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Aliança Lula-Alckimin – com qual programa?

Alckmin e Lula

Boa parte da esquerda tem se perguntado se interessa uma aliança com Geraldo Alckmin.

Essa pergunta, como tem sido posta, é impossível de ser respondida.

E é impossível porque a pergunta está errada da perspectiva democrática e popular.

Ela desloca a discussão política, programática, para o mérito das pessoas de Lula e de Alckmin, quando o que interessa saber é qual será o programa político no qual está sendo construída essa aliança.

É sintomático que boa parte da esquerda, tanto defensores da referida aliança quanto seus críticos, tenha caído nessa verdadeira armadilha que consiste em discutir nomes.

Perdem-se em considerações, a maioria delas meramente conjecturais, sobre os ganhos ou perdas eleitorais de tal aliança; perdem-se também na discussão sobre as pessoas dos candidatos e a sua história política passada e recente.

É claro que a história política conta, mas o problema é que os políticos podem mudar de posição. Muitos socialistas tornaram-se políticos burgueses e importantes políticos burgueses conservadores tornaram-se políticos progressistas.

Logo, a história política deste ou daquele político, salvo situações extremas, não é um critério decisivo. No Brasil, o debate político está muito personalizado e, infelizmente, parte da esquerda perde-se nessa fulanização.

A primeira coisa que interessa é qual programa Lula e o PT proporão para uma aliança que englobe a candidatura Alckmin na vice-presidência de Lula.

Numa aliança, cada parte deve apresentar o programa mínimo comum que entende que deva servir de base para a aliança.

É o início da negociação.

Concessões terão de vir de parte a parte. No caso do PT, irá propor quais “desrreformas” para iniciar a negociação em torno de um eventual governo Lula-Alckmin?

Vamos conjecturar improvisadamente e apenas para ilustrar uma lista.

O PT poderia propor várias “desrreformas”: (a) trabalhista; (b) previdenciária; (c) retomada da valorização do salário mínimo; (d) do teto de gasto; (e) independência do Banco Central; (f) retorno ao sistema de partilha no pré-sal; (g) suspensão dos processos de privatização da Eletrobrás, dos Correios, das refinarias da Petrobrás; (h) volta do imposto sobre exportação, como fez com árdua luta o peronismo na Argentina, etc, etc.

Como medidas políticas: (a) desmilitarização do governo e das instituições do Estado (STF, TSE) e volta dos militares aos quartéis; (b) fim da cláusula de barreira para os partidos políticos; (c) fim das mordomias de parlamentares que os colocam acima dos seus partidos; (d) apuração dos crimes cometidos contra a saúde pública e assim por diante.

Suponhamos, agora, que Alckmin aceite algumas dessas “desrreformas” e dessas medidas políticas e recuse outras.

A aliança entra em processo de avaliação nas organizações partidárias progressistas interessadas, mas uma avaliação política, programática.

Um debate como esse, além de orientar politicamente a esquerda, educa politicamente as massas populares. E nós vimos o quanto a organização e a educação política fez falta na hora de resistir ao golpe de 2016.

Num processo como esse, estaria colocada de modo correto, isto é, que interessa ao movimento democrático e popular, a questão seguinte: interessa à esquerda apoiar o programa comum proposto pela aliança Lula/Alckmin?

Como resposta, eu diria que não vejo porque a esquerda não deveria apoiar tal aliança se ela contemplasse significativas “desrreformas” e medidas políticas democráticas.

Porém, nesse caso, repito, tudo estaria baseado no programa político da aliança, e não nos nomes, nas pessoas que o encarnam.

Muitos poderão argumentar que tal posição é idealista, pois no Brasil não é assim que se faz ou que se tem feito política.

Pois é, a esquerda não tem como tarefa fazer política como tem sido feita, mas, sim, fazê-la do modo que interessa ao movimento democrático e popular.

De resto, na verdade, a discussão se dá em torno de nomes apenas na superfície ou na aparência do processo político.

Por trás das cortinas, as cúpulas partidárias e as pessoas diretamente envolvidas – Lula e Alckmin – terão um programa mínimo construído na base de cochichos entre as cúpulas partidárias, longe dos militantes dos partidos.

Teremos um programa oculto enquanto as massas e parte da esquerda perdem-se na discussão de nomes.

 

Armando Boito é professor titular de ciência política na Unicamp. Autor, entre outros livros, de Estado, política e classes sociais (Unesp).

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