e discorre ainda mais sobre as contradições dos Estados Unidos.

“Os Estados Unidos foram, a seu tempo, um país anti-imperialista. Eles eram anti-coloniais, anti-monárquicos e depois vieram a ser anti-escravocratas. […] Durante o século XIX inteiro, os Estados Unidos representaram uma luz de modernização das estruturas arcaicas da Europa”, apontou Haddad. O fim dessa postura ocorreu, segundo ele, com a Guerra Hispano-Americana de 1898.

Mudanças na geopolítica latino-americana e revolução
“É necessária uma integração radical latino-americana para forçar um acordo continental americano. Se a América latina não tomar iniciativa de se integrar radicalmente, as chances dos norte-americanos olharem para cá com algum interesse decente, não simplesmente extrair as matérias-primas e os bens primários, é mínima”, disse Haddad.

 O acadêmico da ciência política acredita na necessidade de criar uma integração inter-latinoamericana que transcenda os erros da União Europeia e forme uma instituição forte.

“A União Europeia não é um modelo propriamente, pois apesar de ela ter dado muito certo, ela tem problemas técnicos em sua formulação, em seu desenho”, disse o professor da USP. Ele se demonstra confiante de que esses problemas podem ser superados através da observação da experiência europeia e é necessária a ocorrência dessa revolução.

Entrando no mérito da revolução, o petista disse que “a diferença entre reforma e revolução é o tempo histórico”.

Dessa forma, Haddad defende uma revolução, defende a catalisação de mudanças estruturais no país. Mas reitera: “Dá para fazer isso em ambiente democrático, com respeito às pessoas, como respeito às regras do jogo, sem colocar em risco as conquistas democráticas”.

O professor afirma que “o gradualismo não tem feito bem ao país. Precisamos acelerar o tempo histórico”. Ele ainda aponta que outros países não estão “lentos como o nosso” nessas transformações. “Se a gente não entrar nessa vibração, fica cada vez mais difícil de alcançar [o resto do mundo]”, finaliza Haddad.

Victor Castanho

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