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Um doloroso processo biológico

Carlos Lima

Ainda não fui ressuscitando nem tive a experiência de passar por momentos de quase morte. É verdade que já sofri um infarto do miocárdio. Tive a sorte de estar ao lado meu filho Carlos Segundo e na emergência do Hospital Emec, o caminho para a UTI foi rápido  e sem atropelos.

Perdi os sentidos depois de uma forte pontada no peito e voltei horas depois já na Unidade de Tratamento Intensivo.

Mesmo assim não passei pela experiência vivenciada e narrada por muitos, quando acontece  uma quase morte, dizem de uma viagem de muita luz, lugares bonitos, leveza, paz, felicidade e outras sensações. Nada aconteceu. Fiquei como? Não sei, acordei, me lembrei da pontada no peito e só.

Eu simplesmente acordei. Se tivesse morrido talvez encontrasse o que para muitos é o paraíso ou outra coisa. Não sei. Mas, com certeza quero a vida.

Tenho passado por alguns problemas de saúde, quem não os tem, ou um dia poderá ter. É normal quando a escada da vida fez o seu contorno, e, obrigatoriamente iniciamos a caminhada inversa.

Quero distancia desse portal do tempo. Essa fronteira, se é que existe, mais parece um silêncio profundo e, como o universo, não tem começo nem fim.

Desejo a vida porque a natureza é indecifrável. Porque não existe coisa mais maravilhosa do que o amanhecer e o entardecer. Porque quero estar com as pessoas, vê-las; ouvi-las; sorrir e me aborrecer; senti saudades; lembrar-me dos meus erros e acertos; senti o vento batendo no meu rosto como se estivesse lembrando-me do que um dia perderei.

Quero poder sorrir até o ultimo momento. Quero afagar o meu cachorro e ao mesmo tempo senti a ausência de um afago que deixei escapar.

Não quero preocupar-me se serei lembrado. Com certeza o tempo se encarregará de fazer o vento espalhar as lembranças, como espalha as areias da terra.

Quero ver nas margens do tempo a vida que chega e se esvai como as ondas do mar, sem jamais se preocupar se um dia vai voltar.

Ruim mesmo é quando as pessoas descobrem que não tem mais tempo no relógio da vida e a cada volta dela escapa por entre os dedos como fumaça.

Essa realidade na maioria das vezes transforma, cria novas prioridades, fraternidade, tolerância e até mesmo de espiritualidade quando souberam que a morte lhes dera um susto ou que o seu tempo está reduzido.

O sentimento de perda definitiva da vida é motivação para que as pessoas sejam melhores, mais honestas, mais tolerantes, mais humanas, amáveis, afáveis, carinhosas.

Não. Não acredito nessa nisso. Elas simplesmente temem pelos pecados que acham terem cometidos, querem encontrar aquela luz no final do túnel, querem agradar a Deus e chantageá-lo, cumprindo os seus ensinamentos e dizendo, “olhe, eu me arrependi, me conceda um lugar no paraíso”.

Como sabe que Deus é infinitamente misericordioso, acredita que fazendo remendo encontrará o perdão e a absolvição. Ledo engano, o julgamento ainda acontecerá.

Senhor… Senhor… Senhor…

Carlos Lima – Feira de Santana 18.10.2015

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