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Marcha das Mulheres Negras, #EleNão: quais os contextos do 8 de Março em 2022?

A Marcha das Mulheres Negras reuniu manifestantes de todos os estados do Brasil

“As guerras que estão acontecendo agora – todas elas, as guerras dos bolsonaristas, a dos evangélicos conservadores extremistas, as guerras culturais – são, de alguma forma, contra nós”, avalia Jurema Werneck, médica, ativista do movimento de mulheres negras, cofundadora da ONG Criola e diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil.

“Não são guerras só contra as mulheres na dimensão dos corpos”, detalha Werneck, “mas contra uma visão de mundo que a gente estava pleiteando e de certa forma implantando. E que significa que o mundo dominado pelo macho, branco, heterossexual, rico, tem que acabar”.

O Dia Internacional de Luta das Mulheres chega, no ano de 2022, em um contexto em que, para Werneck, “é preciso compreender que existe essa guerra contra nós: as negras, as trans, as indígenas, etc., um nós muito grande e plural”.

A partir daí, defende, “o desafio é transformar a contraposição a isso em pauta conjunta. E inundar as ruas – as físicas e as digitais”.

Com o lema “Pela vida das mulheres, Bolsonaro nunca mais – por um Brasil sem machismo, sem racismo e sem fome”, atos estão sendo realizados em todos os estados.

Desde que a pandemia de covid-19 chegou ao país em março de 2020, esse é o primeiro 8 de março com a maioria da população brasileira vacinada.

É, portanto, o retorno mais robusto às ruas por parte dos movimentos feministas, LBTQIA+ e de mulheres dentro de um histórico recente em que, a despeito do aumento de ideias e grupos totalitários no Brasil, esses setores protagonizaram mobilizações de massa.

O breve retrospecto abarca as Marchas das Mulheres Indígenas realizadas em Brasília em 2021 e 2019, os atos do #EleNão às vésperas do pleito que elegeu Bolsonaro em 2018 e uma série de mobilizações que fizeram de 2015 um ano divisor de águas. Rebobinemos.

Marcha das Margaridas

Coordenada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), a Marcha das Margaridas aconteceu pela primeira vez em 2000, reunindo 20 mil mulheres – entre camponesas, ribeirinhas, quilombolas, agricultoras e marisqueiras – em frente ao Congresso Nacional.

Mas sua quinta e última edição presencial foi em agosto de 2015. As mulheres do campo, das florestas e das águas chegaram a 100 mil no ato em Brasília, em defesa de um “desenvolvimento sustentável” com “autonomia, igualdade e liberdade”.

O nome da marcha homenageia Margarida Maria Alves, que presidiu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, e foi assassinada em 12 de agosto de 1983, a mando dos latifundiários da região. Profética, Margarida costumava dizer que “é melhor morrer na luta do que morrer de fome”.

“Na Marcha das Margaridas daquele ano a gente cantou pela primeira vez a música do Fora Cunha”, lembra Nalu Faria, psicóloga, feminista e ativista da Marcha Mundial de Mulheres.

Poucos meses depois, a canção contra o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (MDB), ecoaria em vários estados brasileiros.

“Primavera feminista”

Em outubro e novembro de 2015, enquanto a hashtag #MeuPrimeiroAssédio e seus relatos viralizaram nas redes sociais, seguidas manifestações de rua, com dezenas de milhares de mulheres, foram organizadas em capitais brasileiras com o mote “Fora Cunha”.

O objetivo, posteriormente alcançado, foi barrar o Projeto de Lei (PL) 5069/2013, de autoria de Cunha. A proposta dificultava o acesso ao aborto mesmo para mulheres cuja gestação fosse decorrente de estupro, um dos restritos casos em que a interrupção da gravidez é prevista na legislação brasileira.

Para Nalu Faria, mais do que a defesa da legalização do aborto e a reação ao risco de um passo atrás nessa luta, a experiência manifestava, de forma mais ampla, “a consciência da eminência de retrocessos”.

Alguns veículos de imprensa, como a revista Época, batizaram o período de “primavera feminista”. A alcunha se popularizou.

Marcha das Mulheres Negras

Depois de dois anos de preparação com núcleos de bairro em todo o país, a Marcha das Mulheres Negras aconteceu em 18 de novembro daquele intenso ano de 2015. “Contra o racismo, a violência e pelo bem viver”, 50 mil mulheres negras se manifestaram em Brasília.

“O movimento de mulheres negras já pauta muito do feminismo no Brasil desde os anos 1980”, ressalta a jornalista e escritora Bianca Santana. Em 1984 Lélia Gonzalez publicava seu clássico artigo Racismo e sexismo na cultura brasileira.

Autora de Quando me descobri negra e do livro biográfico Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro, Bianca salienta, no entanto, que o movimento de mulheres negras ganha muita força a partir da marcha de 2015. “Ela torna visíveis muitos núcleos organizados que estão fazendo trabalho de base e resistência na ponta”, diz.

Jurema Werneck acompanhou de perto a organização da Marcha de 2015: na época era secretária executiva da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras. “Só não tinha mais gente porque o deslocamento é muito custoso para mulheres negras, em sua maioria moradoras de favelas, quilombos, terreiros e comunidades tradicionais”.

Mas foi uma mobilização que chamou “o Brasil e a diáspora”, opina Werneck, ao citar a presença de Phumzile Mlambo-Ngcuka, sul-africana que naquele momento dirigia a ONU Mulheres.

Os quatro tiros e o prenúncio 

Quando se aproximava do Congresso Nacional, quatro tiros foram disparados contra a Marcha das Mulheres Negras.

