Carlos Lima
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Carlos Lima | Publicado em 23/03/2019 às 10:31:16

Vida no paraíso de Galápagos é ameaçada por plásticos

Vida no paraíso de Galápagos é ameaçada por plásticos Plástico ameaça vida no paraíso de Galápagos

Armados apenas com luvas, os guardas-florestais e voluntários combatem o monstro criado pelo ser humano: toneladas de plástico degradado que as correntes marinhas empurram para o estômago da fauna das ilhas Galápagos, o paraíso que inspirou a teoria da evolução.

A mil quilômetros do continente, é travada uma guerra desigual mas decisiva para a conservação de um ecossistema único no mundo. Algumas poucas mãos para recolher grandes quantidades de material sólido.

Os resíduos que são lançados nas grandes cidades chegam a Galápagos transformados em microplástico, talvez uma das maiores ameaças para as iguanas, tartarugas, aves e peixes que só existem no arquipélago.

O microplástico “chega a fazer parte de espécies (da cadeia alimentar) das quais possivelmente estaremos nos alimentando no futuro”, explica à AFP a bióloga Jennifer Suárez, especialista em ecossistemas marinhos do Parque Nacional Galápagos (PNG).

A radiação solar e a salinidade do mar degradam garrafas, sacolas, tampas, embalagens, redes de pesca. Ao entrar em contato com pedras ou pela força da água, este material se estilhaça em micropartículas que os animais ingerem.

A cada ano, suportando o sol intenso, grupos de expedicionários chegam em botes a praias e zonas rochosas para constatar o dano causado pela atividade humana. O lixo plástico se acumula em frente à costa e inclusive vaza entre as rachaduras da lava petrificada de Galápagos.

Brinquedos sexuais, tênis, isqueiros, canetas, escovas de dente, boias e latas também aparecem entre os resíduos, perto das zonas de descanso de animais, alguns em risco de extinção.

Em áreas desabitadas como Punta Albemarle, no extremo norte da ilha Isabela e aonde a AFP chegou junto com um grupo de limpeza, recolhem-se resíduos que foram lançados ao mar em outras partes do mundo.

“Mais de 90% dos resíduos que coletamos não provêm das atividades produtivas de Galápagos, mas da América do Sul, América Central e inclusive chega uma grande quantidade de resíduos com marcas asiáticas”, diz Jorge Carrión, diretor do PNG.

Habitado por cerca de 25.000 pessoas, o arquipélago equatoriano restringiu nos últimos anos o uso e entrada de plástico.

O lixo que chega de longe encalha no litoral por ação das correntes marinhas, que arrastam, sobretudo, garrafas plásticas de produtos peruanos, colombianos e panamenhos, de acordo com guardas-florestais.

A maioria de embalagens coletadas que estão em boas condições são de marcas chinesas.

Estes resíduos “provavelmente vêm das frotas pesqueiras provenientes da Ásia que estão em volta da zona econômica exclusiva de Galápagos”, afirma Carrión em Porto Ayora, capital da ilha Santa Cruz.

Desde 1996 pescadores limpam as ilhas mais afastadas, mas há três anos se faz um registro de resíduos.

“Isso serve para tentar identificar a origem do lixo que chega a costas onde não há população. Foi identificado nos outros dois anos de monitoramento que a maior quantidade de marcas são peruanas e chinesas”, explica Suárez.

Embora por enquanto não exista legislação, a ideia é que este censo gere no futuro eventuais compensações ambientais.

No primeiro trimestre de 2019, foram coletadas oito toneladas de lixo, contra 24,23 toneladas durante todo 2018 e 6,47 toneladas em 2017.

Os guardas-florestais também fazem um inventário mais dramático, o de animais que, como o cormorão, constroem ninhos com sacolas e fraldas descartáveis ou o de corpos de aves sepultados entre resíduos.

Com impotência e indignação, os expedicionários recolhem plásticos com mordidas de tartarugas marinhas, que confundem as sacolas com medusas, que são parte de sua alimentação.

“Indiscriminadamente jogamos tanto lixo no mar que este chegou a costas onde sequer existe gente mas já há lixo”, indica à AFP Sharlyn Zúñiga, que participou na recente limpeza costeira.

Em seu voluntariado, a estudante de 24 anos, que vive na província amazônica de Pastaza, encontrou praias desertas de areia muito fina e branca, mas afetadas pelo lixo.

“O que vi foi muito duro. Estamos acostumados a ver a parte mais bonita de Galápagos em fotos e cartões postais”, lamentou.

Apesar de que os resíduos continuam chegando com as ondas, guardas-florestais e voluntários defendem um trabalho que parece nunca acabar nas ilhas, declaradas Patrimônio Natural da Humanidade.

Grandes sacos cheios de plástico degradado são carregados em uma embarcação para ser transportados a Puerto Ayora, onde são armazenados para depois ser enviados ao Equador continental, para sua incineração.

“Estamos eliminando o lixo que se acumula nestes lugares, evitando que este lixo continue se degradando e que chegue a se transformar em microplástico”, aponta Suárez.

AFP

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