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FREIXO: DIREITA SAI DO ARMÁRIO POR CULPA DO PT

O deputado estadual Marcelo Freixo (Psol-RJ), que foi o mais votado do Brasil nas últimas eleições, tem sido um grande defensor de uma ampla reforma política, que elimine o financiamento empresarial de campanhas. Em entrevista ao 247, ele falou sobre o momento atual enfrentado pela esquerda brasileira, marcado por ataques constantes ao PT, e sobre o papel que pode vir a ser desempenhado pelo Psol.

Segundo ele, o PT evitou fazer enfrentamentos necessários e buscou a governabilidade a qualquer custo. “Ou seja, depois de mais de 12 anos de governo do PT, ele entrega uma sociedade mais conservadora, desmobilizada e que faz com que a direita, inclusive, saia do armário”, afirma.

Leia abaixo à entrevista na íntegra:

Como o sr. analisa a situação em que o PT se encontra agora? Sofrendo ataques diários da grande mídia e ameaças de cassação do registro partidário?

As ações da mídia contra o PT não nascem de agora. Desde que o PT surge a mídia hegemônica nunca foi simpática a ele. O problema do PT não está nos ataques da mídia. O problema do PT está nos erros que o PT cometeu, que permitiram que os ataques da mídia ganhassem mais legitimidade.

Quais erros?

Primeiro a própria lógica da governabilidade. A chamada “estabilidade da inércia”. É um governo que faz essa opção pela estabilidade da inércia ao invés do enfrentamento necessário, das rupturas que ele teria capital político para fazer. Nessa lógica de governabilidade, assim como o Fernando Henrique Cardoso teve o ACM, o PT vai buscar o Sarney, e mantém uma estabilidade da inércia, sem romper, fazendo com que essa política da Nova República tivesse sobrevida até os dias de hoje. O PT então perde a sua capacidade de mobilização na sociedade. Ou seja, depois de mais de 12 anos de governo do PT, ele entrega uma sociedade mais conservadora, desmobilizada e que faz com que a direita, inclusive, saia do armário.

Qual o peso disso em relação aos avanços sociais na última década?

Claro que tem avanços. Avanço no que diz respeito ao salário mínimo. Há avanços no que chamamos de “cidadania de mercado”, que são avanços na inclusão em uma lógica de consumo. Não estou tornando a lógica do consumo em uma lógica menor, o consumo é decisivo hoje para a cidadania. O problema é que a mesma classe trabalhadora que tem acesso ao consumo, que tem uma possibilidade de renda melhor, não tem educação pública de qualidade, não tem saúde pública de qualidade, não tem um país com reforma agrária, não tem uma política de moradia. A estrutura da sociedade não mudou. Não à toa o Brasil continua, segundo o índice de Gini, entre os dez países mais desiguais do mundo, isso não se alterou. Então há um problema, oriundo das próprias políticas do PT.

Eu votei na Dilma no segundo turno. Porque entendi que a eleição dos tucanos, do Aécio, seria ali um retrocesso ainda maior em relação a inúmeros pontos. E o governo do PT é um governo que faz opção pelo Joaquim Levy, pela Kátia Abreu, e agora pelas terceirizações. Insistindo num erro que leva a seu desgaste.

Quando o senhor diz que o PT não optou por fazer essas rupturas, o senhor diz que ele poderia ter sido mais revolucionário?

Não estou falando de revolução, estou falando de uma eleição ganha. Estou falando de capital político, de um programa de reforma agrária. Reforma agrária não é nada revolucionário, é uma proposta capitalista, que pensa a terra enquanto propriedade. Estou falando, por exemplo, do direito à memória. Da abertura do enfrentamento à questão militar. Que todos os presidentes da América Latina fizeram, e não precisaram de revolução para isso. O Chile, a Argentina e o Uruguai passaram por uma revolução para fazer isso? Estou falando de um processo de radicalização da democracia.

Ruptura não é revolução?

Não. Estou falando de ruptura com a ditadura, ruptura para o avanço democrático. O maior desafio da democracia não é a ameaça da ditadura, o maior desafio da democracia é a ampliação da própria democracia, para onde você a amplia. E o PT teve a chance de ampliar a democracia para uma democracia mais radicalizada, mais direta, com maior participação popular. E não fez isso em nome de uma estabilidade da inércia.

