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‘Alvo não é o Hamas’: no Oriente Médio e no mundo, EUA precisam de guerra e caos, avaliam analistas

EUA PERECISA FAZER GUERRA

Especialistas analisam como o desengajamento dos Estados Unidos no Oriente Médio abriu espaço para a China e os impactos da insistência de Washington em manter o apoio incondicional a Israel.

Com um histórico de intervenções no Oriente Médio, os EUA buscam se colocar como mediadores de conflitos e paladinos da democracia na região.

A atuação do país, no entanto, deixa um rastro de destruição. Recentemente, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que os Estados Unidos necessitam de caos constante no Oriente Médio para alcançar seus objetivos.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas analisam se a política de Washington para a região de fato é calcada no acirramento de conflitos e comenta quais benefícios isso poderia trazer para o país.

Para Javier Vadell, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), a declaração de Putin tem como base a incapacidade dos EUA de se adaptar.

“Ele [Putin] vem repetindo isso há tempos, e não só em relação ao Oriente Médio. A única forma [dos Estados Unidos] de responder às novas mudanças da história é por meio da criação de caos. Só que o caos, nesse sentido, eu entendo de uma maneira diferente, porque o caos não é só criado, é uma situação estrutural”, afirma Vadell.

Ele acrescenta que o mundo, hoje, vivencia um período de transição entre uma configuração unipolar — baseada em uma globalização neoliberal, que muitos acreditavam que iria perdurar ainda por muito tempo — e outra configuração, muito mais complexa, com característica multipolar.

Ele destaca ainda que há uma narrativa de Guerra Fria e aponta os documentos recentes dos EUA, que classificaram China e Rússia como potências revisionistas que ameaçam a estabilidade global.

“Está muito longe de ser uma Guerra Fria no estilo da década de 1960, 1970. A realidade é outra. A narrativa se manteve por inércia, mas a realidade é que convivem nessa transição guerras híbridas, guerras localizadas, guerras por recursos.

Não só os velhos recursos tão importantes ainda como o petróleo e o gás, como também novos recursos para novas tecnologias, [e] a China, hoje, lidera na fronteira tecnológica.”

Questionado se a guerra entre Israel e o Hamas beneficiaria Washington, uma vez que os Estados Unidos atualmente detêm 40% do mercado de produção de armas, Vadell afirma que “a produção e a venda de armamento no mundo é um grande negócio, seja de maneira legal e, sobretudo, de maneira ilícita também”.

Porém, ele destaca que os EUA têm outro alvo no conflito atual que não o Hamas.

“Ninguém vai combater um grupo terrorista mobilizando porta-aviões e navios de guerra no mar Mediterrâneo, como estão fazendo os Estados Unidos. Então o alvo não é o Hamas. Por isso, nós temos que observar esse conflito localizado na perspectiva geopolítica global. Nós temos uma configuração e uma mudança nessa geopolítica nos últimos dois anos que qualquer ocidental ficaria nervoso.”

Segundo Vadell, essa mudança está relacionada à aproximação do Irã com a China e à aliança militar firmada entre Teerã e Moscou.

Ele afirma que a entrada do Irã na guerra do Iêmen, apoiando os houthis contra a coligação saudita, que tem o apoio dos EUA, é outro fator de preocupação para os Estados Unidos, assim como a entrada do Irã e dos Emirados Árabes no BRICS.

“Então, o Hamas é mais uma peça. E o conflito Israel-Hamas é mais uma peça em algo muito maior.”

Sputnik/Melissa Rocha

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