Carlos Lima
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Carlos Lima | Publicado em 14/01/2020 às 09:08:14

Barcelona tenta recuperar o DNA de Cruyff e Guardiola

Barcelona tenta recuperar o DNA de Cruyff e Guardiola Quique Setién, novo técnico do Barcelona — Foto: AFP

Aos 61 anos, quase duas décadas de carreira como treinador e apenas um título da Terceira Divisão no currículo, o espanhol Enrique “Quique” Setién Solar foi o escolhido para tentar resgatar a temporada do Barcelona após a demissão de Ernesto Valverde, que deixou o clube em primeiro lugar no Espanhol e classificado como líder do seu grupo na Champions League para enfrentar o Napoli nas oitavas de final. A apresentação de Setién como novo treinador do Barça será nesta terça-feira, às 10h30 (horário de Brasília).

Mesmo tendo conquistado os dois Campeonatos Espanhóis que disputou à frente do Barça (2017/18 e 2018/19), além de uma Copa do Rei e uma Supercopa da Espanha, Valverde acumulou pecados imperdoáveis no futebol ultracompetitivo da elite europeia: eliminações contundentes em confrontos de mata-mata, com viradas improváveis e, em alguns casos, humilhantes.

Sequência que começou com duas derrotas para o Real Madrid na Supercopa da Espanha de 2017. No ano seguinte, veio a eliminação nas quartas da Liga dos Campeões, com um 3 a 0 para a Roma no Estádio Olímpico, após uma vitória por 4 a 1 em casa. O filme sem final feliz se repetiu na semifinal do ano seguinte: vitória por 3 a 0 sobre o Liverpool em casa, e um incrível 4 a 0 para o time inglês em Anfield. Curiosamente, a derrota em teoria menos importante foi a gota d’água: o 3 a 2 para o Atlético de Madrid na semifinal da Supercopa da Espanha, na última quinta-feira, com o time da capital marcando dois gols a partir dos 35 minutos do segundo tempo. Valverde foi demitido quatro dias após a partida.

Valverde pagou também por uma certa incompatibilidade de estilos. Ex-treinador do Athletic Bilbao, ele vinha de uma escola bem distinta do barcelonismo, e a bem da verdade, jamais foi completamente aceito no clube catalão. Por isso, todos os substitutos buscados pela diretoria tinham o “DNA” do Barcelona: Xavi, ídolo recente, jogador com mais partidas disputadas pelo Barça, foi oficialmente convidado no fim de semana, mas preferiu permanecer no Al Sadd, do Catar; e Ronald Koeman, ex-zagueiro holandês, autor do gol do primeiro título europeu do Barça (1991/92), foi sondado mas, segundo a imprensa espanhola, preferiu continuar à frente da seleção da Holanda.

Mas, então, o que fez de Quique Setién o escolhido para recuperar o Barcelona, se ele nunca jogou no clube (Racing Santander e Atlético de Madrid são os principais times onde atuou) nem tem currículo pesado como treinador? Identificação de jogo. Basicamente. O que faz dele, ao mesmo tempo, uma escolha coerente, e uma aposta alta do Barça.

Natural de Santander, Setién iniciou a carreira de técnico em 2001 no Racing, também seu primeiro clube como jogador. Passou pelo totalmente desconhecido Poli Ejido, na Andalusia, e chegou a dirigir a seleção da Guiné Equatorial em apenas um jogo, em 2006. De volta à Espanha, trabalhou no Logroñés e, em 2009, chegou ao Lugo, da Terceira Divisão espanhola, conquistando a promoção para Segundona em 2012. No mesmo ano, Pep Guardiola deixava o Barça após levantar duas Champions, entre inúmeros outros títulos, e estabelecer novos conceitos de jogo na Europa.

Setién, entre tantos outros treinadores do Velho Continente, também bebeu dessa fonte. Trabalhou no Lugo até 2015, conseguindo manter o time na segundona espanhola com um jogo já inspirado no tiki-taka do Barça. Em duas temporadas no Las Palmas, seu primeiro clube na primeira divisão, tentou implantar o modelo de jogo, sem muito sucesso.

Mas em 2017, enquanto Valverde chegava ao Barcelona, Setién ganhava a primeira oportunidade real de mostrar seu trabalho na elite espanhola, assumindo o Bétis. Chance que ele aproveitou muito bem. Aplicando o melhor estilo guardiolista – obsessão pela posse de bola e jogo ofensivo -, levou o modesto time andaluz ao sexto lugar no Espanhol e a uma vaga na Liga Europa. Os olhos do país, enfim, se voltaram para Quique Setién.

Uma das façanhas do Bétis de Setién foi vencer o Barcelona – de Valverde – por 4 a 3 no Camp Nou, em novembro de 2018, última derrota do time catalão em seu estádio. Naquele dia, recebeu de presente do volante Sergio Busquets uma camisa 5 do Barça, com uma dedicatória emblemática: “Para Quique, com apreço e admiração por sua maneira de ver o futebol”.

Outro símbolo barcelonista, Xavi já havia dado seu aval para Quique Setién dirigir o clube ano passado, em uma entrevista à rádio Cadena SER:

“O Bétis do Setién não apenas tem resultados como também tenta fazer coisas novas. Desde Cruyff que este clube não entende outra forma de jogar futebol. E claro que ele (Setién) seria adaptável ao Barcelona”, declarou Xavi, à época.

Sim, porque antes de Guardiola, houve Johan Cruyff na história do Barcelona. E Setién não esconde sua admiração pelo craque holandês, técnico do “Dream Team”, o Barça campeão europeu de 1992. Time que Setién enfrentou como jogador do Logroñés e do Racing Santander.

– Tudo que sou como treinador devo ao tanto que corri atrás da bola quando enfrentava o Barça. Quem gosta de futebol gosta do Barcelona – disse o então treinador do Bétis em entrevista ao jornal “Mundo Deportivo” em 2017.

Uma vez, em Santander, disse a Johan Cruyff que teria dado meu dedo mindinho para jogar naquele Barça – completou.

O perfil oficial no Twitter que administra o legado e a memória esportiva de Cruyff, falecido em 2016, comemorou a chegada de Setién ao Barça: “O treinador mais “cruyffista” de 2018 agora se junta ao time do Cruyff. Boa sorte no Barcelona, Quique Setién”.

Seguindo a cadeia do DNA Barça, Guardiola também chamou a atenção de Setién:

– Copiei muita coisa do Barça desde que se instaurou essa forma de jogar. Esse estilo eu já sentia como jogador, já me chamava a atenção – afirmou ele, na mesma entrevista.

Desde que Guardiola deixou o Barcelona, em 2012, o clube teve quatro treinadores. Todos conquistaram, ao menos, um título. Nem todos conquistaram o coração da torcida. Tito Vilanova, ex-auxiliar de Guardiola, deixou um legado emocional: foi campeão espanhol em 2012/13, sua única temporada como técnico, antes de se afastar para tratar do câncer que o levou no ano seguinte. O argentino Gerardo Martino, rosarino como Messi, só ficou uma temporada, com apenas uma Supercopa da Espanha na conta.

Em três temporadas, Luis Enrique teve o melhor retrospecto pós-Guardiola: nove títulos, incluindo uma Champions, um Mundial de Clubes e dois Espanhóis. Valverde sai com quatro taças e, aparentemente, nenhuma saudade. Chega Quique Setién com duas missões. Conquistar títulos, claro. Se possível, devolvendo ao Barça seu DNA.

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