UM TORTURADOR SE CHAMAVA JESUS CRISTO

Trecho do depoimento de Emiliano José na Comissão da Verdade na Bahia. – Num instante estou novamente num camburão, entro algemado num avião militar e lá estão Sérgio Fleury e Jesus Cristo, era esse o nome de Dirceu Cravina, um torturador cruel da OBAN.

Fiquei alguns dias em São Paulo e retornei à Galeria F. Tenho escrito sobre esse tempo. Deixo aqui para a Comissão da Verdade a coleção.

A Galeria F foi uma experiência rica. O Olderico Barreto chegava a dizer que foi a época mais feliz da vida dele, ali ele estudou inglês, leu muito, debateu política.

No final de 1972 aconteceu uma rebelião de presos comuns, as grades caiam como se fossem de papel, mas eles vieram e perguntaram se deveriam quebrar também a Galeria F. Dissemos que não e eles obedeceram. Estabelecemos uma relação de respeito.

Tínhamos um coletivo organizado com artesanato, dois times de futebol, regras de disciplina. Cheguei afazer greve de fome, por causa de uma otite muito forte. O diretor Edmundo Tosta me levou para a enfermaria onde as condições eram ainda piores.

Passei ali onze dias, só bebendo água. A infecção acabou cedendo. No final de 1974 sai em liberdade condicional, em 1979 fui anistiado.

Jackson Azevedo, o advogado condutor da entrevista de Emiliano José à Comissão da Verdade pergunta como se deu a aproximação do jovem Emiliano com a política, com a Ação Popular. Também pergunta se era verdade que o capitão Gildo Ribeiro chegou a pedir perdão anos depois.

E se a imagem de Luiz Artur como pessoa que não compactuava com a tortura não era uma contradição.

Emiliano José responde. Minha estrada de Damasco foi um pequeno círculo em Jaçanã, São Paulo, na casa de Pedro Oliveira e Ada Oliveira. Foi quando me aproximei da esquerda. Líamos a História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman.

A partir daí as coisas aconteceram em alta velocidade. Quando jogamos pedra no governador Abreu Sodré, eu já era da AP. Sim, é verdade que o torturador Gildo Ribeiro foi um dia à prisão para me pedir perdão. Não o recebi, mas, no dia de visita ele apareceu: “Você foi responsável pela minha conversão ao cristianismo”.

Eu disse a ele que nunca o perdoaria e que estava ali por uma razão política, se as coisas mudassem nunca torturaria ninguém.

Depois que saí da prisão ele tentou se encontrar comigo. Depois da morte dele, o filho me procurou e pediu perdão em nome dele.

Os torturadores eram comandados por generais do exército. Adyr Fiúza foi um cruel torturador. Consciente. Quanto à Igreja Católica está mais do que provado que ela apoiou o golpe militar, inclusive a CNBB oficialmente.

Com o tempo foi percebendo que a ditadura se voltava também contra a Igreja. Então aos poucos a CNBB foi passando a fazer oposição de maneira firme.

O ex-preso político Emiliano José terminou seu depoimento e em seguida o diretor da Tribuna da Bahia, Walter Pinheiro, presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI) conduziu o depoimento do ex-líder petroleiro Marival caldas.
Wilton Valença, também ex-líder petroleiro e ex-deputado estadual não compareceu por motivo de doença.  

Fonte: Emiliano José/Comissão da Verdade

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