“Bolsonaro é louco o suficiente para tentar golpe”, afirma especialista

Mônica Bérgamo e Bolsonaro

O governo Bolsonaro é cada vez mais militarizado e cresce o peso do grupo “neofascista” dos militares dentro nos rumos da gestão.

Apesar disso, os grupos militares que supostamente se opõem a essa ala e alegam defender as Forças Armadas como instituição de Estado, e não de governo, assistiram aos neofascistas agindo e se impondo. E nada fizeram desde o começo do governo.

Quem o fez, o fez tarde, como o general da reserva Fernando Azevedo e Silva, ao deixar o Ministério da Defesa esta semana, sendo substituído em seguida pelo general Braga Netto, que deixou a chefia da Casa Civil depois de ser o primeiro militar a comandar a pasta desde a ditadura militar.

Na avaliação do professor-sênior João Roberto Martins Filho, da Universidade Federal de São Carlos, Azevedo e Silva deveria ter saído do governo há 10 meses.

O professor se refere ao momento em que Jair Bolsonaro o constrangeu ao levá-lo em um helicóptero de onde acenou para manifestações golpistas.

“Num momento em que Bolsonaro levou o ministro da Defesa num helicóptero para acenar para uma manifestação contra o Supremo, o ministro deveria ter saído ali”, afirma Martins Filho, que presidiu a Associação Brasileira de Estudos de Defesa, em entrevista a Glauco Faria, na Rádio Brasil Atual.

O agora ex-ministro também assinou a Ordem do Dia em 31 de março do ano passado saudando o golpe de 1964 com “marco para a democracia”.

Segundo o professor, não adianta falar agora em “caráter de Estado das forças armadas” se aceitou ser ministro de Bolsonaro.

“E quem ajudou a colocar esse governo? Os militares. Então não adianta dizer que não estava seguindo a política do governo.”

O especialista observa que a militarização do governo brasileiro começou a se intensificar a partir do governo de Michel Temer. O Ministério da Defesa foi criado para que houvesse um comando civil sobre as três Forças Armadas.

“Porque abre-se uma crise militar quando se demite o ministro da Defesa, se antes nunca houve crise nenhuma?

Porque está tudo errado?

Não podia ser um general o ministro, tinha de ser um civil”, afirma. Pois quando se demite um general, ele explica, uma eventual crise política passa a ser uma crise militar. Mas o governo Temer inaugurou o precedente ao nomear para a pasta o general Joaquim Silva e Luna.

O professor da UFScar afirma ainda que se houvesse um clima de ruptura de alas militares com o governo Bolsonaro, haveria uma entrega geral dos cargos que ocupam.

Aliás, para ocupar cargos públicos os militares precisam de autorização do alto comando.

Oficiais do Exército, por exemplo, precisariam do aceite do até ontem comandante do Exército Edson Leal Pujol.

“Quem vai desembarcar?

Os generais que estão ocupando cargos no Palácio do Planalto vão sair?

Evidentemente que não vão.”

Apesar de Pujol ter sido demitido por Bolsonaro junto aos outros dois militares comandantes de força, não há sinais de debandada dos milhares de cargos ocupados por militares, sendo mais de 300 em postos de primeiro e segundo escalão do governo e estatais.

“Mas o mínimo que se pode dizer é que os generais que estão no governo conhecem perfeitamente esse movimento neofascista, porque convivem no Palácio do Planalto com ele. Então, são no mínimo condescendentes com esse grupo neofascista”, diz João Roberto Martins Filho.

O estudioso admite, entretanto, haver uma cisão entre os grupos militares em relação ao governo de Jair Bolsonaro. Desse modo, ele não descarta uma possibilidade de o ocupante da Presidência da República se escorar em oficiais de menor patente e até nos setores das polícias militares para tentar fortalecer seu projeto neofascista.

 “Essa alternativa não faria sentido, mas o presidente é maluco o suficiente para tentar isso. Então é bom a gente não descartar totalmente.”

Plano B de militares x Bolsonaro?

A movimentação dos últimos dias mostra que Bolsonaro resolveu apostar, “como num jogo de pôquer”, e interferir diretamente em uma área onde havia um certo acordo de que ele não interferiria.

“É difícil prever, mas que ele elevou essa aposta, elevou. Já tem pessoas de respeito dizendo que ele ganhou a curto prazo, mas que a longo prazo instalou uma tensão, que pode desembocar num afastamento da instituição em relação ao governo”, afirma o professor.

Para ele, porém, o cenário ainda é nebuloso.

“Isso porque o Bolsonaro, inclusive, se preciso for, vai apelar para a baixa oficialidade, como ele pode apelar, e já está apelando, para as polícias militares. Se o governo não é de todo fascista, o Bolsonaro tem o fascismo como ideal. E está conseguindo fazer o que é o programa de governo dele: instalar o caos. Inclusive agora na relação dele com os militares. Agora existe uma cisão em potencial entre os generais que abraçaram o governo e os que começaram uma operação de afastamento. Aí se poderá analisar.”

O que é fato, no momento, é que nem os militares ditos republicanos acreditam mais na possibilidade de “domar” os ímpetos de Bolsonaro.

E são sabedores de que Bolsonaro é reativo com quem atrapalha seus planos. Ele lembra do fim do ex-presidente do PSL Gustavo Bebianno, partido que elegeu o presidente.

“Cada vez que Bolsonaro aponta a sua lanterna para alguém esse alguém passa a ter no mínimo um problema de imagem.

Ou desmorona. Basta lembrar que em apenas dois meses de governo ele demitiu aquela figura, o Bebianno, fiel escudeiro, que logo depois morreu de desgosto. Você pode imaginar uma maldade maior do que essa?”

“Já se observou que os militares sempre agem organizadamente, e, se saíssem do governo, também seria organizadamente, com um plano B.

A essa altura, acho que os militares já pensam em alternativas para deixar o Bolsonaro, mas continuar num futuro governo”, observa o professor.

Segundo ele, uma alternativa seria construir uma chapa com alguém como Moro na cabeça e o general Carlos Alberto dos Santos Cruz como vice. Santos Cruz foi o primeiro militar dito republicano que rompeu com o governo, e que depois passou a travar batalhas com o bolsonarismo nas redes. “Sem no entanto citar nominalmente o Bolsonaro.”

Ou seja, pode haver um movimento para se manter pela via eleitoral. “Não creio que seja projeto deles golpe de Estado ou intervenção.

A ideia era ficar nos bastidores, como eminências pardas.” E então seguir dentro do governo militarizado, sem Bolsonaro, após 2022.

 

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