Rejeição cresce em meio ao caos das vacinas e devotos do Mito ficam irados

A conta chegou para o capitão: depois de meses promovendo o caos no combate à pandemia e de boicotar a vacinação, a parcela da população que rejeita o governo Bolsonaro cresceu pela primeira vez desde março.

Pesquisa da XP Investimentos, em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), divulgada nesta segunda feira, mostra que subiu de 35% para 40% o índice de brasileiros que consideram o governo como “ruim ou péssimo”.

A avaliação “ótima ou boa” caiu de 38% para 32%. Desde julho, no auge da primeira onda da pandemia, é a primeira vez que a avaliação negativa supera a positiva. A variação coincide com uma piora na percepção da atuação do presidente para enfrentar a covid-19.

Agora são 52% os que consideram “ruim ou péssima” a gestão da crise sanitária, 4 pontos percentuais a mais do que no final do ano passado.

A pesquisa foi feita antes do momento mais crítico da tragédia de Manaus, em que dezenas de pessoas morreram sufocadas por falta de oxigênio, e da lambança do Ministério da Saúde na compra de vacinas e seringas.

Para completar, no domingo em que a Anvisa liberou a CoronaVac, o governador paulista, João Doria, deu início imediatamente à vacinação em São Paulo.

O presidente se recolheu a obsequioso silêncio nas redes sociais, sem comentar o feito do seu adversário, mas mandou seu obediente general da Saúde dar uma desastrada entrevista coletiva, como se estivesse lendo a ordem do dia num quartel, em que mentiu à população, ao dizer que o governo federal financiou a compra e o desenvolvimento da CoronaVac.

Desmentido por Doria, que negou qualquer ajuda financeira recebida do governo federal para as vacinas, ao ser confrontado pelos repórteres, o general da Saúde se saiu com essa:

“Eu não sou historiador. Não falo das coisas do passado”.

Bolsonaro fez o que pode para boicotar a “vacina chinesa do Doria”, mandou cancelar em outubro um acordo feito pelo Ministério da Saúde com o Instituto Butantan para a compra de 48 milhões de doses e, no fim, com o fracasso da “Operação Tabajara” na Índia, teve que requisitar às pressas 6 milhões de doses em São Paulo para dar início ao Programa Nacional de Imunização, marcado para começar no Dia “D”, 20 de dezembro.

Mas o pior ainda viria nesta segunda-feira na pajelança promovida por Eduardo Pazuello com os governadores, em São Paulo, para anunciar a abertura oficial da vacinação em todo o país, simultaneamente, com a distribuição das vacinas numa grande operação aérea de aviões comerciais e da FAB.

Deu tudo errado. Os horários dos voos para a entrega de vacinas foram mudando várias vezes durante o dia, deixando as autoridades locais, civis, militares e eclesiásticas, esperando em vão nos aeroportos.

Cidades que receberiam as vacinas antes das 16 horas foram informadas que os aviões só chegariam à noite ou de madrugada.

Houve um “problema de logística” nas escalas dos aviões, justamente a especialidade do general Pazuello, que agora faz discursos e dá entrevistas todos os dias em transmissões ao vivo pela TV, na tentativa de se segurar no cargo. Trata os repórteres como se fossem seus soldados e foge das perguntas.

Diante desse furdunço federal, os fiéis devotos das redes sociais, já sem argumentos para defender o presidente, começaram a ficar cada vez mais irados, invadindo as áreas de comentários dos blogs para dar golpes abaixo da cintura, atacando os mensageiros das más notícias para o Mito.

Notei que o vento virou também, de um dia para outro, nesse campo ainda dominado pelos bolsonaristas, mas que já não são hegemônicos nas redes e procuram novos canais como o americano Parler, rede social dos trumpistas de extrema-direita, e a plataforma russa Telegram, muito usada por Sergio Moro para orientar os procuradores de Curitiba nos tempos da Lava Jato.

“Pessoal, uma notícia, Apesar da vacina… apesar, não…quer dizer…, a Anvisa aprovou, não tem o que discutir mais”, foi logo dizendo aos seguidores no portão do Alvorada ao reaparecer hoje de manhã, com ar emburrado. “A vacina é do Brasil, não é de nenhum governador, não”, proclamou.

Como sempre acontece quando a corda aperta, Bolsonaro recorreu ao discurso ideológico dirigido aos militares:

“Quem decide se o povo vai viver em uma democracia ou ditadura são as Forças Armadas”.

Isso é só mais uma ameaça ou um sinal de que a coisa está ficando feia?

Ricardo Kotscho

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