Tempo - Tutiempo.net

Quem é o médico acusado de matar 42 pacientes e por que ele ainda atendia pelo SUS

O médico João Batista de Couto Neto

Até o ano passado, quando suas redes sociais ainda eram ativas, ele exibia em seu perfil, como forma de propaganda pessoal, a marca de mais de 25 mil cirurgias realizadas em 19 anos de profissão — uma média de cerca de 1,3 mil por ano. Ele tinha mais de 15 mil seguidores no Instagram.

De acordo com a polícia de Novo Hamburgo, o médico, que só atuava na rede particular, realizava um grande número de cirurgias para aumentar os ganhos financeiros.

Segundo o delegado do caso, Tarcísio Kaltbac, a quantidade de cirurgias impedia Couto Neto de cuidar corretamente das intervenções e dos pós-operatórios.

“Não conseguimos entender por que ele fazia isso com as pessoas. Às vezes, operava uma região do corpo, mas cortava outra que não tinha a ver com a cirurgia. Houve casos de pessoas que definharam no hospital, morrendo aos poucos. Isso é recorrente nos depoimentos”, disse o delegado.

“É estarrecedor o que ele fazia. Temos fotos de pessoas com a barriga aberta, apodrecendo, e ele não receitava nada, nenhum medicamento. Dizia que não era nada e que tudo ia passar. Temos relatos de tentativa de suicídio dentro do hospital, por causa de tanta dor”, acrescentou Kaltbach.

Cremesp registrou médico
Em fevereiro deste ano, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) registrou o médico João Batista de Couto Neto, mesmo pesando sobre ele denúncias de homicídio doloso.

Na época do registro, o Cremesp alegou ter conhecimento da suspensão na licença de João Batista, mas realizou o registro porque se tratava de uma “restrição parcial”.

Em liberdade
Preso no dia 14 de dezembro enquanto realizava atendimentos pelo SUS, o médico foi solto no dia 19 de dezembro após um habeas corpus.

No alvará de soltura, a Justiça determinou condições para que Couto conseguisse a liberdade.

Além de ficar impedido de atuar como médico enquanto o processo segue em andamento, o médico também não pode tentar contato com supostas vítimas ou testemunhas, por exemplo.

No documento, a Justiça estabelece ainda que João Batista do Couto Neto só poderá entrar em hospitais ou outros estabelecimentos de saúde, se estiver na condição de paciente, enquanto o caso estiver sendo avaliado pela Justiça.

As vítimas
A professora Aida Saádeh, de 50 anos, relatou ter sido vitimada pelo cirurgião em 2016, quando o procurou para realizar uma videolaparoscopia — procedimento realizado com o auxílio de uma câmera, que é introduzida através da parede abdominal.

A negligência de Couto Neto, segundo a professora, resultou em quatro tumores neuroendócrino pancreático, que só foram descobertos no ano passado. A vítima já foi até a delegacia conversar com a inspetora da Polícia Civil de Novo Hamburgo e deve prestar depoimento na próxima semana.

A cirurgia foi indicada por um antigo gastroenterologista da confiança de Aida. A indicação era que o cirurgião realizasse o procedimento para retirar e identificar a causa do surgimento dos quatro nódulos na região abdominal.

No entanto, Aida relata que, apesar de o médico ter realizado cortes na região da barriga, nenhum nódulo foi retirado.

De acordo com Aida, ela pagou R$ 1 mil pelo anestesista e todo o procedimento, realizado no hospital UNIMED, foi coberto pelo plano de saúde.

Após passar pela videolaparoscopia, a professora realizou novos exames, que constataram que nenhum dos nódulos haviam sido retirados. A descoberta tardia, já em estágio de metástase, aconteceu pela característica da doença, de ser assintomática.

“A grande dúvida que eu tenho é o que ele fez comigo, porque eu fui anestesiada, tenho cicatrizes, mas não foi retirado nada de mim. Exames posteriores provam isso. Inclusive não foi feita a biópsia para saber do que se tratavam os nódulos. Depois, quando o questionei, ele disse que eu tinha apenas camadas de endométrio e um nódulo dentro do pâncreas, quando, na verdade, eu ainda estava com os quatro caroços e nenhum dentro do pâncreas”.

Em cirurgias realizadas este ano, a professora tirou parte do intestino e estômago, e os quatro nódulos.

Na última, ela ficou 32 dias internada, contraiu infecção hospitalar e precisou fazer hemodiálise. Já sofrendo de transtorno bipolar, Aida teve que lidar com a depressão acarretada pela negligência.

RPP

OUTRAS NOTÍCIAS