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Com Lula no radar e crise em Brasília, centrão aumenta o preço por apoio ao governo

Bolsonaro no fio da navalha que ele mesmo afiou

Com o país registrando mais de 2 mil mortes por dia por coronavírus, a queda de Luiz Eduardo Pazuello no ministério da Saúde foi uma boa notícia para os parlamentares do chamado “centrão”, que hoje formam a base Jair Bolsonaro (sem partido) no Congresso Nacional e esperam uma reação do governo no combate à pandemia.

Mas, no mesmo dia em que Pazuello abandonou a pasta, o novo ministro, Marcelo Queiroga, já disse que foi convocado para dar continuidade ao trabalho do antecessor, o que não foi encarado como um bom sinal pelos deputados governistas.

A posse de Queiroga, seguida pela pesquisa do Datafolha, divulgada na última terça-feira (16), que mostra a rejeição a Bolsonaro em 54% – a maior marca desde o início do mandato -, fizeram a relação do Planalto com sua base no Congresso se estremecer.

Para os deputados do centrão, a reviravolta no cenário só seria possível se o governo mudasse o tom no tratamento da pandemia, saindo da inércia e cooperando com os estados para a queda no número de óbitos.

Em um cenário tão adverso, o governo viu a conta política chegar.

De acordo com o jornal El País, os parlamentares que aderiram ao governos passaram a exigir maior participação no Executivo, e agora exigem cinco ministérios: Casa Civil, Secretaria de Governo, Minas e Energia, Relações Exteriores e Educação.

Se Bolsonaro entregar as pastas, terá que exonerar três militares que as comandam, causando uma crise ainda maior no Palácio do Planalto.

No tabuleiro de Brasília, o presidente vê, neste momento, o futuro de seu governo nas mãos do centrão.

Os parlamentares devem colocar na mesa de negociação a importância da bancada para frear um possível pedido de impeachment do presidente e a formação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a gestão da crise sanitária pelo governo federal.

Um deputado federal do DEM, que integra o centrão, disse ao Brasil de Fato que “o presidente ainda tem o apoio” do centrão, mas que “é difícil imaginar se iremos com ele até 2022”.

“Falta pouco mais de um ano para a eleição. Sair do barco agora tem riscos. O governo está fragilizado e apanhando muito, mas não temos por que abandonar agora.”

Ainda segundo ele, “a pandemia não é um problema”. “O país está vacinando, o presidente agora está mostrando sua preocupação com as vacinas”, afirmou. O Brasil imunizou apenas 13 milhões de pessoas, 4,7% da população.

Outro deputado federal, do PL, não vê motivos para sair do governo. “Agora”.

“Eu posso falar por mim, ainda há tempo para o governo virar esse jogo. Obviamente, estamos falando com o cenário de hoje, não sei como será amanhã, ou mês que vem, ou em janeiro do ano que vem. Eu acredito no governo, mas precisamos virar o jogo”.

sobre as mortes diárias, o parlamentar preferiu a ironia. “Só aqui morre gente por coronavírus?”

Lula e a vacina

Bolsonaro mudou a postura em relação aos imunizantes desde o discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que falou como candidato, logo após o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), anular todos os processos e sentenças contra o petista, no âmbito da Operação Lava Jato, e defendeu o uso da vacina.

Para a cientista política Maria do Socorro Braga, professora da Universidade Federal de São Carlos, “Lula tem força suficiente para tirar o atual presidente do poder”, e isso pode movimentar o jogo político e as alianças em Brasília.

“Com a chegada do Lula, com esse primeiro discurso, já vimos mudanças de atitude no atual governo. O ex-presidente trouxe a política e uma renovação da oposição. A tendência, conforme Lula se mantiver nessa chave, dialogando com a centro-direita e a centro-esquerda, é atrair cada vez mais setores da política e da economia”, afirmou Braga.

Raquel Meneguello, cientista política e professora titular em Ciência Política na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também enxerga na volta de Lula à disputa uma possibilidade de enfraquecimento das alianças do presidente.

“Eu não vejo que Bolsonaro tenha constituído uma base no Congresso, tal como entende-se uma articulação de partidos e parlamentares que dá sustentação ao Executivo. As aprovações que até agora o governo teve no congresso devem-se a que a pauta coincide”, pondera Meneguello, que vê dissonâncias entre os congressistas e o Palácio do Planalto.

“A Câmara é predominantemente alinhada com propostas que já passaram pelo Legislativo, e não são devidas a negociações e conversas políticas sólidas. Esse não é o modo de fazer as coisas desse governo. Ele prefere satisfazer a base familiar e o contentamento privado. Considerando que esse mandato tem ainda quase 2 anos de duração, a condução só poderá mudar com as imposições da dinâmica eleitoral de 2022”, finaliza.

Igor Carvalho

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