Mas havia terreno para essas rupturas com o Congresso, com os partidos que compõem a base aliada?

Com o capital político que o Lula tinha em 2002, com o povo na rua daquele jeito? Claro que tinha. Se eles não tinham, quem tinha? Imagina, é lógico que tinha. Agora quando chamam para governar esses setores, quando chamam o Sarney para articulador político, não estão fazendo a escolha que tinham que fazer.

O PT acabou deixando de mobilizar pessoas que se movem pelas utopias da esquerda?

A utopia é o que organiza para um processo de transformação. A sociedade hoje está mais desorganizada, mais conservadora.

O Psol hoje ocupa esse lugar de partido que carrega as utopias da esquerda?

Eu acho que o Psol tem a capacidade de representar a nova política, ou a reinvenção da democracia. Não está consolidado, não é natural, e isso é uma construção. Ele pode também não fazer, ele pode errar. Depende do caminho.

Eu acho que é muito bom carregar utopias, não acho que utopia faça mal, acho que utopia é bom. Coitado de quem não carrega utopia na política. O problema é quando você não carrega utopia na política.

Agora eu não acho que seja apenas carregar utopias, acho que é carregar um programa e uma maneira de fazer política, de dialogar com a política que é diferente. Não são as cúpulas partidárias, não são as alianças trocando cargos por tempo de TV. Eu estou falando de coisa muito plausível, não estou falando de coisas inatingíveis.

Sem reforma política elas são possíveis?

Não, nós defendemos a reforma política. Estamos nas ruas defendendo a reforma política. Eu fui o deputado mais votado do Brasil e não aceitei dinheiro de empreiteiras, nem de nenhuma empresa. A doação foi toda de Pessoas Físicas. Isso é possível.

 

O Psol não aceita doações privadas?

No estatuto é proibido receber doações de bancos, multinacionais e empreiteiras. Mas em nossa campanha não aceitamos de nenhuma empresa, apenas de Pessoas Físicas.

O PT agora não aceita mais.

Agora, né? Porque não lutou por essa reforma política no primeiro governo do Lula, para garantir isso lá atrás? Essa era uma ruptura possível, não é revolução.

Mas o Lula não tentou fazer uma reforma política e viu que não teria maioria no Congresso?

Teria chance de pressionar o Congresso, teria chance de enfrentar, mas não quis. Não à toa o próprio Lula está defendendo apoio ao candidato do PMDB à prefeitura do Rio de Janeiro. O Lula está abertamente defendendo a aliança com o PMDB. Tirou foto no camarote do Sambódromo com Eduardo Paes, Cabral e Pezão. Tem foto dele, é só olhar.

Esse apoio ao PMDB no Rio de Janeiro não seria em nome de uma governabilidade federal?

Mas sempre é em nome da governabilidade federal. Em nome dela temos o Eduardo Cunha como presidente da Câmara. Parabéns. Belíssimo. Estamos trocando o presidencialismo de coalisão pelo parlamentarismo de extorsão. Esse é o resultado dessa prática, e é isso o que temos hoje.

Como se governa o país sem alianças?

Eu não estou falando sem aliança, estou falando de uma outra lógica de aliança. De uma outra lógica de política.

Veja o Congresso hoje, ele entenderia essa outra lógica de aliança?

A aliança com o PMDB não é aliança, é algema.

Como se governa sem o PMDB, o partido com maior capilaridade do Brasil?

Mas é o partido com maior capilaridade do Brasil porque não se quebra essa governabilidade. Porque não se enfrenta isso. Aí você vai ser refém pelo resto da vida.

Como se enfrentaria. O que pode praticamente ser feito?

Pode-se ter um campo de política, pode-se ter um campo de aliança, mas um campo de aliança programático. Qual é a grande crise da democracia hoje? É a crise de representatividade. A população está indo para a rua dizendo “nada me representa”. Se não quebrarmos isso…

Tem uma política que morreu, que é essa política da Nova República. Eu Concordo com o Safatle quando ele diz isso. Essa política morreu. Que é a política que vai fazer a gente refém das grandes capilaridades, das grandes capilaridades corruptas, pelo resto da vida. Temos que pagar o preço de começar a quebrar isso. O que só será possível quando criarmos um nível de identidade para essa população que esta indo pras ruas.

