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Delegado preso se passou por funcionária de ONG para atuar em operação fake

Delegado preso

O delegado Mauricio Demétrio Afonso Alves, preso na manhã desta quarta-feira, se passou por uma mulher para forjar a prisão em flagrante de um outro delegado que o investigava.

O Ministério Público do Rio descobriu que Demétrio — fingindo ser uma funcionária de uma ONG de nome “Ana” — fez uma encomenda de camisas na confecção do também delegado Marcelo Machado Portugal com o objetivo de apreendê-las e incriminar o dono da loja.

A apreensão, de fato, foi realizada: em março passado, Demétrio foi à estamparia, na Tijuca, e apreendeu as mil camisas que ele mesmo havia encomendado semanas antes, com desenhos de “Minions” — personagens da animação “Meu malvado favorito”.

O delegado justificou a apreensão alegando que os produtos eram falsificados. Machado, que era lotado na Corregedoria da Polícia Civil e investigava Demétrio pela cobrança de propinas a comerciantes, foi preso na ocasião.

A farsa foi descoberta pelo MP ao analisar dados de um aparelho celular apreendido por Demétrio na loja de Machado.

O aparelho era usado exclusivamente para atender interessados em fazer encomendas e passou a ser analisado pelos promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) após o sócio de Machado afirmar que a maior parte das camisas apreendidas foi encomendada por uma só pessoa, que se identificava como “Ana” pelo WhatsApp.

Segundo o depoimento do sócio de Machado, o delegado, passando-se por “Ana”, disse aos funcionários da loja que era funcionária de ONG que detinha os direitos autorais para produzir as camisas para crianças que ajudavam, não demonstrou interesse pela qualidade das camisas e impressões, não se opôs ao preço cobrado e afirmou que tinha pressa em pagar com dinheiro em espécie.

O delegado fez o pagamento pelas camisas, mas postergou a retirada do material, que acabou não acontecendo por conta da operação forjada.

A partir da quebra de sigilo do aparelho da loja, o Gaeco descobriu que a linha do celular usado por “Ana” foi criada com dados falsos.

No entanto, foi possível descobrir onde o aparelho era usado: na Barra da Tijuca, próimo ao condomínio onde mora Maurício Demétrio.

Além disso, a partir de dados disponibilizados pelo WhatsApp, os investigadores também descobriram que a agenda do aparelho usado por “Ana” tinha, entre os poucos contatos cadastrados, os números de Demétrio e de sua esposa, Verlaine da Costa Pereira Alves.

Por fim, também a partir de dados enviados ao MP pela operadora de telefonia responsável pela linha, os promotores concluíram que o telefone se conectava à internet por meio do celular pessoal do próprio Demétrio e da internet fixa da casa do delegado.

Paralelamente à encomenda, Demétrio preparou a operação contra a loja: no dia em que “Ana” foi informada, por mensagem de WhatsApp, que as camisas estavam prontas, o delegado pediu, no Plantão Judiciário, a decretação de busca e apreensão na loja.

O juiz do plantão negou o pedido — e “Ana” passa a postergar a retirada das encomendas até que o pedido chegue a outro juiz, que autoriza a busca na loja. À época, Demétrio batizou a operação na loja de “Raposa no galinheiro”.

Segundo a denúncia contra Demétrio, as provas mostram “de forma inatacável o quanto nefasta e perigosa é a organização criminosa capitaneada por Maurício Demétrio, capaz de utilizar seu poder como autoridade policial e toda a estrutura que a Polícia Civil lhe provê para de forma ardilosa tramar flagrante preparado contra colega delegado de polícia, criando o palco que almejava para manipular a imprensa e, por meio desta, a opinião pública, de forma a caluniar e desacreditar severamente autoridades que atuaram na investigação instaurada contra sua organização criminosa”.

Demétrio foi titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM) entre março de 2018 e março de 2021. Atualmente estava à frente da Delegacia do Consumidor (Decon).

Na ação desta quarta, foram presos, além de Demétrio, os policiais civis Celso de Freitas Guimarães Junior, Vinicius Cabral de Oliveira e Luiz Augusto Nascimento Aloise, além do perito José Alexandre Duarte. Eles são acusados de tentarem prejudizar investigações que apuravam o recebimento de propina pelo grupo.

A Corregedoria de Polícia Civil, que não participou da operação desta quarta-feira, informou por nota que já possui procedimentos abertos sobre este caso e solicitará informações ao Ministério Público sobre a operação desta quarta para juntar nas investigações.

Um vídeo publicado no Youtube há 8 anos, sobre o caso do líder comunitário William da Rocinha, mostra que o delegado já tinha a postura de um criminoso. Mesmo assim, ele se manteve por todo esse tempo comandando operações importantes no RJ.

Rafael Soares

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