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Então o Gen. Freire Gomes é um democrata e não participou de nada no golpe de Bolsonaro?

Cmt Exército Marco Antônio Freire Gomes

Foi dada a largada para que o general Marco Antônio Freire Gomes, comandante-geral do Exército entre março e dezembro de 2022, seja posicionado diante da história como um dos militares que atuaram para impedir o fracassado golpe de Estado de Jair Bolsonaro em 2022, e não como chefe de uma força militar de 300 mil homens que integrou o governo fascista e golpista até os seus estertores.

O general prestou depoimento à Polícia Federal por mais de 11 horas, e o que se conta em bastidores é que Freire Gomes deu detalhes das discussões de preparação do golpe, confirmou a existência da minuta que previa Estado de Sítio, detalhou a participação de cada um dos envolvidos na investigação e preencheu “lacunas” importantes na trama golpista. Trama esta cuja participação de militares de altas patentes do Exército está amplamente demonstrada nas investigações.

Chega a impressionar como o general legalista que comandava o Exército permanecesse no cargo até o fim de 2022, atravessando todo o planejamento e a tentativa frustrada de golpe de Estado.

Por este entendimento, o máximo que caberia ao chefe do Exército seria informar autoridades da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal de que um possível golpe estaria em curso?

Foi esta a insurgência de Freire Gomes contra a trama golpista e pela manutenção do estado de direito?

Conforme relatou o jornalista Luís Costa Pinto, em reportagem neste 247, o plano dos golpistas liderados por Bolsonaro previa a deflagração de uma centelha de desordem, um ato que provocasse a reação do governo com uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem) ou com uma equivocada evocação do artigo 142 da Constituição para supostamente “restabelecer a ordem”.

A ignição para esta reação golpista poderia vir de uma possível baderna resultante da tentativa de desbaratar os acampamentos golpistas montados nas portas dos quartéis do Exército em diversas cidades do país, incluindo o gigantesco acampamento na frente do Quartel General do Exército em Brasília.

Por isso então o ajuntamento de bandidos e delinquentes de toda sorte contra a democracia, incluindo familiares de militares, permaneceu intacto?

Vamos combinar que parece uma versão muito confortável para o então chefe do Exército, diante da suspeita de que Freire Gomes prevaricou ao permitir que manifestações de caráter antidemocrático permanecessem por tanto tempo com a condescendência e apoio (até com água e luz) por parte dos militares comandados por Freire Gomes.

É uma versão confortável para o Exército também, que busca estancar o derretimento de sua credibilidade perante a população.

Os detalhes do que contou o general aos investigadores da Polícia Federal ainda deverão vir a público.

Os elementos novos trazidos por ele devem ser considerados no âmbito da investigação, bem como as provas que Freire Gomes apresentar. Se aquilo que o militar revelar colaborar com a responsabilização penal de Jair Bolsonaro, ótimo. Ganha a democracia.

Mas não se pode fechar os olhos para os eventuais crimes de prevaricação, de omissão, cometidos pelo comandante do Exército, apenas porque ele resolveu dedurar seu ex-chefe.

O Exército, de maneira institucional, está inegavelmente imbricado com o governo de caráter fascista de Jair Bolsonaro desde o seu nascedouro. Até antes, com o governo golpista de Michel Temer.

Não dá para agora, chamadas às responsabilizações, fingirmos ou diminuirmos o que aconteceu neste país. A Justiça deve recair para todos os que participaram. Quem delatou pode até receber os benefícios da lei, mas deve arcar com as consequências da decisão de integrar um governo golpista.

Aquiles Lins

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