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Base e militares para 7 de setembro é inflamada por Bolsonaro em último ato pré-eleitoral

7 de setembro

O presidente Jair Bolsonaro tem convocado seus apoiadores a saírem às ruas “pela última vez” no próximo dia 7 Setembro.

Durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), dia 24, suas exclamações foram exaltadas por efeitos sonoros de suspense e uma trilha sonora apoteótica.

A seu favor, ele tem a oportunidade de recorrer a toda sorte de símbolos patrióticos e de equipamentos militares, sob o pretexto das celebrações dos 200 anos de Independência do Brasil.

Para analistas há uma clara intenção de transformar os eventos em Brasília e no Rio de Janeiro em “palanques” para as eleições que ocorrerão em 2 de outubro, menos de um mês depois.

Por aparecer atrás do ex-presidente Lula (PT) em todas as pesquisas de intenção de voto, a demonstração de força almejada pode, na verdade, evidenciar um sinal de “desespero” ou a prévia de uma tentativa de golpe, a depender do tom dos discursos de Bolsonaro.

Essa é a avaliação do sociólogo Paulo Silvino Ribeiro, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), que diz acreditar mais na primeira alternativa.

“Bolsonaro não tem só estancado nas pesquisas, como nas suas últimas manifestações tem visto diminuir o número de apoiadores. Ou seja, ele fala cada vez mais ao grupo que ainda insiste em apoiá-lo.

E para que ele mantenha o apoio, vai requentando um discurso permanente, ou até antigo dentro do seu governo, de ataque às instituições democráticas”, opina.

Além disso, há uma conjunção de signos que Bolsonaro procura incutir em seus seguidores, como a defesa “até a morte, se preciso” da “liberdade” e o armamento da população “para não se submeter às injustiças”.

A questão, para o 7 de Setembro, é saber a forma e a intensidade que esses elementos vão aparecer em Brasília, onde Bolsonaro participa, no período da manhã, do tradicional desfile militar com a presença de líderes de países convidados, e à tarde no Rio de Janeiro.

A expectativa é de que os gestos mais significativos sejam reservados à capital fluminense, onde as Forças Armadas, policiais militares e alunos de escolas militares e particulares foram convocados a desfilar junto de um número recorde de tanques e aeronaves.

O local também foi remarcado e será inédito. Ao invés da Avenida Presidente Vargas, no centro, o evento ocorrerá na Orla de Copacabana, cartão-postal carioca que ficou associado a atos bolsonaristas.

“À medida que ele vai percebendo que o contexto e a conjuntura política são desfavoráveis à sua reeleição, ele acaba portanto dobrando a aposta”, afirma Ribeiro, que ironiza as ameaças veladas feitas pela alta cúpula do governo, inclusive generais como o candidato à vice-presidência Braga Netto e o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira: “muito dessa bravata do Bolsonaro sobre o golpe poderia ter uma grande metáfora aqueles tanques velhos soltando fumaça que ele fez desfilar tempos atrás”.

Participação das Forças Armadas no sistema eleitoral é “desvio de finalidade”

Em 2021, os discursos presidenciais em Brasília e São Paulo foram marcados por ataques às eleições – “farsa patrocinada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)” -, ofensas a magistrados e a promessa de não cumprimento das ordens do STF. Logo depois, com auxílio inusitado do ex-presidente Michel Temer, recuou e reduziu o embate com outro poder como mero “conflito de entendimento”.

O historiador Daniel Aarão Reis, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), acredita que as mobilizações deste ano serão numericamente menores, mas lamenta que as forças progressistas ainda não tenham ocupado as ruas para coibir aventuras autoritárias.

Sua expectativa reside no ato em defesa da democracia marcado para o próximo dia 11 no Largo São Francisco, em São Paulo.

Na ocasião, a carta elaborada por um grupo da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo será lida e está prevista a participação de políticos, líderes e manifestantes identificados com espectros ideológicos variados.

“A gente nunca pode subestimar a direita. Tem muitos grupos armados que podem desferir alguma provocação. Bolsonaro está visivelmente convencido de que não vai ganhar, então ele está buscando brechas para melar a eleição”, pondera.

Sua hipótese é de que os bolsonaristas mais radicais podem provocar opositores ou até mesmo realizar alguma autossabotagem, visando criar uma convulsão social que viabilize a imposição da Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

O dispositivo emergencial, considerado “infame” pelo historiador, precisaria ser aprovado pelo Congresso Nacional, mas poderia se impor ao calendário eleitoral com direito a uma intervenção militar para “restabelecer a ordem”.

Segundo Reis, a tentativa de desmoralizar as urnas eletrônicas perdeu força recentemente, inclusive por concessões da Justiça Eleitoral às exigências das Forças Armadas, como a autorização de inspeção do código-fonte das urnas nesta quarta-feira (3).

Uma postura com potencial de escalar para uma ruptura com as instituições democráticas, um cenário extremo que ele não vislumbra atualmente.

“Nós temos uma tradição de intervencionismo militar no Brasil muito grande, todo mundo sabe disso. Porém, essas intervenções de modo geral precisam, no mínimo, contar com uma certa coesão com o andar de cima, e essa coesão está faltando o Bolsonaro nesse momento”, identifica.

Mitos patrióticos são comuns em governos autocráticos

A própria ideia de que a proclamação da Independência foi um ato heroico de Dom Pedro I é identificada por alguns historiadores como uma construção social sem lastro na realidade dos fatos.

A imagem eternizada no famoso quadro “Independência ou Morte!”, de Pedro Américo, tem um papel central para as referências patrióticas convenientes às elites brasileiras no decorrer dos anos.

“Essa simbologia em torno do 7 de setembro, da bandeira, que simboliza a identidade nacional, acaba por alimentar o discurso bolsonarista (…)

“O Brasil se institui como país, mas a partir de uma ideia elitista, burguesa, branca, racista e que constrói seus símbolos nacionais, como o próprio 7 de setembro”, explica Ribeiro.

A depender do governo, as celebrações em torno desta data ganham maior ou menor relevo, segundo o historiador Daniel Aarão Reis.

Ele diz que as festividades ganharam dimensões até então inéditas durante o Estado Novo, ao gosto nacionalista de Getúlio Vargas e, posteriormente, voltaram a ser grandiosos durante a Ditadura Militar.

“Mais tarde, a partir da Constituição de 1988, essa celebração sempre foi mantida, mas perdendo importância relativa. Agora, com Bolsonaro, ele retomou, reativou as celebrações com esse ingrediente novo, tratando de convocar seus adeptos à manifestações de rua”, reconhece.

Para Ribeiro, ao extrapolar seu discurso raivoso do cercadinho para uma data importante, Bolsonaro tenta convencer que representa o conjunto de ideias e valores da maioria da nação.

Por isso, considera que o “sequestro” dos símbolos nacionais por uma parcela dialoga com a criação dos próprios símbolos com uma retórica “falsa” de coesão social.

Com uma rejeição que já chegou a 67% em novembro e segue acima de 55%, Bolsonaro tem menos de dois meses para tentar reverter sua falta de credibilidade e sem o apoio da grande mídia, pelo contrário.

“Esse anti-bolsonarismo ou essa aversão ao nome dele era uma coisa natural da esquerda (…), mas agora não.

Agora tem gente que não vota no Lula, mas que odeia o Bolsonaro. Ele vai precisar de muito tanque de guerra, de muita gente para encher Copacabana, para poder virar o jogo”, finaliza.

Alex Mirkhan

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