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Uma infância de poucas possibilidades.

O presente de natal

Em uma época com poucos recursos, Eli Vieira relembra como o Natal era vivido com criatividade. 

O que é o Natal?

Hoje, com 55 anos, sei que é momento de agradecer e compartilhar com todos. Mas na tenra idade, não era assim que pensávamos.

Meus pais vieram de Vacaria com quatro filhos (de seis meses, um ano e meio, dois e quatro anos de idade). Dois deles estavam desenganados pelos médicos de lá, termo usado pela minha mãe.

Vieram a Caxias do Sul para curá-los e tentar a sorte. Moramos em muitos lugares e nem sabíamos o que era o Natal.

Quando começamos a nos dar conta que as outras crianças ganhavam presentes e montavam presépio e nós não, passamos a sonhar. Era uma infância de poucas possibilidades, mas vivida com criatividade.

Minha mãe Vicenza, uma guerreira, trazia um galho de árvore para enfeitarmos a casa. Era uma festa. Usávamos papéis coloridos, algodão e uma flor chamada Sempre Viva que tinha próximo da nossa casa, no bairro Pio X.

A mãe sustentava a casa com dinheiro de faxinas na vizinhança do bairro. Era escolher: comida ou brinquedos. Quando tínhamos entre cinco e nove anos, minha mãe nos deu uma notícia maravilhosa, afinal aquele ano havia sido “gordo” para ela.

“Meus filhos, esse ano vocês poderão escolher um presente para cada um.”

Era algo surpreendente, pois presentes eram muito eventuais, que ganhávamos de outras pessoas. Ela nos levou numa livraria da cidade e nos disse para escolher. Meu Deus, quanta felicidade era estar num lugar como aquele, foi esplêndido.

Hoje, eu e meus três irmãos, todos cinquentões, lembramos de cada detalhe daquele dia. Rony, o mais velho, optou por um skate. Eu, preferi um jogo de memória da turma da Mônica. Soli escolheu um caminhão com vacas na caçamba. E Lauri, o mais novo, ganhou uma arma de plástico.

A nossa alegria era tanta que fomos contar para os amigos da rua de casa que também havíamos ganhado presentes. Pudemos brincar e compartilhar com eles. Guardei o meu jogo de memória por muitos anos.

A abundância de comida também não havia, sempre foi o básico, o simples. Mas, no Natal, tínhamos o melhor.

Era quando minha mãe gastava um pouco mais e fazia uma torta de bolacha com granulado de bolinhas prata. Comíamos esse doce como um manjar.

Sempre pensávamos: talvez no próximo ano tivéssemos a mesma sorte.

Boas recordações e um grande aprendizado.

Eli Vieira, cuidadora de idosos.

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