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DOIS QUADRINHOS EM BUSCA DE SUA AURA

AURA DOS QUADRINHOS

Walther Benjamin escreveu seu artigo A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica (1936) nos anos em que a cultura de massa ganhava um ímpeto que parecia definitivo.

Ele apontava que as velhas fórmulas de avaliação das obras de arte estavam desaparecendo definitivamente com os mecanismos de reprodução. E que esse fato retirava da obra sua aura, que só se realizava com sua singularidade.

Parecia ser o preço a pagar pela vulgarização dos prazeres estéticos que até então estivera reservado às classes privilegiadas do capitalismo superior.

Uma cultura de elite parecia já anacrônica e descabida, mero exercício de futilidade. O acesso à cultura, seja de que natureza fosse, agora era possível a todos. A Santa Ceia de Michelangelo poderia enfeitar as cozinhas dos proletários sem destoar dos utensílios domésticos típicos de uma classe laboriosa.

Não que os artistas deixariam de procurar os seus mecenas para conquistar nas vanguardas alguma notoriedade, mas os mecanismos que reproduziam indefinidamente a obra já haviam retirado dela qualquer vestígio de aura que marcara o mundo da arte até então.

A aura edulcora a criação no coração da genialidade. É única e irrepetível e essa condição é basicamente privada. Ao público resta a admiração, a veneração e a louvação.

Na mesma época do artigo de Benjamin saía nos Estados Unidos a primeira história do Super-Homem, criado por dois jovens judeus americanos, levando para as histórias em quadrinhos altos conceitos da filosofia alemã, numa vulgarização que teria desagradado Nietsche onde ele estivesse. Não que os nazistas não pudessem fazer ainda pior com seu ubermacht.

O quadro da Monalisa exposto no Louvre recebe milhões de visitantes, mas quando se revelou que foram feitas cópias de segurança, o número de admiradores imediatamente diminuiu. Já não acreditam que aquele que veem contém a aura.

De certo modo, fora do universo dos críticos de arte, a questão parecia resolvida, uma vez que a obra tivesse sua consagração, a questão relativa à aura parecia mais coisa teórica do que prática num mundo vulgar pela excelência do consumismo como ideologia.

As histórias em quadrinhos já tinham uma trajetória bastante consolidada quando um editor francês resolveu investir novamente na aura, desafiando as análises depurativas justamente num universo de multiplicidade numérica quase infinita.

1967 é um ano paradigmático quando se trata de cultura. A ebulição e efervescência incendiava a Europa e o mundo cultural com contestações de toda ordem e valores.

Eric Losfeld era um editor que tinha a pretensão de recolocar a aura nas obras que produzia. Num momento em que as artes de vanguarda estavam no seu momento áureo, ele propôs a alguns artistas a edição de histórias em quadrinhos singulares.

Entre 1964 e 1973 editou um conjunto de histórias que entraram para o panteão de obras de arte únicas. Dentre todas elas, Saga de Xam foi a mais emblemática.

Desde a encomenda que fez ao roteirista Jean Rolin e ao desenhista Nicolas Devil, o projeto concebido por ele unia arte psicodélica e história contendo problemas raciais, violência, questões ecológicas colocando a mulher no centro da ação, como já havia sugerido antes com Barbarela, que também publicou em sua coleção.

Decidiu, desde a concepção, que a edição de 5 mil volumes jamais seria reeditada e que os originais seriam destruídos para garantir a determinação.

Quem andasse por Paris nessa época poderia encontrar com ele levando de livraria em livraria o livro que se tornou, por conta disso, a obra mais rara dos quadrinhos mundiais. Alguns denomina de catedral dos quadrinhos.

Estava empenhado em demonstrar que a aura poderia ser realocada num objeto cuja raridade única com o tempo seria percebido pelos apreciadores.

A história de uma mulher azul, Saga, vivente de um planeta pacífico e ecologicamente perfeito sendo invadido por moluscos do mal é um prato cheio para reimaginar essa visitante conhecendo variados momentos da história da Terra para encontrar um meio de enfrentar os malfeitores extra-solares em Xam.

Desenhado com maestria lisérgica em páginas que originalmente eram imensas, de tal sorte que na redução para a impressão do livro de arte as letras ficaram tão diminutas que obrigou o editor a fornecer uma lupa que acompanhava o livro para possibilitar a leitura.

Registra-se que dez cópias da obra vieram para o Brasil endereçada à livraria francesa no centro de São Paulo.

Em pouco tempo as cópias desapareceram das livrarias do mundo todo e entraram para a mitologia das raridades bibliográficas.