“Todo mundo correu para tentar se proteger. Quando finalmente, depois de muita insistência, se conseguiu tirar os dois policiais à paisana dali, a marcha se recompôs e continuou”, conta Jurema.

“Foram tiros disparados por esses extremistas que agora todo mundo conhece. Era um prenúncio de muitas coisas. Uma reação difícil e violenta a essa força e visibilidade pública da organização das mulheres negras”, avalia Werneck.

“E nós fomos as únicas que nos importamos com isso. O Brasil não parou diante de uma marcha de mulheres negras sendo alvejada por quatro tiros. Por todos esses significados, essa marcha foi muito importante. Para mim é um antes e um depois, minha vida mudou demais depois disso”, enfatiza.

Desde então, coletivos locais da Marcha das Mulheres Negras seguiram organizados. “São Paulo é um deles. Se constitui hoje como um grupo político que, além do ato no dia 25 de julho todo ano [Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha], faz uma série de ações ao longo do ano”, ilustra Santana.

#EleNão

Considerada pela historiadora Celi Regina Pinto como a maior manifestação de mulheres da história do Brasil, a mobilização contra o então candidato Jair Bolsonaro (antes PSL, hoje PL) aconteceu em cerca de 100 cidades no Brasil e no mundo.

Reuniu dezenas de milhares de pessoas em 29 de setembro e 20 de outubro de 2018. Estima-se que no Largo da Batata, em São Paulo, havia 100 mil manifestantes na primeira edição do #EleNão.

Apesar de ter sido a maior reação popular que, diante do crescimento político de Bolsonaro, tentou evitar sua eleição, o #EleNão foi alvo de ampla difamação por meio de fake news.

Fotos pornográficas, por exemplo, circularam em grupos de whatsapp principalmente de setores evangélicos, veiculadas como se fossem o registro das manifestações.

Olhando para trás, Nalu Faria considera que faltou uma “estratégia organizativa para o dia seguinte”: “o que fazer frente à reação da direita? Acho que foi uma das nossas fragilidades”.

Por outro lado, salienta, “mesmo que tenha tido essa reação do setor  bolsonarista, a expressão da votação contra Bolsonaro entre as mulheres foi bem importante. E nesses anos todos, essa criticidade segue”.

Uma pesquisa do PoderData feita entre 31 de janeiro e 1 de fevereiro de 2022 indica que 59% das mulheres brasileiras consideram o presidente “ruim” ou “péssimo”. Entre os homens o índice é de 47%.

Marcha das Mulheres Indígenas 

Em agosto de 2019, por deliberação feita durante o Acampamento Terra Livre, 2.500 representantes de 130 povos realizaram a Primeira Marcha de Mulheres Indígenas em Brasília, com o eixo “Território, nosso corpo, nosso espírito”.

No manifesto da mobilização, as indígenas afirmavam que “a vida e o território são a mesma coisa, pois a terra nos dá nosso alimento, nossa medicina tradicional, nossa saúde e nossa dignidade”.

Em setembro de 2021, durante as mobilizações que levaram 6 mil indígenas a acamparem em frente ao Supremo Tribunal Federal para pressionar contra a aprovação do Marco Temporal, cuja votação foi adiada, se realizou a Segunda Marcha das Mulheres Indígenas.

Cinco mil mulheres de 172 povos indígenas marcharam sob o tema “Mulheres originárias: reflorestando mentes para a cura da nossa Terra”.

8 de março de 2022 e as lutas em aberto 

Ano eleitoral, polarização política, queda nos índices de contaminações por covid-19 com o avanço da vacinação, guerra na Ucrânia, quatro anos da execução de Marielle Franco e Anderson Gomes, ocupação militar no Jacarezinho, assassinato brutal de Moïse. Nesse contexto, chega mais um 8 de março.

“A expectativa é mostrar a força vinda das mulheres, de que 2022 é um ano de mudança”, resume Bianca Santana.

“Eu acho que grande parte do que está acontecendo de ruim no mundo, ruim no Brasil, se deve a uma reação: a uma tentativa de reposicionamento dessas forças com as quais a gente se contrapõe”, avalia Jurema Werneck.

“Nação? A minha nação é de outro jeito. Não é fruto da violência como as nações ocidentais. É fruto da coexistência, que está sendo perseguida há séculos. As trans querem outra visão, querem uma nação, uma família, onde caibam.

As negras querem outro lugar, que não seja essa guerra armada contra quem tem a pele escura. As feministas querem um lugar que não tenha feminicídio”, ilustra.

“Pode haver de novo uma Marcha de Mulheres Negras, uma marcha “Ele Não”. Mas tudo isso precisa ser um passo em relação a essa conjuntura, que é muito maior.

Tem a ver com uma noção compartilhada de coexistência, em contraposição a uma guerra contra nós”, afirma Werneck. “Esse é o desafio: transformar isso em pauta. Atualizar nossas concepções e usar isso para transformar.”

Em sentido similar, Nalu Faria defende que a auto-organização das mulheres esteja atrelada a uma visão antissistêmica ampla.

“Nós não estamos trabalhando só com a ideia de reivindicações específicas das mulheres, por mais que existam. Queremos debater a agenda da economia, da ecologia, da segurança, sempre colocando a sustentabilidade da vida no centro.”

“Acho que o grande desafio é esse”, conclui a integrante da Marcha Mundial de Mulheres, “garantir um processo de enraizamento da mobilização debatendo também um projeto político para o Brasil, no qual as formas de desigualdade – que entrelaçam raça, classe, gênero e sexualidade – se desmantelem conjuntamente”.

Brasil

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