O junho de 2013 não acabou. Aquele sentimento não acabou. Aquilo foi um sentimento, não foi um movimento, não teve organização. Foi uma explosão de sentimento, que está acabado. Aquele sentimento pode voltar, mas tem que ter um sinal. Tem que ter evidentemente uma possibilidade de envolvimento num outro projeto.

O partido político não pode mais continuar sendo início, meio e fim da política. Partido tem que ser meio, tem que ser instrumento. Se não conseguirmos criar capilaridade da sociedade civil, que tem que ir para além dos partidos, nós não quebramos essa política. E as redes sociais estão aí para isso. É possível fazê-lo, é preciso tentar fazê-lo. É preciso tentar criar uma outra linguagem política que quebre, que enfrente essa crise da democracia hoje e da representatividade.

Não é com tempo de TV negociado pra cargo político, porque aí você vai reproduzir a velha politica que morreu. O PMDB vai fazer essa política porque ele só pode fazer essa política. Não nos cabe fazer a mesma política. É difícil? Sim, é difícil, mas não há outro caminho a não ser pensar numa outra política e em outro patamar.

Digamos que o PSOL consiga eleger um presidente da República, dificilmente ele conseguirá eleger a maioria no Congresso.

Claro que o desafio é gigantesco.

Como seria lidar com esse Congresso totalmente de oposição?

Eu não sei se será um congresso totalmente de oposição. Mas é preciso mudar a correlação de forças, é preciso sair dessa contagem de deputados do Congresso. E isso só se faz se a política tiver um outro eixo, de ampliação da radicalização da democracia, através de plebiscito, através de referendo, através da possibilidade de interferência. A população está pedindo isso.

Qual é a consequência? Isso eu não sei. Previsão disso, dizer o que vai acontecer, como vai ser, desenhar de forma cartesiana para você, não tenho a menor ideia. Tenho certeza de qual é o caminho, de qual é o resultado eu não sei. Agora temos que apostar na radicalização da democracia, na capacidade das pessoas se organizarem – seja através de seus bairros, através de suas redes sociais, através de seus núcleos de participação na sociedade -, para que isso gere uma outra leitura política da sociedade. A sociedade está pedindo isso

Mas isso não depende de educação? E quantas pessoas estão dispostas a viver numa democracia “radicalizada”? Essa rotina de plenárias e reuniões pode ser uma experiência chatíssima.

Educação política se faz na prática. Vou voltar para o Rio de Janeiro, se ganharmos a prefeitura, como é que governaremos com a Câmara dos Vereadores, que certamente não terá nossa maioria? Vai ser divido. Primeiro nós temos um setor de partidos que dá para dialogar. Com a base do PT dá pra dialogar, tem outros partidos que dá para dialogar. Tem um campo ético, inclusive da direita. Uma coisa é o banditismo político, a outra é um campo ético mesmo da direita com quem se pode dialogar num patamar republicano. Não estou falando de aliança, estou falando de diálogo republicano.

E aí não tem jeito, você tem que criar um mecanismo sistemático de acompanhamento da vida política na cidade, fazer com que as pessoas entendam que aquilo altera suas vidas. Que elas possam chegar em casa e dedicar alguns minutos de sua vida na Internet para saber o que está acontecendo, para divulgar, para acompanhar e para se manifestar. É uma outra lógica política, que eu não sei no que vai dar, mas que é absolutamente possível.

A imprensa poderia ajudar…

Ou atrapalhar [risos].

A imprensa hoje não faz esse papel de acompanhamento dos legislativos.

Pelo contrário, uma parte da imprensa age como partido político, Uma parte da imprensa é partido político. Vamos dar um exemplo: a redução da maioridade penal. Qual foi o debate honesto de igual para igual que tivemos até hoje? Não tivemos, pelo contrário, teve a editorialização das matérias. Todos os grandes veículos de comunicação defendem a redução da maioridade penal, e editorializam suas matérias, não possibilitando um debate honesto, agindo como um partido político. Principalmente as televisões. Nesse caso específico, apenas a Folha de S. Paulo não defende a redução da maioridade penal, e fez um editorial bem equilibrado, por sinal.

O senhor almeja a Presidência?

