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Todos sabem que a chuva matará em Petrópolis, menos os governantes

Cidade de Petrópolis, castigada por um temporal, na manhã desta quarta-feira, 16

Um dia antes da chuva que provocou, até agora, 104 mortos em Petrópolis (RJ), a Defesa Civil do Rio de Janeiro recebeu um alerta de possibilidade de “chuvas isoladas ao longo do dia, podendo deflagrar deslizamentos pontuais, especialmente nas regiões de serra e/ou densamente urbanizadas” na região Serrana do Rio de Janeiro, onde fica a cidade.

O aviso foi dado na segunda-feira (14) pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais) e deveria ter levado as autoridades a retirarem os moradores do local, diz Paulo Artaxo, professor titular do Instituto de Física da USP e vice-presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo.

“O governo do Rio de Janeiro deveria ter evacuado Petrópolis quando recebeu o alerta de risco de desastre. Isso é óbvio. Se há um alerta de chuva forte em uma região sabidamente de risco, a primeiríssima coisa a se fazer é retirar todo mundo desse local”, afirma.

Para o físico, não houve evacuação porque a Defesa Civil do Rio de Janeiro não está preparada para lidar com uma situação como essa.

“Uma década depois do desastre de 2011 e isso volta a acontecer. O contexto climático, chuva e região de risco, é similar ao de dez anos atrás e ainda assim vivemos mais um desastre.”

Artaxo avalia que, apesar de ter havido avanços, como a instalação de sirenes na região e o monitoramento de áreas de risco após a criação do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais), “de nada adianta monitorar o risco se a Defesa Civil não for capaz de atuar. As defesas civis brasileiras precisam quadruplicar de tamanho urgentemente”, afirma.

A violência e intensidade dos deslizamentos remetem à tragédia de 2011 na região serrana do Rio.

Na ocasião, mais de 900 pessoas morreram. O caso foi classificado pela ONU como um dos dez piores deslizamentos do mundo em 111 anos.

Sistema de alerta não funcionou perfeitamente
“O centro da cidade foi afetado e lá não tem sirene. As pessoas foram alertando por WhatsApp, mas não deu tempo desse monitoramento todo ser acionado, porque a chuva chegou muito rápido e com muita força. Os núcleos de defesa civil e monitoramento ajudaram no sentido de demonstrar o risco na comunidade e fazer as pessoas irem para lugares de apoio, mas não deu conta porque foi muito rápido”, informou uma moradora de Petrópolis.

“Petrópolis tem uma política habitacional defasada. Vi investimento na questão do socorro e prevenção. Mas a gente tem dificuldade de lugares seguros para abrigar. Uma escola que era ponto de apoio foi afetada na tarde de ontem”, acrescentou.

“Escolas foram varridas do mapa ontem em Petrópolis. Essas crianças vão perder um ano de suas vidas por causa de um desastre que poderia ter sido evitado se o Brasil tivesse aprendido a lição após 2011. O Cemaden precisa crescer e receber verba”, diz Paulo Artaxo.

O Cemaden foi criado em julho de 2011 por decreto da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) menos de seis meses após o maior desastre na região Serrana.

Tragédia podia ser evitada
“Tragédias causadas por fatores imprevisíveis chocam, mas deixam um gosto menos amargo do que aquelas que poderiam ser evitadas ou mitigadas pela ação do poder público municipal, estadual e federal. Afinal de contas, todo mundo (menos as autoridades) sabe que a chuva vai matar anualmente na capital, no litoral ou no interior do Rio. E que o clima do planeta mudou”, pontua o jornalista Leonardo Sakamoto.

“Para além das ações de resgate e realocação de vítimas, um pedido de desculpas por parte deles seria, portanto, o mínimo civilizatório neste momento. Chamamos equivocamente de “desastres naturais” as mortes causadas por inundações, deslizamentos, entre outros eventos. Mas não há nada de natural nisso, pois é possível prever e reduzir o sofrimento causado”, continua.

“A retirada da população de um local, com antecedência, e a recolocação em outro, de forma decente e digna, é um exemplo. A melhoria estrutural de uma comunidade para evitar um deslizamento, é mais um. Políticas de moradia que construam casas em locais fora de risco é outro.

Pesquisas para o levantamento de novas áreas de risco e o desenvolvimento de protocolos de retirada são fundamentais. Sem falar na adoção de sistemas de alertas decentes, emitidos dias antes. Se esses processos não são implantados é também por irresponsabilidade ou incompetência de gestores”, diz Sakamoto.

“O país não precisa de políticos otimistas, mas de pessoas capazes de encarar a realidade e responsabilizar-se por ela.

Não precisamos de administradores religiosos que rezam por uma trégua dos céus, terceirizando a responsabilidade para Deus.

E sim de gente realista, que tem o perfil de alguém que espera sempre o pior e age preventivamente, não culpando as forças do universo pelo ocorrido.

O que temos visto, contudo, é o governo federal e sua base de apoio no Congresso Nacional afrouxando regras e leis que fragilizam meio ambiente em busca do lucro fácil de seus patrocinadores e apoiadores.

E um negacionismo tacanho quando ao aquecimento global — negacionismo que chegou a dizer que a temperatura subiu porque há termômetros que foram removidos da terra para o asfalto”.

Agência Brasil

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