Carlos Lima
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Agronegócio
Carlos Lima | Publicado em 03/06/2019 às 11:12:48

Sobreviventes da tragédia da Vale em Brumadinho ainda aguardam reparação e temem pelo futuro

Sobreviventes da tragédia da Vale em Brumadinho ainda aguardam reparação e temem pelo futuro Foto: Divulgação/Reprodução globo rural

Muitos sobreviventes da tragédia de Brumadinho ainda negociam com a Vale a indenização pelas perdas humanas e materiais. A reportagem do Globo Rural reencontrou famílias de agricultores visitados em janeiro, logo após o rompimento da barragem. Eles vivem em compasso de espera, em busca de reparação, e com medo do futuro.

Logo na entrada do município, o letreiro virou uma espécie de memorial. O tráfego intenso de caminhões e máquinas pesadas agora é comum nas estradas. E a cidade de 40 mil habitantes inchou. Trabalhadores, curiosos e oportunistas atrás de indenização.

“As transferências de título de eleitor aumentaram drasticamente. Você vê pessoas tentando fazer contrato de aluguel com data retroativa, indo no cartório protocolar. Hoje você vê polícia o tempo todo, assalto na porta do banco. Hoje o município vive uma insegurança”, diz Andressa Rezende Jardim, secretária da agricultura.

O trem carregando material com minério continua suas viagens. Na área atingida pelos rejeitos, as placas de vendas de imóveis se multiplicaram e, por toda parte que se vá, tem sempre algum acesso fechado.

Sem a roça, muitos agricultores passam os dias parados, olhando de longe a terra onde trabalhavam. “Sua vida tá toda ali, seu trabalho, suas condições todas, e com 15 segundos foi tudo levado”, diz Ronaldo Oliveira.

“Tem a minha máquina lá, tem o trator dele. Se forem lá e roubarem uma peça, se você não fizer uma ocorrência, some e dizem: não podemos fazer nada, já estava assim antes”, emenda.

Ronaldo é pai de Ronan, de 14, anos, um dos rostos conhecidos da tragédia. Ele foi resgatado da lama e ficou internado por 8 dias. Hoje, o menino está recuperado e se diverte andando de bicicleta, mas diz que não gosta de voltar ao local do acidente.

“Dá um frio na barriga, dá uma sensação ruim”, diz. “É um dia que a gente não vai esquecer, foi terrível”, completa a mãe do garoto, Luciane Oliveira.

Assim como outros agricultores, a família recebeu, até agora, R$ 15 mil pela renda que perdeu da lavoura. E vão receber, por um ano, o pagamento de um salário mínimo por adulto e meio pelo adolescente. Mas as dívidas se acumulam. “Tem [financiamento do] Pronaf, prestação de caminhão”, diz Ronan.

E eles ainda vêm sofrendo preconceito.

“A preocupação das pessoas é se você já voltou a trabalhar, como se a gente não quisesse. Eles acham que é arrumar uma terra e começar. Só que precisa de motor, bomba, encanamento, trator, que está tudo debaixo da lama. É dinheiro que a gente foi juntando para comprar esses negócios. Como vamos começar do nada sem saber de onde vem?”, diz Luciane.

Em busca de reparação, a vida das pessoas atingidas virou um vaivém de reuniões e audiências. Com medo de prejudicar uma possível negociação, muitos agricultores não querem dar entrevistas, ou medem suas palavras.

“A gente tem o nome limpo na praça e vai levando porque tinha reserva. E [daqui] para frente?”, questiona José Salvador. “A gente adiou dívidas porque a gente comprava no Ceasa. Mas daqui uns dias tem que pagar.”

O município, conhecido como produtor de hortaliças, viu suas vendas diminuírem, e não só dos 60 produtores que ficam na área atingida pelos rejeitos.

“Nós tivemos vários caminhões que retornaram do Ceasa Minas por não conseguir vender. [Dizem]: ah, é de Brumadinho, então está contaminado. E não é verdade! Estamos acompanhando os produtores e temos vários prejudicados. Eles tiveram um prejuízo incalculável”, diz a secretária do Meio Ambiente.

Com autorização dos Bombeiros, o Globo Rural entrou em uma área isolada, na comunidade do Córrego do Feijão, próximo à barragem que se rompeu. O local tem rejeitos dos dois lados, e, conforme se anda pela estrada, encontra-se resto de casas, tratores, veículos, tudo o que estava soterrado.

Não muito longe dali, estão mais de 400 animais resgatados da tragédia. A fazenda alugada pela Vale serve de abrigo até que os donos possam recebê-los de volta. Cachorros e gatos, vários deles nascidos no local, vão para a adoção se os donos não aparecerem.

