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Agronegócio
Carlos Lima | Publicado em 12/02/2020 às 08:29:10

MP entra com ação para tentar suspender nomeação na Funai

MP entra com ação para tentar suspender nomeação na Funai MPF entra na Justiça contra a nomeação do novo coordenador de Índios Isolados da Funai

O Ministério Público Federal entrou, ontem terça-feira (11), com uma ação na Justiça para tentar suspender a nomeação de Ricardo Lopes Dias para o cargo de coordenador-geral de Índios Isolados e Recém Contatados da Funai. Indigenistas e antropólogos também têm criticado a nomeação por considerarem que ele pode adotar políticas que interfiram na cultura desses povos.

Formado em teologia e antropologia, Ricardo Lopes Dias atuou durante dez anos na Missão Novas Tribos do Brasil, organização que trabalha na evangelização de índios na Amazônia. Nesse período, conviveu com a etnia matsés, que vive na terra indígena Vale do Javari, no Amazonas,

Segundo caciques da etnia matsés, Ricardo Lopes Dias queria fundar uma igreja, mas não teve autorização dos índios e acabou construindo a igreja em outra área, fora da terra indígena.

Em uma dissertação de mestrado em 2015, Lopes Dias falou sobre o trabalho com os matsés. Disse que o alvo era “desenvolver um programa de evangelização dos matsés no Brasil, o que resultaria de um trabalho demorado, meticuloso e sofrível, que envolveria jornadas de estudos para aquisição do idioma matsés, coleta de material cultural para análise e, progressivamente, uma elaboração de material linguístico, didático, informativo e religioso”.

Os caciques matsés divulgaram uma carta, antes da nomeação, em que dizem que Ricardo Lopes Dias “manipulou parte da população matsés para que fosse fundada uma nova aldeia”. E que ele tirou proveito dos matsés: “se apropriou de nossa cultura e vendeu sua casa na aldeia para a igreja”.

A preocupação de antropólogos e indigenistas se baseia no tipo de relação que Ricardo Lopes Dias tinha com os índios, questionando aspectos da cultura deles. Por isso, temem que ele acabe com política do órgão de evitar contato com as tribos isoladas. Esse princípio é seguido pela Funai desde 1987 porque esses grupos são mais vulneráveis e precisam de proteção. O Brasil é o país que mais tem índios isolados em todo o planeta.

Além disso, a nomeação do antropólogo Ricardo Lopes Dias ocorre depois de uma mudança no regimento interno da Funai, que permitiu que pessoas de fora do quadro de servidores possam assumir a coordenadoria que cuida dos índios isolados — que ainda não fizeram contato — considerado o cargo mais sensível e técnico do órgão.

A Defensoria Pública da União já está cobrando da nova direção da Funai um posicionamento sobre essa política.

O antropólogo Tiago Moreira dos Santos diz que manter os índios isolados é fundamental. O contato é muito arriscado e pode levar à morte dos índios.

“Pode acarretar uma perda cultural muito grande nessa situação de contato — aquilo que a gente chama de etnocídio —, mas também pode acometer com o desaparecimento físico dessas populações. A gente tem um histórico, inclusive de situações de contato recente, em que um quarto da população morreu por consequência desse tipo de epidemia, de gripes e doenças respiratórias, e que foram situações que foram causadas pela presença de atividade missionária”, explicou.

Ricardo Lopes Dias disse que não pretende mudar a política da Funai de manter os índios isolados.

“Por conta da minha experiência missionária, tem sido veiculado muito a questão de que eu vou fazer igrejas, que vou conduzir epidemias, colocar pessoas talvez enviesadas pela questão religiosa para assumir essas coisas. Não, isso é boato. Eu espero que a gente a possa, sim, a partir do que já está bom, melhorar, se for o caso, mas de forma alguma retroceder e prejudicar sobretudo os direitos dos povos indígenas”.

Jornal Nacional

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