O sol na cabeca

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Marcos Michael

Entre uma xícara de café preto forte — o segredo é coar duas vezes, ele explica — e um cigarro, Geovani Martins fala de sua passagem por uma escola pública no bairro da Gávea. “Achava tudo muito tedioso”, diz. Lembra apenas de um professor marcante — ensinava geografia e mostrou Tempos Modernos, de Charles Chaplin, a seus alunos. Quando chegou à 8ª série do ensino fundamental, ele já havia repetido o ano duas vezes, e estava certo de que repetiria de novo. Na casa onde Geovani morava, na favela do Vidigal, Neide, sua mãe, o acordava cedo, mas ele muitas vezes preferia ficar dormindo a ir para as aulas — até que, em um “papo reto”, comunicou à mãe a desistência definitiva dos estudos. Nos anos seguintes, viriam empregos e “bicos” variados — garçom de uma casa de festas infantis, carregador de bandeira e cartaz de um candidato a vereador, vendedor de bebidas na Praia de Ipanema. Hoje, aos 26 anos — e de volta ao Vidigal, depois de zanzar por outros bairros e favelas do Rio —, ele está se firmando no difícil ofício de escritor. Já coleciona feitos raros para um iniciante. A coletânea de contos O Sol na Cabeça, seu livro de estreia, que mal começa a chegar às livrarias brasileiras, já teve seus direitos vendidos a nove países. Editoras do prestígio da inglesa Faber & Faber e da francesa Gallimard interessaram-se pela crônica vibrante e vigorosa que os treze contos de Martins fazem da infância e da juventude nas favelas cariocas. “Eu esperava que o livro tivesse uma boa repercussão”, diz o autor. “Mas não que fosse fazer sucesso antes de sair.”

 Jerônimo Teixeira

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