A agricultora Renata Barbosa é dona de dois dos bichos, o cavalo Coronel e a égua Paquita. Ela e o marido ainda não têm onde colocá-los, porque a área que arrendavam está abandonada.

Tristeza e desespero

De volta à casa onde moravam, que foi saqueada, Renata se entristece. “Você olha para tudo o que construía com tanta luta e tanto amor, é muita tristeza.”

Hoje, ela vive com a família em uma casa alugada pela Vale e, na cozinha, mostra os remédios que passaram a fazer parte da sua rotina. “Calmante, remédio para dormir, remédio para dores musculares”, lista. “Preocupa a incerteza da vida da gente a partir de agora.”

Antônio Nunes, conhecido como Tonico, também mostra a horta que fechou. O cultivo, onde trabalhavam várias famílias, hoje é só mato. Quinze anos de trabalho perdido.

“Todos perderam a renda, todos não sabem o que fazer. Eles não sabem fazer outra coisa, então está todo mundo estado de desespero.”

Ele diz que encontrar outra área como aquela para trabalhar não é fácil. “Próximo a acesso para transportar nossas mercadorias, não encontra. Com a água que a gente tinha aqui, que era cristalina, cheia, de peixe… Hoje não te mais nada”.

É à Defensoria Pública que recorrem as pessoas que não podem pagar um advogado. Todos os dias, há novos atendimentos.

“As pessoas que tinham áreas rurais receberão pela terra. Toda a área é indenizada, inclusive o dano moral em razão dessa angústia de não saber o que vai acontecer no futuro”, diz o defensor Antônio de Carvalho Filho.

O valor pago por hectare, segundo ele, está em torno dos R$ 26 mil. Para a secretária de agricultura, Andressa Rezende Jardim, o valor justo seria de cerca de R$ 50 mil. Segundo a Vale, será pago um valor competitivo, equivalente à situação de mercado anterior ao rompimento.

Terra rica em minério

Alguns dias atrás, surgiram novas dúvidas sobre os valores da indenização. Há nove anos, a Vale sabe que 905 hectares, incluindo parte da área atingida pelos rejeitos, possuem minério em seu subsolo.

A empresa pediu sigilo sobre esses dados à Agência de Mineração apenas 4 dias após firmar termo de indenização com a Defensoria Pública do Estado de Minas. Quando a vítima assina o termo, concorda em transferir a posse de sua terra para a Vale. A Defensoria Pública da União e os ministérios públicos federal e estadual pedem providências à defensoria do estado.

A defensoria estadual diz que o termo de compromisso considera danos já ocorridos e que prejuízos futuros podem gerar novos acordos. A Vale diz, em nota, que não pretende minerar nas áreas próximas a Córrego do Feijão.

O trabalho para resgatar vítimas continua. No local onde ficava o restaurante de funcionários da Vale, perto da barragem que se rompeu, é onde se concentra a maior movimentação de Bombeiros e máquinas. Mas o que mais sai de lá são caminhões carregados de rejeitos.

Eles são peneirados e, depois, seguem para enormes caminhões. A Vale diz que esse material está sendo acondicionado em ecobags, dentro da mina, e que, depois, seguirá para aterros adequados. A empresa prometeu, mas não liberou a entrada da reportagem para fazer imagens desses ecobags.

Marcelo Klein, porta-voz da Vale, diz que há minério nos rejeitos, mas que eles não serão reminerados. “Não tem preocupação com isso, não.”

Promessas e espera

As vítimas da tragédia vivem de promessas e espera. Para quem perdeu parentes na tragédia, apesar de estar prevista uma indenização para cada pessoa do núcleo mais próximo da família, não há reparação possível.

Mais uma vez, Carine Aparecida da Silva saiu da defensoria sem respostas. O marido perdeu o emprego, na pousada que ficou sob a lama. A casa deles também foi destruída. Mas nada se compara à perda da irmã, Camila, de 16 anos. Para ajudar o pai doente, a adolescente tinha começado em um emprego novo no dia 21 de janeiro, como camareira, na mesma pousada, soterrada quatro dias depois.

“Eles vão tentar me dar uma cala boca, porque a única reparação que eu queria era a minha irmã de volta. Eu só queria a vida e isso eles nunca vão poder me dar de volta. Dinheiro é um papel, não é tudo. Para eles, é tudo.”

Em um ritual sagrado, os índios tentam trazer de volta a vida do rio. De acordo com a tradição deles, foi de uma gota d’água que surgiu a nação Pataxó. Um ritual diário numa região inteira carente de futuro.

Segundo a Agência Nacional de Águas, 45 barragens ainda correm risco de rompimento em todo o Brasil, incluindo reservatórios de água e áreas de mineração.

Globo rural

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