Morte de soldada de 20 anos expõe a violência sexual nas Forças Armadas dos EUA

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Vanessa Guillen

O brutal assassinato de uma soldada americana, cujo corpo foi encontrado mais de dois meses após seu desaparecimento de uma base militar no Estado do Texas, vem provocando uma onda de protestos nos Estados Unidos sobre a maneira como as Forças Armadas lidam com casos de assédio e abuso sexual.

Vanessa Guillén, de 20 anos, foi vista pela última vez em 22 de abril na base militar de Fort Hood, uma das maiores do mundo, localizada na cidade texana de Killeen e onde atuam cerca de 40 mil militares.

No dia seguinte, ela foi declarada desaparecida. Durante várias semanas, centenas de soldados participaram das buscas, e o Exército lançou um apelo ao público por informações que pudessem ajudar a encontrá-la.

O caso já havia ganhado atenção nacional quando, em 30 de junho, foram encontrados restos mortais enterrados perto de um rio a cerca de 40 km de Fort Hood. Dias depois, a família anunciou que se tratava de Guillén.

Autoridades militares revelaram que o suspeito na morte de Guillén é o também soldado Aaron David Robinson, de 20 anos, que se suicidou com um tiro em 1º de julho, ao ser confrontado pela polícia. A namorada de Robinson, Cecily Aguilar, de 22 anos, está presa.

De acordo com autoridades do Departamento de Justiça, Robinson teria confessado a Aguilar que matou Guillén a golpes de martelo na cabeça, dentro da base militar. Robinson transportou o corpo em uma caixa e, com a ajuda de Aguilar, desmembrou e ateou fogo aos restos mortais, que foram então enterrados em três covas separadas.

Segundo sua família, antes de desaparecer, Guillén havia confidenciado que vinha sofrendo assédio sexual na base militar, mas não havia feito reclamação formal por medo de sofrer retaliação.

O caso gerou comoção nacional. Nas redes sociais, sob a hashtag #IamVanessaGuillen (Eu Sou Vanessa Guillén), milhares de mulheres integrantes das Forças Armadas, tanto da ativa quanto reformadas, passaram a compartilhar suas experiências de assédio e abuso sexual sofridos enquanto em serviço e os obstáculos para denunciar esse tipo de crime.

Os depoimentos partem de mulheres de diferentes idades e patentes militares. Há inúmeros relatos de estupro, outros de abuso sexual em público.

Algumas revelaram terem sido drogadas ou atacadas enquanto dormiam. Em muitos casos, o agressor era um militar de patente superior e parte da cadeia de comando da vítima.

Essas militares dizem que suas denúncias foram recebidas com indiferença e hostilidade e reclamam de uma cultura nas Forças Armadas que facilita os abusos, encoraja as vítimas a permanecerem em silêncio e protege os agressores.

Muitas relatam terem sofrido ameaças e sido alertadas de que uma denúncia poderia destruir suas carreiras militares. Nos casos em que as denúncias foram levadas adiante, os culpados raramente foram punidos.

Segundo um relatório divulgado em abril pelo Departamento de Defesa, foram registradas 6.236 denúncias de abuso sexual nas Forças Armadas em 2019, aumento de 3% em relação ao ano anterior. Somente 363 casos foram a julgamento em corte marcial, e 138 dos acusados foram condenados. Também foram feitas 1.021 reclamações formais de assédio sexual, aumento de 10% em relação a 2018.

Mas, muitas vezes, as vítimas não denunciam esses crimes. Outra pesquisa do Pentágono, com dados de 2018 e baseada em estimativas, e não em denúncias formais, estima que 24% das mulheres e 6% dos homens na ativa foram alvo de algum tipo de assédio sexual e que 20,5 mil militares sofreram estupro ou abuso sexual (sendo 13 mil deles mulheres e 7,5 mil homens), aumento de 40% em relação ao levantamento anterior, de 2016.

Entre as mulheres que sofreram abuso sexual, 59% foram agredidas por alguém com patente superior à sua, e 24% por alguém em sua cadeia de comando. Segundo o relatório, 76% das vítimas não denunciaram o crime.

Mais de 25% das vítimas que não fizeram denúncia citaram o medo de retaliação por parte de comandantes ou colegas, e mais de 30% disseram temer que o processo fosse injusto ou que nada fosse feito. Entre as mulheres que denunciaram, 64% sofreram retaliação. Um terço das vítimas que denunciam esses crimes acaba dispensada das Forças Armadas em até um ano após a denúncia.

“Entre as mulheres e homens servindo nas Forças Armadas há dezenas de milhares de Vanessas Guillén a cada ano. Mas seus casos, felizmente, não acabam em morte”, diz à BBC News Brasil o coronel reformado Don Christensen, ex-promotor da Força Aérea e presidente da organização sem fins lucrativos Protect our Defenders (Proteja nossos Defensores, em tradução livre).

“A história de Vanessa foi algo que tocou muitas mulheres que passaram por situações parecidas, nas quais foram assediadas e sentiram que não podiam revelar (o assédio) à sua cadeia de comando por medo de retaliação”, afirma Christensen, cuja organização é dedicada a “acabar com a epidemia de estupro e abuso sexual nas Forças Armadas”.

Christensen ressalta que, nesse tipo de crime nas Forças Armadas, a decisão sobre processar ou não cabe a um comandante, que muitas vezes conhece o agressor e tem entendimento limitado sobre abuso sexual.

“Com isso, tem uma ideia preconcebida do sujeito da investigação. Isso afeta sua capacidade de ser objetivo”, afirma.

O caso de Vanessa Guillén é o mais recente de vários crimes anteriores nas Forças Armadas americanas, muitos envolvendo bases militares. Em 2007, a soldada Maria Lauterbach, de 20 anos e grávida de oito meses, desapareceu da base de Camp Lejeune, na Carolina do Norte. Ela foi assassinada por um colega que havia acusado de estupro.

No mês passado, durante as buscas por Guillén, investigadores encontraram os restos mortais de outro soldado que servia na base de Fort Hood, Gregory Wedel-Morales, de 23 anos. Desaparecido desde o ano passado, ele havia sido classificado como desertor.

Em 2015, veio à tona um escândalo envolvendo um sargento responsável pela unidade que recebia denúncias de abuso sexual em Fort Hood. Ele confessou que estava tentando montar uma rede de prostituição, coagindo jovens mulheres que serviam na base a participar.

BBC Mundo

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