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Quem financia as gigantes da mineração que querem atuar em terras indígenas no Brasil

Garimpo em terras indígenas

A expansão da fronteira mineral sobre áreas indígenas e de florestas até então preservadas depende de financiamento robusto, realizado por dezenas de instituições financeiras nacionais e internacionais.

O “rastro do dinheiro” que chega até projetos executados por grandes mineradoras através de investimentos e empréstimos foi mapeado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e pela ONG Amazon Watch, na quarta edição do relatório Cumplicidade na Destruição, lançada nesta terça-feira (22).

O líder de investimento em ações e títulos de gigantes da mineração que atuam no Brasil é o fundo de pensão brasileiro Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil).

Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal estão entre os principais financiadores nacionais da mineração industrial no país.

No campo internacional, o financiamento é liderado por instituições norte-americanas, mas também conta com credores da França, Alemanha e Japão.

Gigantes da mineração

O relatório aponta que, nos últimos cinco anos, nove gigantes do setor receberam um total de USD 54,1 bilhões em empréstimos, subscrições, e investimentos em ações e títulos entre janeiro de 2016 e outubro de 2021.

São elas: Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil, Mineração Taboca, Mamoré Mineração e Metalurgia (ambas do grupo Minsur), Glencore, Anglogold Ashanti e Rio Tinto.

Todas, segundo o relatório, possuem interesses em terras indígenas e histórico de violações de direitos em solo brasileiro.

Conforme a Apib e a Amazon Watch, as nove empresas possuíam, em 5 novembro de 2021, 225 requerimentos ativos com sobreposição a 34 terras indígenas, em uma área de 5,7 mil km², o equivalente ao território do Distrito Federal.

O dado foi contestado pela AngloGold Ashanti. Em nota, a sul-africana afirmou que “não opera e não tem interesse em operar nessas áreas, e que os pedidos mencionados foram feitos e retirados na década de 1990 (portanto, o relatório foi elaborado com base em dados desatualizados)”.

As corporações sediadas nos Estados Unidos são as principais investidoras de grandes projetos minerários no Brasil. As gestoras norte-americanas Capital Group, a BlackRock e Vanguard injetaram USD 14,8 bilhões na atividade.

Só o Capital Group tem USD 7 bilhões investido nas mineradoras citadas pelo estudo. Maior gestora de investimentos do mundo, a Black Rock tem USD 6.2 bilhões em ações nas empresas. Já a Vanguard investiu USD 1.6 bilhões.

Financiadores brasileiros

Instituições financeiras brasileiras também estão entre os maiores acionistas da mineração. Os mais altos investimentos são do fundo de pensão brasileiro Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil), com mais de USD 7.4 bilhões.

Na sequência de investidores nacionais, vem o banco Bradesco, com quase USD 4,4 bilhões. A Caixa Econômica federal aparece em sexto lugar, com USD 786 milhões. O Itaú Unibanco está em oitavo lugar, com USD 601 milhões. Por fim, o Banco do Brasil consta na 12º posição, com USD 285 milhões.

Já o Santander ficou em 20º lugar no ranking, com USD 191 milhões.

Maiores credores são da França, EUA Alemanha e Japão

As mineradoras citadas no relatório foram beneficiadas com com USD 12,2 bilhões em empréstimos e subscrições voltados às atividades em solo brasileiro. A maioria foi na forma de empréstimos, que somaram 77% do valor total, com USD 9,4 bilhões. O destaque é para o ano de 2019, antes da pandemia, quando USD 4,3 bilhões foram destinados à atividade.

O banco Crédit Agricole, da França, emprestou USD 698 milhões e foi o maior credor da mineração industrial no país. Não muito longe está Bank of America, dos Estados Unidos, com 670 milhões de dólares. Em terceiro lugar, vem o banco alemão Commerzbank, da Alemanha, com USD 668 milhões, seguido pelo conglomerado Citigroup, também norte-americano, com 651 milhões, e pelo japonês SMBC Group, com 525 milhões de dólares.

O Royal Bank of Canada, maior banco privado do país, injetou USD 512 milhões nas mineradoras e é o principal investidor institucional do Projeto Volta Grande, de mineração de ouro, da empresa Belo Sun, considerado socialmente e ecologicamente inviável.

Vale: a que mais atrai investimentos

A Vale, apontada como responsável pelos desastres de Mariana e Brumadinho, foi a empresa que mais atraiu empréstimos e subscrições no período analisado pela pesquisa, com USD 35,8 bilhões, seguida pela Anglo American (US$ 3,94 bilhões), Glencore (US$ 2,2 bilhões), Rio Tinto (US$ 1,1 bilhão), Anglo Gold Ashanti (US$ 465 milhões) e Minsur (US$ 289 milhões).

“A pandemia de Covid-19, ao invés de frear o ímpeto extrativista, impulsionou o setor mineral a bater recordes de lucros nos últimos dois anos. Esses bancos e fundos de investimentos ainda consideram que investir em mineração é um bom negócio, ignorando o extenso histórico de violações e impactos provocados por esse setor”, afirmou Rosana Miranda, assessora de campanhas da Amazon Watch.

Mineração e financeirização da economia andam juntas

O estudo aponta um novo boom da mineração industrial, impulsionado pelo aumento do preço das grandes commodities minerais, como o minério de ferro e o cobre. Em 2020, pela primeira vez, as 50 maiores mineradoras do mundo ultrapassaram USD 1 trilhão em valor de mercado.

O valor foi superado já em 2021, alcançando US$1,4 trilhão em valor de mercado. Entre as principais responsáveis por essa marca histórica estão a BHP, em primeiro; a Rio Tinto, em segundo; a Vale, em terceiro; a Glencore, em quarto; e a Anglo American, em quinto.

“O Brasil, na posição de exportador de commodities minerais no mercado global, tem nos últimos anos fortalecido uma conjuntura favorável à maior participação de agentes do mercado financeiro. Isso inclui a presença do governo brasileiro em eventos de prospecção mineral para investidores, e um forte discurso de abertura de novas áreas para a mineração. As empresas, cada vez mais vinculadas ao mercado financeiro, veem no Brasil uma oportunidade única para expandir seus lucros”, conclui o estudo da Apib e da Amazon Watch.

Murilo Pajolla

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