Carlos Lima
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Saúde
Carlos Lima | Publicado em 25/01/2020 às 09:42:22

Doenças em banheiros sem gênero: mito ou verdade?

Doenças em banheiros sem gênero: mito ou verdade?

Recentemente veio à tona o caso da mulher trans Lanna Hellen, que foi impedida de utilizar o banheiro que condizia com sua identidade de gênero (feminina) em um shopping na cidade de Maceió.

Lanna recebeu todo o apoio da comunidade LGBT+ e de muitas pessoas heterossexuais e cisgêneras, fez barulho e lutou por seus direitos, mas o que aconteceu a ela está longe de ser um fato isolado na vida de pessoas trans e travestis e suscita discussões mais profundas.

No início do mês de janeiro, Paula (nome fictício), também mulher trans, ainda não submetida à cirurgia de redesignação (ainda com pênis), me procurou para uma consulta com queixa de infecção urinária de repetição.

Na consulta, me contou que não se sentia à vontade para ir a um urologista – especialidade médica que cuida do aparelho urinário de ambos os sexos, mas culturalmente mais procurado pelos homens – porque em geral não é bem recebida por esses profissionais e que gostaria de conversar com uma ginecologista para “se armar” de alguns argumentos.

Ela me contou que vem há meses com infecção urinária porque não pode usar o banheiro feminino no seu local de trabalho. Dessa forma, bebe pouquíssima água e evita alimentos diuréticos para que não sinta necessidade de urinar.

A urina concentrada e retida na bexiga leva à infecções do trato urinário que podem complicar e levar a quadros graves de infecção generalizada.

A alegação das colegas de Paula é a mais comum diante deste assunto: não querer que um “homem” use o mesmo banheiro que elas para não pegar doenças, principalmente as sexualmente transmissíveis. Mas será que esse é realmente o motivo?

Quando o assunto é banheiro compartilhado, nossa história é recheada de momentos que deixam claro que esse é mais um lugar de segregação social e racial.

Desde as vergonhosas histórias norte-americana e sul-africana de locais separados para negros até os tão comuns “banheiros de empregados”, os motivos para a separação dos espaços são sempre vagos e disfarçados de medidas sanitárias.

Mulheres crescem acreditando cegamente que precisam realizar malabarismos no banheiro para evitar IST, mas é possível realmente adquirir tricomoníase, herpes, HPV e sífilis em banheiros compartilhados?

Quando procuramos na literatura médica, os dados são muito escassos sobre essa via de transmissão de IST.

Sabemos sim que banheiros são locais infectados por milhares de bactérias fecais, urinárias etc, mas que a limpeza básica, principalmente a das mãos, já é suficiente para evitar boa parte desse contágio.

Não há nenhum dado científico que comprove que homens e mulheres usando corretamente o mesmo vaso sanitário aumenta ou diminui essa população bacteriana.

Ou seja, não é a presença do pênis, seja de um homem cis ou mulher trans, que vai aumentar o risco de contágio de infecções sexualmente transmissíveis.

Lembrando que o contágio da maioria delas envolve o contato direto entre mucosas e com secreções, o que não ocorre num vaso seco (sem sangue ou secreções no vaso) no espaço de segundos.

Com base nesses dados, vemos que o argumento do contágio por ISTs é só mais um dos inúmeros criados pelo patriarcado para esconder adultérios (se mulheres pegam doenças em banheiros, logo o marido não pode ser culpabilizado pela transmissão) ou segregar socialmente pessoas mais pobres, negras e gays.

Uma outra alegação comum quando se fala sobre mulheres trans em banheiros femininos é que isso aumentaria o risco de um assédio sexual ou estupro para as mulheres e meninas cisgêneras.

Segundo dados recentes do Ipea sobre estupros no Brasil, mais de 60% dos casos são cometidos por homens heterossexuais dentro da casa da vítima e entre os principais agressores estão pai ou padrasto (no caso de crianças e adolescentes) e cônjuge ou ex-cônjuge (no caso de mulheres adultas). Estupros em banheiros ou outros ambientes coletivos correspondem a menos de 3% dos casos.

Quando procuramos em bases de pesquisa sobre “estupro x travestis e transexuais”, encontramos sim inúmeros casos em que essas pessoas são vítimas e não agentes da violência sexual.

Precisamos entender que o acesso às necessidades básicas é um direito de todos e que a divisão de um banheiro com pessoas gays, transexuais e travestis não aumenta riscos à saúde e à segurança da população cisgênera feminina.

No tocante aos homens trans, muitos afirmam que precisam ir acompanhados a banheiros masculinos por medo, esse sim um medo real, de violência física e sexual, e passar por situações constrangedoras ao evitar o mictório e escolher o espaço reservado, nem sempre disponível.

A indústria já lançou um objeto capaz de permitir que uma pessoa com genitália feminina urine em pé, mas além da exposição que isso causaria num local público, este método é muito pouco divulgado e quando vemos propagandas elas estão mais uma vez voltadas às mulheres cis para que elas “evitem doenças”.

A separação de banheiros por gênero e a consequente negação do acesso aos mesmos é prejudicial apenas ao indivíduo que sofre o preconceito, porque sim, este é o real motivo de trans e travestis não poderem circular em banheiros que correspondem com a sua identidade.

Países como a França, Dinamarca e até alguns estabelecimentos em São Paulo dispõem de banheiros sem definição de gênero na porta, reservados ou até mesmo banheiros mistos e acredite, funciona superbem.

Casos como o da Lanna e o da Paula, minha paciente, ilustram apenas como a desinformação e o medo oriundos do preconceito podem ser prejudiciais à saúde física e mental de um ser humano.

Discussões como está só demonstram o quanto somos atrasados e como precisamos maquiar nossos preconceitos, revesti-los de alegações sem fundamento para segregar o que julgamos diferente e inferior.

Karina Cidrim

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