Carlos Lima
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Carlos Lima | Publicado em 13/02/2020 às 13:36:44

Como Brasil pode reequilibrar sua balança comercial com Rússia?

Como Brasil pode reequilibrar sua balança comercial com Rússia? Marcos Santos/USP Imagens/Fotos Públicas

O Brasil acumulou déficit atípico nas relações comerciais com a Rússia em 2019. A Sputnik Brasil conversou com diretor da APEX para saber quais são os instrumentos que Brasília tem para reequilibrar seu comércio com Moscou.

Os números da balança comercial do Brasil com a Rússia de 2019 preocupam os exportadores brasileiros. O Brasil exportou US$ 1,618 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões) e importou US$ 3,680 bilhões (cerca de R$ 15 bilhões), acumulando um déficit de mais de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 8 bilhões), de acordo com os dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX).

O escritório da Associação Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX) em Moscou é o primeiro interessado em reverter esse quadro e retomar o equilíbrio da balança comercial entre Rússia e Brasil.

“Os números da balança comercial entre Brasil e Rússia mostram um déficit bastante atípico e crescente já pelo segundo ano consecutivo”, afirmou o diretor da APEX Brasil em Moscou, Almir Ribeiro Américo, para a Sputnik Brasil.

O mal desempenho brasileiro pode ter sido causado pela queda na exportação de alguns produtos tradicionais da pauta exportadora, como o açúcar e a carne bovina, explicou Américo durante a feira de alimentos Prodexpo, em Moscou.

“A Rússia está menos dependente do açúcar, porque o setor produtor agropecuário russo tem tido um sucesso admirável nos últimos anos. Eles ganharam mais autonomia na produção de açúcar, que era um dos líderes da pauta comercial, e estão menos dependentes do Brasil”, contou à Sputnik Brasil.

A carne bovina brasileira, que já chegou a ser a líder no mercado russo, desde 2017 enfrenta restrições para entrar no mercado.

Almir Américo, diretor do escritório da APEX em Moscou, no estande do Brasil na feira de alimentos Prodexpo, em 13 de fevereiro de 2020

© SPUTNIK / ANA LIVIA ESTEVES Almir Américo, diretor do escritório da APEX em Moscou, no estande do Brasil na feira de alimentos Prodexpo, em 13 de fevereiro de 2020

“Mas, a despeito das pendências sanitárias, que impedem a carne brasileira de ser exportada para Rússia, a gente sabe que não voltaremos mais àquela situação na qual a Rússia era o grande mercado”, alertou Américo.

Nesse contexto, o objetivo central da APEX Brasil é diversificar a pauta de exportações brasileiras para a Rússia.

“A conjuntura atual é um chamado urgente para a diversificação. Além dos setores representados nesta feira de alimentos, estamos trabalhando com a promoção do setor de cosméticos, de autopeças e de ingredientes”, revelou.

No estande do Brasil na Prodexpo é visível o esforço por diversificação. Se antes o estande era dominado pela carne bovina, hoje estão representados setores novos, como o das castanhas, açaí, cacau e água de coco.

“O setor de amendoim é um caso de sucesso. Mas nada acontece espontaneamente, nós estamos apoiando o setor há anos com inteligência de mercado. Fizemos três missões no Brasil para o setor, e grande parte dos importadores russos visitaram o nosso país a convite da APEX”, relatou Américo.

“Hoje o Brasil exporta pra Rússia 60% de todo o amendoim que o mercado russo demanda, e a Rússia também virou o maior cliente do amendoim brasileiro”, comemorou. “E esse é só um exemplo do nosso esforço por diversificação, para tirar a dependência dos produtos tradicionais, que são açúcar, o café, o tabaco, a carne e a soja.”

O dólar alto

Além dos esforços de diversificação da pauta comercial, o dólar alto pode ajudar o Brasil a equilibrar a balança comercial com a Rússia.

“Eu vejo [o dólar alto] como uma oportunidade. Ele não é o único fator, mas nós podemos ver que alguns produtos brasileiros que no passado tiveram dificuldades para entrar no mercado russo porque estavam caros, agora estão com maior possibilidade de dar resultados”, acredita.

