O Chamado a escolha, por Flávio Lima

É preciso comentar?

A cena em que uma mãe policial saca um revólver para responder a uma tentativa de assalto em frente a escola onde a filha estuda é assustadora.

Todos os dias, e mais insistentemente em época de eleições, ouvimos intermináveis monólogos de políticos que falam sobre o combate a violência, a pobreza e a corrupção, mas ano após ano, os problemas persistem. Algo está errado.

Lembro da mensagem evangélica “pegadas na areia”, onde nos momentos mais atribulados o peregrino olha para trás e vê apenas um par de passos e acusa Jesus de tê-lo abandonado.

Fazendo um paralelo com essa cena, pensemos em um grupo de pessoas andando pela areia da praia, alguns mais a frente a passos largos, são os políticos, e outros atrás mais lentos, o povo.

Diferente de Jesus que carrega o peregrino nos braços em momentos de desespero, a turma que vai à frente raramente estende a mão aqueles que ficaram para trás.

E por que é assim?

As leis são escritas para ordenar a vida, tornar a convivência harmônica possível, proteger o patrimônio e punir os criminosos, mas, essas leis não tem melhorado a vida do cidadão comum, tendem a cercear sua liberdade e favorecer os mais abastados em detrimento da maioria.

Os legisladores brasileiros esquecem que para conquistar o apoio da população é necessário não só empatia, mas engajamento real na melhoria das condições de vida de todos e não apenas de si mesmo, seus pares ou patrocinadores.

Essa verdade tem sido ignorada ou manipulada estrategicamente para manter o povo controlado e submisso, porém com cada vez menor efetividade em virtude da grande quantidade de pessoas insatisfeitas com o quadro geral, econômico, político e ético no nosso país.

Além de tudo, a “modernidade” produziu vários instrumentos que tornam nossa vida mais rica em experiências e sensações, mas que, ao mesmo tempo, trazem à tona mazelas que antes ficavam encobertas sob o véu do anonimato ou restritas a um pequeno grupo local.

A velocidade e o alcance da divulgação de informações, para o bem e para o mal, tem dificultado enormemente o exercício da tolerância.

E é a intolerância generalizada o motivo para tantos conflitos entre as pessoas. Qual o resultado possível desse estado geral de insatisfação?

A resposta pode ser um estado policial ou um partido da polícia como já ouvi alguns comentaristas se referirem. Mas até que ponto isso é ruim?

Dificultar as manobras ilegais que resultam na pilhagem do erário é algo que a população aplaude e certamente um regime mais duro com leis mais efetivas inibiria a ação de pessoas malintencionadas.

O problema é que, pessoas mal-intencionadas existem inclusive no partido da polícia. Não há mais tolerância para a falta de segurança nas ruas, no trabalho, em nossas próprias casas, e nas escolas onde nossos filhos e filhas estudam e, sem dúvida, para a retórica vazia e hipócrita dos políticos, desconstruída pelas cenas de violência disseminadas em todos os estados da federação brasileira.

Nesse cenário a esperança também é um recurso escasso. É verdade que os políticos têm conseguido manter através dos anos, independentemente da conduta e atuação na vida pública, o poder econômico e longas fileiras de apoiadores em sua folha de pagamentos, desde assessores de gabinete, funcionários de suas fazendas e empresas, sem esquecer dos eleitores beneficiados por meio de indicações, contribuições financeiras ou outro tipo de benesse imediata, ou seja, renovação no congresso, nas assembleias estaduais, câmaras de vereadores e no poder executivo pode ser um tipo de sonho distante.

A mão do político está estendida para alguns, de um modo geral sempre com muita parcimônia, mas exige a contrapartida do voto que o manterá no cargo eletivo.

A oportunidade para mudança através das eleições não deve ser desperdiçada, apesar da dificuldade em separar o joio do trigo. Encontrar pessoas dispostas ao serviço público em cargo eletivo, é uma tarefa indigesta pois envolve esquadrinhar a vida dos candidatos em busca de qualidades e defeitos que corroborem ou desabonem sua candidatura e permitam uma escolha sábia por parte dos eleitores.

Mesmo assim o eleitor não deve fugir de sua responsabilidade, a tarefa está facilitada enormemente pelo advento das redes sociais e pelas diversas fontes de informação existentes, tanto nacionais como internacionais, apesar de eventualmente causar enjoos. O trabalho dos que são eleitos deveria ser norteado pela honestidade e pela compaixão.

As leis deveriam proporcionar os meios para formar e abrigar os cidadãos em um círculo de proteção e cuidados, mas não é aí que está o foco.

O foco está no mercado, que, no entanto, é apenas uma classificação, um rótulo para identificar parte das relações humanas baseadas na troca de mercadorias, serviços, moedas…, por trás desse rótulo “mercado” estão as pessoas que o controlam e definem.

São elas que precisam ser alertadas para a necessidade de impor justiça em suas relações, para além do acúmulo de capital e patrimônio. O mercado é importante e pode se autorregular, desde que as injustiças sociais estejam, senão resolvidas, amparadas por instrumentos consolidados e eficazes de resolução.

O estado precisará intervir para evitar monopólios, oligopólios, cartéis e todos os tipos de controle exagerado pela iniciativa privada, da produção e comercialização de bens e serviços que não priorizem a melhoria de vida da população brasileira. Os dias em que estamos vivendo nos impõem um chamamento cívico.

Vamos ter mais atenção as propostas dos candidatos, suas respostas aos clamores dos diversos estratos sociais brasileiros e a temas básicos como educação, saúde, segurança e serviço social, principalmente para a melhoria dos salários e condições de trabalho dos profissionais que atuam nessas áreas, também aos altos salários e benefícios pagos aos políticos e a cúpula do judiciário.

Ao controle e fiscalização na aplicação dos recursos públicos, a quantidade de senadores, deputados federais, estaduais, vereadores e seus séquitos de assessores que oneram mais do que produzem benefícios para a sociedade, as verbas de gabinete, as passagens aéreas, os “vale combustíveis”, entre outros “penduricalhos” próprios da autoindulgência dos políticos, etc.

Finalmente sugerir soluções, como redução e congelamento geral dos salários dos políticos e da alta cúpula dos poderes judiciário e executivo enquanto durar a crise, afinal, todos precisam contribuir, não apenas quem ganha salário-mínimo.

Eliminação ou redução drástica das verbas de gabinete, redução da quantidade de senadores, deputados e vereadores, eliminação dos cargos de confiança em todos os poderes da república.

Submeter todos os políticos a marcação de ponto com contagem de horas a serviço assim como todos os trabalhadores são submetidos, inclusive as penalidades por ausências não justificadas.

A reforma da previdência pode prever redução do valor de aposentadorias maiores que o teto estabelecido para o cidadão comum, etc. Basta de retórica vazia, é o momento de agir, vamos nos informar, vamos propor e vamos votar.

Flávio Lima

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