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Por que Dostoiévski causa tanto fascínio nos brasileiros?

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (Imagem: V. Lauffert | AKG

“Chega de entusiasmo, é hora de servir também à razão. E todo esse, e todo esse estrangeiro, e toda essa sua Europa, tudo isso é apenas uma fantasia… há de ver, o senhor mesmo verá.”

É assim, com a linguagem direta, sem firulas – tal qual vemos nesse trecho de “Crime e Castigo”- que Fiódor Dostoiévski se mantém latente há 200 anos.

Nascido em Moscou no dia 11 de novembro de 1821, o russo causa fascínio em grande parte do mundo. Os brasileiros em particular vêm lhe dedicando uma atenção especial nos último 18 meses – é o que consta em dados do Google Trends.

Maio de 2020 foi o mês em que mais pessoas buscaram informações do autor num período de 10 anos. De 2011 para cá, houve um crescimento linear calculado em 25%. Mas, afinal, o que um russo nascido há dois séculos tem em comum com o Brasil atual?

“Tudo”, responde categoricamente Elena Vassina, professora das Letras Russas na Universidade de São Paulo (USP).

Conterrânea de Dostoiévski, ela explica, num português claro, mas com um sotaque marcante, que as discrepâncias entre Brasil e Rússia se limitam aos termômetros mais do que aos costumes.

“Nós somos, apesar da distância, muito parecidos. Somos dois povos de grandes territórios. É muito fácil falar de ‘ordem e progresso’ em Mônaco ou Liechtenstein [país de 25km de extensão entre Áustria e Suíça].

Mas Rússia e Brasil estão conectados por sua imensidão de território e miscigenação de povos”, diz Elena.

“Esses países têm histórias parecidas. Quando começa o descobrimento aqui, há a exploração lá. Mesmo na religiosidade são parecidos: essa mistura de paganismo com ortodoxo, religião dos nômades mongóis com o xamanismo.

Você não encontra isso na Alemanha, na França ou na Espanha, que são mais homogêneos”.

Nos últimos vinte anos, alguns eventos político-econômico-culturais encurtaram os mais de 14 mil km que separam Brasil e Rússia.

Elena pontua três: a suspensão do pedido de visto para entrada em ambos países em 2010; a criação do BRICS (agrupamento formado pelos cinco países emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em 2009; e o mais importante, em sua percepção, a megaexposição “500 Anos de Arte Russa”, na Oca do Ibirapuera, em 2002.

Orçada em R$3 milhões pela extinta BrasilConnects, a mostra foi um acontecimento na vida cultural paulistana – e conquistou o resto do Brasil.

“Muitas crianças, alunos de escolas públicas e privadas, visitaram a exposição. Houve um aumento de universitários interessados em estudar a Rússia nas faculdades. O grande trunfo da mostra foi aproximar a cultura russa do brasileiro, que conheceu uma Rússia interessantíssima”, completa a professora.

A curiosidade pela cultura russa resultou em vendas de sua literatura. Segundo o site Estante Virtual, e-commerce que reúne mais de 2.600 sebos e livreiros em todo o Brasil, Fiódor Dostoiévski é o russo mais vendido na plataforma.

Apenas em 2021, foram vendidos cerca de 3 mil livros do autor – sendo “Crime e Castigo” o responsável por 20% dessas vendas. Em segundo lugar, está “Os Irmãos Karamázov”, seguido por “O Idiota”, “Memórias do Subsolo”, “Noites Brancas” e “O Jogador”.

“Tem uma identificação interessante. A literatura russa do século 19 tenta pensar o lugar da Rússia na Europa. O país era marginal, se manteve com uma estrutura feudal, de castas, de nobreza por muito tempo, se desenvolveu tardiamente.

Havia um questionamento: o que são os russos? Quem é a Rússia?”, justifica Danilo Hora, editor da Editora 34, maior referência em literatura russa e do leste europeu no Brasil.

A comemoração de Fiódor Dostoiévski na editora foi antecipada: ano passado foi finalizada, após vinte anos, a publicação de toda obra do autor, com o lançamento de “Escritos da Casa Morta”.

Juliana Faddul

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