A farsa religiosa do fascismo/por Tarso Genro

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Tarso Genro ex-governador do Rio Grande do Sul

O fascismo falsifica Deus, a religião e a nação para mentir todos os dias. Sirvo-me novamente do meu predileto judeu-americano Philip Roth para tentar dizer algo de novo sobre o nosso inferno.

Nele o nazismo já está no quotidiano e o tempo de espera – para chegarmos às portas de saída – está cada vez mais distante. No livro O avesso da vida (Companhia das Letras), o personagem Grossman, “marca passo no coração e óculos no nariz”, diz: “o dinheiro – está tudo à venda – e é isso que conta.

Os jovens estão cheios de desespero. As drogas são apenas desespero. Ninguém tem vontade de se sentir assim tão bem se não estiver profundamente desesperado”. A droga pesada de cada um é uma opção, mas é mediação da desgraça da vida dentro do tempo curto que ajuda tanto a sobreviver como a matar-se. Ou matar.

A droga de Bolsonaro é a política. E a droga de grande parte da mídia tradicional é a sublimação dele, como anestésico da democracia com a cumplicidade acordada pelas reformas.

“Deus acima de todos” é o refrão predileto do Presidente que instaurou a necrofilia política, a corrupção perdoada quando é contra o “comunismo”, a defesa da tortura como método de investigação (vinda do medievo) e juntou – no governo – uma falange de insanos: uns acreditam que a terra é plana, outros enxergam Cristo na Goiabeira, além dos criacionistas, dos nazistas puros, dos milicianos, dos conselheiros da abstinência sexual e dos indecentes ajoelhados perante o tacape do Império.

Alguém acha que o Presidente acredita realmente num Deus sempre presente nos seus apelos à humildade, mas um Deus que não seja ele mesmo?

Spinoza dizia que se Deus é infinito “não pode existir nada que não seja Deus”. E, se encontrarmos algo “que não seja Deus”, é porque Ele não é infinito, pois “todos somos partes de Deus, mas também o são as pedras, formigas, folhas de grama e janelas” (…); “as coisas estão integradas em um todo incrivelmente complexo, mas em última instância, tudo o que existe é parte de uma única coisa: Deus”. Deus é tudo, o absoluto.

Para Spinoza, judeus, cristãos, negros, índios, homossexuais, islâmicos, a natureza, loucos, sãos, doentes, ateus e crentes, todos somos Deus.

Todavia, o grande problema desta interpretação teológica de Spinoza, que aparece em Nigel Warburton, é quando os insanos radicais estão no poder e identificam a humanidade com a sua quadratura doente do mundo.

O mistério de Bolsonaro é conseguir manter coerência contra todos os mandamentos do cristianismo e avocar Deus como seu cúmplice irrestrito e ser aceito.

Quem consegue fazer isso e ter uma minoritária, mas eficiente e organizada base social, é porque subsumiu Deus na sua palavra eleita e, ao invés de representar aquele que é o infinito, tornou-se – ele próprio – não a sua representação, mas a sua presença completa.

Carl Schmitt, o jurista teórico do direito nazista, que jamais pagou pelos seus crimes, quando escreveu que o “Führer comanda(va) o Direito” e estava ungindo Hitler à condição de um Deus nacional, atribuiria a ele o poder de dizer o que era um crime contra o Estado e o que era o pecado contra a sua própria condição divina.

Esta seria apenas – é verdade – uma das análises do fenômeno bolsonárico, que não será superado pelos métodos e estratégias tradicionais da política moderna, fundada na “razão dos líderes” e na “emoção das massas”.

A própria razão (mercantil) é hoje um instrumento radical de poder da atual burocracia política do fascismo e a “emoção” pode responder – e cada vez mais – somente aos apelos do dinheiro.

Na sociedade em que o mercado absorve o Estado (onde a emoção se faz num fluxo de informações sem destino definido pela humanidade de cada um), os instintos mais elementares de sobrevivência são processados no vórtice da dominação fascista.

Nossos líderes, atrevo-me a dizer, devem compreender que, na sociedade atual, a exploração capitalista clássica está integrada com a criação das condições para a depressão coletiva, que se faz como soma de individualidades separadas, não como sínteses de um novo espírito coletivo.

Estas – ao se tornarem um fenômeno de massas – trazem consigo não o sentido coletivo da Praça, expresso como movimentos libertários de protestos comandados pela política tradicional, mas sim – como no Chile – pela solidão conjunta engendrada nas redes, que, de repente, surpreendem a política e os seus partidos clássicos da sociedade industrial.

A pluralidade isolada das lideranças da esquerda “representa” esta fragmentação, com seus “nacos” de emoções deprimidas.

Por isso, enquanto elas não falarem uma linguagem comum, que responda às condições de exploração e depressão combinadas, o fascismo vai continuar vencendo, pois ele oferece a segurança e a força, nós a indeterminação sobre o futuro.

Falem juntos, a partir de uma grande mesa democrática, Lula, Requião, Suplicy, Boulos, Haddad, Dino, Pimenta, Manuela, Juliano, Jandira, Roberto Amaral, pois o que importa agora não é o número de seguidores que hoje os escutarão, mas o que a palavra unitária e sensata pode reunir e programar para bloquear o futuro mortal do fascismo.

Maria Rita Kehll diz que, se o “amor” é o conjunto de laços que atam o sujeito à vida aliado a representações imaginárias que produzem sentido à existência, a depressão pode ser entendida como uma imperfeição amorosa.

Só a política autêntica, unitária e democrática – impiedosa com os anti-valores da morte – pode combater esta imperfeição e transformá-la em rebeldia coletiva. Falar em separado aos dispersos é legitimar sua solidão e consolidar seu abandono.

Unir as diferentes solidões exploradas com palavra unitária é reiniciar a emancipação interrompida pelo fascismo, que quer ocupar o lugar de Deus, seja ele infinito ou apenas um reflexo pensado pela nossa imperfeição humana.

Tarso Genro

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