Da República? Nem morto.

As rupturas que o senhor propõe não são mais fáceis num município do que no Governo Federal?

É mais fácil, mas as cidades não tem um papel pequeno. As cidades hoje são os espaços da política. Não à toa as gestões das empreiteiras e a lógica da relação público-privado se dão muito mais no debate das cidades. Até porque o mundo pela primeira vez é mais urbano que rural. Hoje as cidades cumprem um papel de disputa política, de concepção de cidade, decisivo nas relações de poder. Por um lado é mais fácil, em termos de viabilidade, por outro é onde a disputa se dá de forma mais intensa. Você verá o que vai acontecer em 2016 nessa disputa de cidade no Rio de Janeiro. O que vai valer e o que não vai valer. Será um MMA. Porque o Rio de Janeiro é um laboratório desse modelo de cidade-capital, de cidade-negócio. Onde é possível ter cidade sem cidadania. Esse é o grande debate. Onde temos cidades com cidadania e onde temos cidades sem cidadania. É isso que irá marcar a divisão. A ideia da cidade partida, não é que a cidade não tem planejamento, é quem planeja a cidade. Não é que a cidade não tenha planejamento. Não ter planejamento é o planejamento.

Existe a possibilidade de uma aliança com o PT para as eleições municipais, com eles indicando um vice para sua chapa?

Não é o movimento que eles estão fazendo. Pode acontecer a aliança, não está descartada. Mas o PT hoje está no colo PMDB.

Entrevistei Washington Quaquá, prefeito de Maricá e presidente do PT fluminense. Ele afirmou ter proposto publicamente apoiar sua candidatura para 2016, mas que no dia seguinte o senhor disse pela imprensa que não queria o apoio do PT.

Mentira dele, é mentira. Não tem isso. Nunca dei essa declaração, e ele sabe que é mentira. O Quaquá está do lado do PMDB.

O que eu quero é a base do PT, da cúpula eu não faço a menor questão. Eu quero os militantes do PT, pelos quais eu tenho respeito, que estão nas lutas sociais. A base do PT me interessa, com elas eu quero dialogar, apoio até seus candidatos a vereador, eles eu tenho respeito. A cúpula… A cúpula se explica, não faz política.

Quem seria a esquerda do PT hoje no Rio de Janeiro?

São várias grupos, setores da Democracia Socialista [corrente interna do PT], setores que estão no movimento estudantil. Temos a figura do Robson Leite que foi deputado estadual, o Alexandre Molon [deputado federal].

O Robson Leite não se reelegeu. A esquerda do PT saiu derrotada nas últimas eleições?

Ela vem sendo derrotada. O Molon foi eleito, o deputado federal mais votado, mas perdeu votos em relação a última eleição. O Wadih Damous é o primeiro suplente. Com eles cabe debater, mas eu quero debater com a base, mais do que com candidatos. Com a base eu quero construir um programa. Isso é saudável, isso é bom.

Qual cenário você espera para 2016? O Romário vem como candidato?

É possível, mas não sei. Alguns dizem que ele apoiará o Pedro Paulo [provável candidato do PMDB], outros dizem que não, alguns que o apoio está sendo negociado. Não sei o que isso quer dizer.

Nomes fortes por enquanto são o senhor e o Pedro Paulo?

Tem outros, como o Crivella, que talvez venha. Tomara que sim. Tem alguém do Garotinho, não sei o que ele vai fazer, se a Clarissa Garotinho [deputada federal – PR] vem candidata. Não sei se o Bolsonaro [deputado federal – PP] vem candidato. Tem alguns nomes que estão ainda para surgir nesse debate.

O que faltou para o senhor ir para o segundo turno contra o Eduardo Paes?

Em 2008 o Fernando Gabeira (PV) foi para o segundo turno. Eu tive mais votos nesta eleição do que o Gabeira teve no primeiro turno daquela eleição, mas não fui para o segundo turno porque não tinha um terceiro candidato.

Na próxima eleição é mais provável que tenha um terceiro candidato?

Eu espero que sim, porque o primeiro turno ser decidido como um segundo para nós é ruim, por causa do desequilíbrio. No segundo turno é tudo igual, os dois com o mesmo tempo de televisão.

Fonte: Artur Voltolini

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