Saga, uma mulher azul que antes dos ataques dos moluscos vivia numa sociedade de fêmeas partenogêneses, que se reproduzem sem a necessidade de machos, com as visitas ao planeta Terra em diversas épocas, retorna definitivamente a Xam e se alia aos moluscos para não só reproduzir, mas para se tornar a rainha de todo o planeta e iniciar uma linhagem de poderosas mulheres híbridas que dominarão Xam.

As questões que a obra propõe são antecipadoras de muitos eventos que o futuro iria consolidar, desde maio de 68 e a contracultura da liberdade até o empoderamento feminino atual.

Em 1973, Masao Ono, editor brasileiro de livros de arte, resolveu se inspirar na iniciativa de seu colega francês e publicou um livro de história em quadrinhos também psicodélico para solicitar a perdida aura de obra de arte que havia sido perdida na reprodução mecânica do século XX. Trata-se de O karma de Gaargot, de Sérgio Macedo.

É uma peça de ficção científica distópica sobre uma sociedade industrial dominada por um governo totalitário e totalmente dependente da tecnologia – que divide o mundo com seres híbridos de homens, animais e máquinas – quando surge um artefato desconhecido nos céus, chamado por eles de Aparição.

Essa máquina indestrutível e inexpugnável é uma espécie de inteligência cósmica, que elege um único ser humano entre os oprimidos para ser transcendido.

Enquanto esse homem passa pelas diversas etapas da evolução consciente e inconsciente, o governo tenta todas as formas de destruir a Aparição.

A inspiração em Saga de Xam não é mera reprodução da aura, mas a temática psicodélica propõe um diálogo entre as duas.

Sergio Macedo é um quadrinista brasileiro que vive na Europa e no Taiti desde essa época e é pouco publicado no Brasil, embora tenha uma vasta produção em sua longa carreira.

As histórias são semelhantes, as estratégias dos editores também são e o poder é o denominador comum em todas as quatro partes dessa jornada umbilical.

Em todo o processo há uma busca denunciatória nos autores, efervescente nos editores. A aura é esse denominador. Mas aqui temos a convergência de dois sentidos de aura.

O primeiro e mais evidente é o relativo à própria obra de arte, no sentido inicial dessa análise.

“A obra de arte ainda tem em comum com a magia o fato de estabelecer um domínio próprio, fechado em si mesmo e arrebatado ao contexto da vida profana. Neste domínio impera leis particulares.

Assim como a primeira coisa que o feiticeiro fazia em sua cerimônia era delimitar em face do mundo ambiente o lugar onde as forças sagradas deviam atuar, assim também, com cada obra de arte, seu currículo fechado se destaca do real.

É exatamente a renúncia a agir, pela qual a arte se separa da simpatia mágica, que fixa ainda mais profundamente a herança mágica.

Está renúncia coloca a imagem pura em oposição à realidade mesma, cujos elementos ela supera retendo-os [aufhebt] dentro de si. Pertence ao sentido da obra de arte, da aparência estética, ser aquilo em que se converteu, na magia do primitivo, o novo e terrível: a manifestação do todo no particular” (ADORNO. Theodor W,; HORKHEIMER. Max; 1985).

Nesse sentido, as duas obras aqui expostas pretenderam resgatar e resinificar esse fundamento.

Mas existe também um outro aspecto aural que ambas resgataram. O iluminismo e seu componente positivo, o conhecimento,

Renato Ortiz (2002) relata que o iluminismo produziu a alienação da sociedade moderna.

O conhecimento manipulatório pressupõe uma técnica e uma previsibilidade que controla de antemão o comportamento social. Para ele, o mundo pode ser pensado como uma série de variáveis integrando um sistema único.

O controle vincula-se à capacidade que o sistema possui de eliminar as diferenças, reduzindo-as ao mesmo denominador comum, o que garantiria a previsibilidade das manifestações sociais.

E aquele que porta o conhecimento e tras o esclarecimento é o agente fundamental desse controle, seja ele o pai, o professor, o pastor, o padre, o cientista, o médico, o juiz e seus equivalentes ordinários.

Portadores do princípio iluminista do não é qualquer um que pode ensinar qualquer coisa a qualquer um. Essa aura que é investida pela autoridade iluminista marca todos aqueles que usam o poder do conhecimento.

Estão investidos de uma aura também. Os dois personagens principais das duas obras, a mulher numa e o homem na outra, estão envoltos pela mesma aura.

Uma força energética evolutiva, que parece reunir componentes físicos e metafísicos em que são portadores do esclarecimento que abre o futuro.

Se o futuro que encetam é distópico, não chega a servir como um alerta diante da força intrínseca que a aura emana.

Agora, com as duas obras diante de mim, sinto essa força imanente do encontro das auras. Dentro e fora há um diálogo de poder irresistível, como aquele que deve contar na Bíblia do Rei James, único exemplar de uma era guardado a sete chaves no cofre mais seguro da realeza.

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) escritor e compositor

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