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A Guerra no Rio até outubro deste ano provocou 4.122 tiroteios e 924 mortes.

Forte tiroteio na Rocinha

A hipocrisia do governo Bolsonara sobre as ações das milicias e enfrentamentos de bandidos e traficantes com policiais, não reconhece e tão pouco gera ações para interromper a guerra que acontece no Rio de Janeiro.

Fica óbvio que o Rio em guerra!

O jornalista Nuno Vasconcelos escreve com propriedade sobre essa condição em seu artigo, “O Rio está em Guerra”. Carlos Lima

Vejamos:

– Não faltam números nem episódios que confirmem essa afirmação. Na manhã de quarta-feira passada, por exemplo, bandidos da região da Maré receberam a bala policiais federais e militares que entraram na comunidade — e o tiroteio interrompeu o tráfego na Linha Amarela, uma das principais vias expressas da capital durante uma hora.

Isso é ou não é uma cena de guerra?

Quanto mais tempo demorarmos a adotar medidas eficazes de combate, mais pessoas tombarão nesse conflito.

De acordo com o site Fogo Cruzado, a mais respeitada plataforma independente de dados sobre a violência do país, foram registrados entre 1º de janeiro e 31 de outubro deste ano nada menos do que 4.122 tiroteios no estado. Levando em conta que esse período abrange um total de 303 dias, estamos falando de uma média de 13,6 tiroteios por dia.

Cuidado!

É muito provável que neste momento, enquanto você lê este texto, alguma troca de tiros esteja acontecendo em algum ponto do Grande Rio. É pouco provável que alguma outra região do mundo, inclusive as que estão declaradamente em guerra, tenham números perecidos com esses.

Desses tiroteios, 2.252, ou seja, mais da metade, aconteceram na capital — mas os números da Baixada Fluminense e do Leste Metropolitano (que inclui Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e outros municípios) são igualmente preocupantes.

O saldo dessa tragédia, como não poderia deixar de ser, é extremamente elevado. Nos dez meses cobertos pela estatística, 924 pessoas morreram e 869 ficaram feridas.

São números conhecidos e divulgados à exaustão — que devem ser repetidos a todo instante até para que não sejam esquecidos. E em nome do ponto de vista que se defende neste espaço — ou seja, de que o Rio vive uma guerra — não importa se os mortos eram criminosos procurados, cidadãos inocentes ou policiais em serviço.

Todos são vítimas de um mesmo conflito e, mais do que números nessa estatística trágica, eram seres humanos que tinham famílias, sonhos, projetos e expectativas. E que deixaram mães, pais, esposas, maridos, filhos e amigos a chorar por eles.

Números monastruosos.

— Isso mesmo! Mais do que falar em quantidade de mortos e feridos, é importante pensar naquilo que essas vítimas poderiam fazer se não tivessem sido vítimas dessa guerra.

De acordo com os dados do Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP-RJ) referentes a 2020, entre as 4.907 pessoas que perderam a vida por algum ato violento no estado (e não apenas nos tiroteios), 32,5% tinham entre 18 anos e 29 anos. Outros 21,9% tinham entre 30 anos e 45 anos.

Essa estatística certamente é bem maior porque não há informações sobre a idade de 30,7% das vítimas. Muitas dessas pessoas poderiam ter um destino melhor caso vivessem num país e num estado que oferecessem mais oportunidades.

Todos reconhecem que os números são monstruosos e que, se nenhuma saída eficaz for apontada, tendem a se manter elevados e a cobrar um tributo social cada vez mais elevado.

De nada adianta saber que o número de mortes violentas em 2020, de 4.907, ficou 17,9% abaixo dos de 2019. O problema, como se percebe, é mais do que conhecido. O que falta é, justamente, apontar a solução.

Experiência Internacional

O primeiro passo é procurar saber o que existe por trás das estatísticas. O segundo, é buscar exemplos de problemas semelhantes e, neles, encontrar inspiração que possam nos ajudar a enfrentar a situação.

Vamos aos fatos.

Existem evidências cada vez mais claras de que o tráfico de drogas, que assumiu proporções endêmicas no Rio de Janeiro, há muito deixou de ser um negócio restrito a bocas de fumo nas comunidades da Região Metropolitanas.

Bandidos como Antônio Ilário Pereira, conhecido como Rabicó, que comanda o tráfico na região do Salgueiro, onde houve a chacina de duas semanas atrás, nada mais são do que peças secundárias numa máquina comandada pelas organizações mundiais do narcoterrorismo

Sem querer reduzir a gravidade do comércio local de drogas nem diminuir o terror que Rabicó e outros criminosos com apelidos tão pitorescos como o dele impõem sobre as regiões sob seu poder, é preciso compreender que o Rio tem no tráfico internacional um papel muito mais central do que parece — e fazer guerra ao narcotráfico local é fazer guerra ao narcoterrorismo.

O Rio é muito mais importante como hub logístico, estratégico para a remessa de drogas ao mercado europeu, do que como um centro consumidor.

Este é o ponto. Essa realidade parece preocupar mais aos organismos internacionais de combate ao tráfico de drogas do que às autoridades brasileiras.

E é apenas um ingrediente a mais desse estado de guerra que existe no Rio. Nada impede, por hipótese, que os bandidos promovam escaramuças localizadas com o objetivo de desviar a atenção das forças de segurança de movimentações muito mais importantes acontecidas em outros pontos da Região Metropolitana.

Carros Bomba

 A situação, é claro, ainda não alcançou uma gravidade semelhante à que se notou em alguns países vizinhos. Os traficantes daqui nunca foram capazes de atitudes tão ousadas como as sicários do megatraficante colombiano Pablo Escobar.

Só para recordar, Escobar mandou derrubar um Boeing da Avianca com 107 pessoas a bordo. Não houve sobreviventes.

Ordenou um ataque com carros bombas ao comando das forças nacionais de segurança. E sentenciou à morte o candidato favorito à Presidência da República Luis Carlos Galán, que havia conquistado a simpatia do eleitorado com a proposta de endurecer a guerra contra o tráfico.

O assassinato causou comoção nacional — e os presidentes da Colômbia, a partir dali, fizeram do combate ao narcotráfico sua principal bandeira. Investiram em inteligência, buscaram ajuda internacional e, do ponto de vista legal, adotaram medidas radicais, como a extradição em larga escala de bandidos para os Estados Unidos. Mas não foi só.

Ao mesmo tempo em que usavam as ferramentas de inteligência em segurança, promoveram nas cidades mais populosas do país, a começar pela capital Bogotá, um amplo programa de investimentos que melhorou as condições de vida da população.

Um plano ousado de transporte com base numa solução parecida com a do BRT, do Rio, foi implantado em toda capital. As comunidades que se espalhavam pelos morros foram urbanizadas e o Estado passou a marcar presença de forma efetiva junto à população que, antes, estava submetida ao jugo dos traficantes.

Essas providências, é claro, não conseguiram eliminar o narcotráfico — uma praga de dimensões planetárias, que, como já ficou claro, é muito mais resistente do que parece à primeira vista.

Mas, pelo menos, dificultaram a ação dos bandidos e deram à população mais tranquilidade para tocar a vida. E o melhor de tudo: mostrou que é possível agir à luz do dia, com medidas decididas às claras e anunciadas à população, que, é evidente, sempre apoia o combate ao crime.

Ou seja: solução existe e o primeiro passo para alcançá-la é colocar o dedo na ferida e começar a ver os fatos como eles de fato são.

Nuno Vasconcellos

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