A GLOBO E O PT

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O artigo publicado pelo ex-diretor de redação d’O Globo Ascânio Seleme no sábado (11/07) “É hora de perdoar o PT” tem sido interpretado como expressão da opinião da empresa. O

grupo Globo sinaliza para a classe dominante que é preciso reconhecer que o PT e a esquerda, porque têm força social e capacidade política-eleitoral, influenciando um terço da sociedade, devem ser aceitos como sujeitos políticos necessários, ou até indispensáveis, da oposição ao governo Bolsonaro.

Embora a referência direta do artigo seja sobre o PT, porque o partido mantém uma posição majoritária na esquerda, parece evidente, em função das razões invocadas, que se trata de uma mudança de orientação que afeta toda a esquerda brasileira, portanto, também, o PSol.

Não se trata de uma surpresa completa, porque já há dois meses o Jornal Nacional tem convidado, uma ou outra vez, dirigentes do PT e até a liderança do PSol na Câmara dos Deputados, Fernanda Melchionna.

Trata-se de uma transformação importante. É impossível compreender a história dos últimos cinco anos sem estudar o papel do grupo Globo durante a construção do apoio à operação LavaJato e no apoio ao impeachment de Dilma Rousseff.

Embora tenha se distanciado do governo Temer após o escândalo da JBS, o grupo Globo se engajou na campanha de denúncias que culminaram com a condenação e prisão de Lula e, portanto, facilitou o caminho para a ascensão de Bolsonaro até as eleições de 2018, como porta-voz da extrema-direita, apoiando Paulo Guedes e suas propostas durante a campanha. Esta mudança confirma uma divisão dentro da burguesia brasileira.

O grupo Globo reafirma que o governo Bolsonaro é uma ameaça ao regime da Nova República. O artigo confirma uma reavaliação da posição diante do governo Bolsonaro, após o impacto da pandemia, mas vai além.

Afirma que o PT e a esquerda não são, neste momento, sequer um perigo simétrico ao bolsonarismo, a “teoria” dos dois extremismos, das duas ameaças, dos dois riscos. Este reposicionamento merece ser, seriamente, analisado.

Não se trata somente de uma atitude de autodefesa diante das ameaças diretas ao seu lugar como principal grupo econômico na esfera da comunicação social. Claro que se trata, também, de uma relocalização em autodefesa.

Não ignoram que o seu destino enquanto corporação está em perigo. O governo Bolsonaro já ameaçou com a não renovação da concessão, redistribuiu as verbas da publicidade oficial, favoreceu grupos de comunicação concorrentes e, recentemente, ameaça o monopólio das transmissões do campeonato brasileiro, uma fonte de financiamento importante da “jóia mais precisosa”, a rede de televisão.

Mas seria míope não considerar que o grupo Globo ocupa um papel importante na formação da posição política da classe dominante e das camadas médias.

Vem assumindo desde meados de março uma posição crítica ao governo Bolsonaro:

(a) condenou o negacionismo anticientífico diante da pandemia;

(b) apontou o perigo dos Atos fascistas; (

c) denunciou os discursos em defesa do autogolpe da ala bolsonarista;

(d) apoiou as iniciativas do STF de investigação da rede de fakenews financiada desde o Palácio do Planalto;

(e) sustentou Maia na presidência do Congresso quando da ampliação do auxílio emergencial;

(f) acusou Bolsonaro de abuso de poder quando da manobra de intervenção na Polícia Federal;

(g) e apoiou Sergio Moro e os governadores de oposição, como Dória.

O grupo Globo revela estar consciente que a subestimação do peso social e político da esquerda brasileira seria uma erro irreparável. A dimensão da crise nacional gerada pela pandemia e a recessão econômica abre a possibilidade de mobilizações de massas muito massivas em alguns meses.

A realização das eleições municipais pode não ser suficiente para canalizar o mal estar social. O reposicionamento do grupo Globo é, também, um alerta para a classe dominante que o protagonismo da esquerda nas ruas será inevitável.

Mais importante, que o mal estar social está crescendo e pode transbordar, quando as condições de confinamento social condicionadas pelo auge da pandemia, forem superadas. Há muita incerteza no horizonte.

As ações de contenção parcial dos impulsos fascistas do bolsonarismo, após a prisão de Queiroz trouxeram um relativo alívio, mas seus efeitos são transitórios.

A Globo continua apostando na permanência de Bolsonaro até o fim do mandato, desde que a pressão do STF e do Congresso seja suficiente para conter a ala neofascista.

Essa é a posição que prevalece, majoritariamente, na burguesia brasileira. Um segundo impeachment, em intervalo tão curto, ainda é considerado um mal maior do que a permanência de Bolsonaro.

Em especial, porque há uma imensa unidade em torno dos projetos de Paulo Guedes, inclusive as privatizações.

Mas o grupo Globo sinaliza posicionamento em um campo de oposição eleitoral para 2022 e, sobretudo, alerta que uma candidatura de centro só poderá vencer no segundo turno se conseguir arrastar os votos de esquerda, o que impõe uma nova atitude diante das parcelas dos partidos de esquerda que aceitaram a concertação através do embrião de Frente Ampla articulado pelo movimento Juntos, em defesa da lei, da ordem e do mercado, e pelo Direitos Já, em defesa da democracia, mas sem denunciar as provocações golpistas e, muito menos exigir, o fim do governo Bolsonaro.

Não menos importante, a interdição de Lula continua sendo um tema tabu para o grupo Globo, aliás, para a classe dominante. Lula tem que permanecer maldito, condenado, execrado.

O PT e uma esquerda de concertação, que aceite um lugar auxiliar na oposição devem ser aceitos. Não é, evidentemente, porque Lula seja um radical, porque até as pedras do Jardim Botânico sabem que nunca foi.

Mas por tudo aquilo que Lula simboliza na consciência de milhões, e que pode ainda ser incendiado na hora da luta frontal contra Bolsonaro.

Parece incontornável que o próximo julgamento de Lula no STF, quando estará colocado em causa a anulação das condenações construídas no contexto da operação LavaJato pelo juiz Sergio Moro, irá se transformar em uma disputa política central, e decisiva.

 

Valério Arcary é professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de O encontro da revolução com a história (Xamã).

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