Américo explica que tanto o Brasil quanto a Rússia são países sujeitos à instabilidade cambial, “porque são países cuja economia depende da exportação de commodities”.

“Sempre vai haver um fator cambial que pode aquecer ou esfriar os negócios entre o Brasil e a Rússia. Então temos que aproveitar as zonas favoráveis”, declarou.

Ano frenético

Outro fator que pode auxiliar o Brasil nessa corrida para retomar as exportações para a Rússia é a parceira no âmbito do BRICS. Em 2020, a Rússia ocupa a presidência pró-tempore do bloco e já anunciou agenda de reuniões intensa.

“A última vez que a Rússia ocupou a presidência rotatória do BRICS, a agenda foi frenética. Todo mundo sabe que a Rússia leva muito a sério essas oportunidades de realizar ações nos fóruns que ela participa”, contou.

Em 2020, ministros das mais diversas pastas irão se reunir em encontros de alto nível, que muitas vezes são acompanhados por fóruns empresariais.

“Nós vamos usar as oportunidades geradas pela agenda do BRICS, de encontro face a face de autoridades, para agregar os temas de comércio”, disse.

Representante de empresa encontra clientes em potencial na feira de alimentos Prodexpo, em Moscou, na Rússia, em 12 de fevereiro de 2020

© FOTO / ANA LIVIA ESTEVES Representante de empresa encontra clientes em potencial na feira de alimentos Prodexpo, em Moscou, na Rússia, em 12 de fevereiro de 2020

Ele ainda lembra que a Rússia está “consolidando um novo governo, com um novo primeiro-ministro e novos ministros, que estão se empoderando dos assuntos da agenda bilateral”.

Além do BRICS, eventos internacionais serão celebrados em Moscou neste ano, com destaque para as comemorações dos 75 anos da vitória na Segunda Guerra Mundial, em 9 de maio.

Parceiros russos

Um outro instrumento que o Brasil deve utilizar para harmonizar as relações comerciais é a parceria sólida que tem com a comunidade empresarial da Rússia.

Grandes empresários russos que exportam para o Brasil têm consciência da necessidade de manter o equilíbrio nas relações comerciais, a fim de manter uma parceria de longo prazo, explicou Américo.

“Nós tivemos a oportunidade de conversar com o Conselho Empresarial Rússia-Brasil que é liderado pelo empresário Andrei Guryev, que é um dos maiores exportadores russos para o Brasil”, contou.

Guryev é presidente da Associação dos produtores de fertilizantes da Rússia e da empresa PhosAgro, um dos quatro maiores produtores de fertilizantes à base de fosfato do mundo e empresa líder em exportações para o Brasil.

“Como empresário interessado na harmonia das relações bilaterais, ele pode fazer gestões para que o equilíbrio do comércio seja reestabelecido”, contou Américo.

Indutor de oportunidades

Mesmo com todos esses instrumentos à disposição do empresariado brasileiro para acelerar as exportações para a Rússia, o trabalho de indução de escritórios governamentais como o da APEX pode ser determinante.
Américo conta que a Rússia, “apesar de ser um mercado pujante e dinâmico”, não é um “mercado natural para a maioria das empresas brasileiras”.

“O nosso trabalho na Rússia tem uma característica indutiva. Apesar de a Rússia e o Brasil serem grandes economias e a relação entre os dois países ser sempre positiva […] as relações empresariais não se desenvolvem naturalmente, então o papel da APEX Brasil é cumprir esse papel indutor”, relata.

“A gente deve induzir [as trocas comerciais], provocar, investir tempo e recursos. Esse é o nosso trabalho: somos indutores das oportunidades”, concluiu.

Logo da APEX, do Itamaraty e do governo federal, exposto no estande do Brasil na feira de alimentos Prodexpo, em 13 de fevereiro de 2020

© SPUTNIK / ANA LIVIA ESTEVES Logo da APEX, do Itamaraty e do governo federal, exposto no estande do Brasil na feira de alimentos Prodexpo, em 13 de fevereiro de 2020

Representantes do setor de exportações brasileiro estão reunidos na feira de alimentos Prodexpo, realizada em Moscou, na Rússia, entre os dias 10 e 14 de fevereiro. A APEX organiza anualmente o estande do Brasil, que nesse ano reúne 15 empresas exportadoras.

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