Carlos Lima
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Cultura
Carlos Lima | Publicado em 10/07/2018 às 10:41:52

João Gilberto é mito 60 anos após entrada em estúdio que mudou a música do Brasil

João Gilberto é mito 60 anos após entrada em estúdio que mudou a música do Brasil

Faz hoje 60 anos que, em 10 de julho de 1958, um então ainda desacreditado João Gilberto entrou no estúdio da gravadora Odeon, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), para gravar um disco de 78 rotações por minuto – como eram chamados os singlesna primeira fase da indústria fonográfica – que mudaria a música do Brasil com a gravação de duas composições, Chega de saudade e Bim bom.

A segunda era de autoria do próprio João, compositor eventual. A primeira era o samba de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) e Vinicius de Moraes (1913 – 1980) que tinha sido apresentado no LP lançado por Elizeth Cardoso (1920 – 1990) em abril daquele ano de 1958, Canção do amor demais, álbum também histórico por conter o primeiro registro da batida diferente do violão de João.

Mas Elizeth, carioca como Tom e como Vinicius, jamais foi cantora de bossa nova. Por isso, a revolução se fez mesmo em agosto de 1958, quando foi lançado o 78 RPM que João gravara em 10 de julho.

Decorridos 60 anos da gravação que apresentou outros caminhos para a música brasileira, João – o “baiano bossa nova”, assim apresentado por Jobim em 1959 no texto da contracapa do primeiro LP deste artista de atuais 87 anos, nascido em Juazeiro (BA) em 10 de junho de 1931 – ainda permanece sendo um mito. O mito.

Já fora de cena há alguns anos por questões pessoais que transcendem o universo da música, João Gilberto é a própria Bossa Nova no sentido estritamente musical do termo e do movimento, por mais que a Bossa Nova também possa ser, e é, um estado de espírito, um clima e um conjunto de canções de ritmo ensolarado, pautadas pela leveza e criadas por compositores importantes, como Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994), autores da mais adequada trilha sonora do movimento ao lado dos fundamentais Tom & Vinicius.

João foi o baiano que, entre tantos cariocas, renovou a música brasileira com uma batida que, em suma, soou diferente porque reproduzia e sintetizava no violão a cadência tão bonita do samba. Com a tal influência do jazz que, ao menos naquele alvorecer da bossa, em 1958, nem era tanta assim. E com a valorização, no violão, da marcação do tamborim na simulação da batucada do samba.

Parece simples, mas ninguém tinha feito isso até então. E, ao fazer tal proeza, João reabilitou o samba, que, após o apogeu dos anos 1930, vinha perdendo a hegemonia para o samba-canção, ritmo dominante nas décadas de 1940 e 1950.

Aliada a essa batida realmente diferente, João mostrou que era possível cantar com perfeita harmonia entre a voz e os instrumentos, sem valorizar demasiadamente o canto. Tal modernidade, é fato, já vinha sendo experimentada por cantores como Dick Farney (1921 – 1987) e Sylvia Telles (1935 – 1966) desde o fim dos anos 1940 e sobretudo ao longo dos anos 1950.

Mas – cabe enfatizar – a revolução se consolidou mesmo com a gravação que o metódico João fez em 10 de julho de 1958 sob a supervisão de um tenso Antonio Carlos Jobim, maestro que orquestrou a gravação do hoje sexagenário 78 RPM por pressentir a revolução que seria feita.

E, de fato, João Gilberto não somente mudou a música brasileira como fez músicos do mundo todo ouvirem com respeito, atenção e admiração a bossa que o Brasil exportou a partir de 1962.

Essa mudança não se fez de um dia para o outro e tampouco causou impacto em todos os segmentos. Tanto que a era dos festivais viu nascer uma MPB que recolocou a voz em primeiro plano. Mas o fato é que nada mais foi como antes. Já havia João Gilberto. E hoje, decorridos 60 anos da gravação que impactou nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil, ainda há João Gilberto. Porque sempre haverá João Gilberto, mesmo quando o mito já fora de cena

Mauro Ferreira

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