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‘O mundo precisa do Brasil no debate ambiental’

Destruição da floresta amazônica

Como oficial das Nações Unidas, Achim Steiner se abstém de comentar o cenário político interno de países. Sobre o Brasil, no entanto, sua terra natal, ele diz que não há como negar que o afrouxamento da política ambiental nos últimos anos levou a um aumento do desmatamento e, consequentemente, das emissões de gases de efeito estufa.

Sem mencionar o nome de Jair Bolsonaro, ele diz lamentar a falta de engajamento do país, reconhecido internacionalmente por posições pioneiras no passado, na discussão global para enfrentar a crise ambiental.

Steiner dirigiu o Programa das Nações Unidas de Meio Ambiente (Pnuma), que nasceu depois da Conferência de Estocolmo de 1972, e comanda desde 2017 o Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento (Pnud).

Em entrevista para a DW durante a Conferência Estocolmo+50, ele disse acreditar que, como legado, a reedição do encontro de 2022 trará mais cooperação entre os países.

“Logo, oito bilhões de pessoas neste planeta terão que trabalhar juntos para mudar a maneira como conectam economia e ecologia”, afirma.

DW: Na sua avaliação, quais mudanças podem ser aguardadas depois da Conferência Estocolmo+50?

Achim Steiner: Como a conferência não tem o caráter de ter um resultado que é fruto de um processo de negociação, aqueles que esperavam que Estocolmo+50 começaria algo novo podem demorar para ver o impacto.

A verdade é que o mundo voltou a Estocolmo para, de um lado, refletir sobre o que aconteceu há 50 anos e, de outro, ver o que funcionou e o que não funcionou tão bem.

No meio da nossa grande preocupação com a gravidade da crise ambiental na atualidade, nós nos esquecemos o quanto nós conseguimos construir sobre o trabalho daqueles que foram visionários há 50 anos.

A conferência de 1972 na verdade deu origem ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Mais tarde, também deu condições para a assinatura do Protocolo de Viena que deu instrumentos para o mundo, pela primeira vez, se unir para reparar o buraco na camada de ozônio.

Nós tínhamos um buraco na camada de ozônio! Imagine o que era lidar com essa notícia lá atrás!

Mas a ONU, por ter uma plataforma na área ambiental, foi capaz de reunir governos, setor privado, ciência e hoje podemos dizer que fomos bem-sucedidos nesse acordo ambiental.

A conferência de 1972 aconteceu quando países europeus começavam a entrar em conflito uns com os outros por causa da poluição do ar, da chuva ácida, que não respeitam fronteiras e matavam florestas em outros países.

Muito aconteceu desde então, nós temos 500 acordos multilaterais. Entender que muito foi feito é parte de compreender por que também não foi o suficiente.

Para quem está no Brasil, é interessante talvez refletir sobre o contexto mundial diferente que vivemos.

Em 1972, a conferência foi percebida como uma reunião de países industrializados na qual os países em desenvolvimento chegaram e disseram que tinham problemas muito diferentes.

Aqui estamos, em 2022, e enfrentamos uma ameaça existencial hoje.

Vivemos na era do Antropoceno, na qual humanos ficaram tão dominantes que eles estão mudando o sistema fundamental de suporte da vida no planeta.

Atmosfera, biosfera, oceanos. Logo, oito bilhões de pessoas neste planeta terão que trabalhar juntos para mudar a maneira como conectam economia e ecologia.

Estocolmo, em 2022, foi um momento para reforçar que precisamos ficar ainda melhores para enfrentar esses problemas.

Temos mais 50 anos para melhorarmos a maneira de lidar com essa ameaça existencial?

Não temos tempo. Em alguns casos, o tempo está esgotado. Existem espécies que foram extintas, há rios que estão secos, pessoas morreram por causa da poluição do ar.

A Organização Mundial da Saúde estima que, a cada ano, sete milhões de pessoas morrem prematuramente por causa da poluição. Para esses, estamos muito atrasados.

Poluição é resultado da complacência da humanidade, porque podemos lidar com poluição, mas escolhemos não fazer nada porque é muito caro.

Como dizer isso para alguém que mora às margens de uma rodovia e que tem um filho que tem dificuldades em aprender?

A queima de gasolina com chumbo afetou milhares e milhares de crianças!

Levamos décadas para acabarmos com o uso do chumbo na gasolina. É algo que se pode fazer perfeitamente, mas por razões que podemos imaginar isso não aconteceu mais rápido.

Não temos mais tempo, mas temos que ser mais estratégicos na maneira como iremos avançar. Não precisamos de novos planos.

Temos a ciência. Temos também as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC, em inglês) que estipulam cortes de emissões de gases estufa, temos estratégias na área de biodiversidade.

Os países agora precisam integrar esses compromissos na economia e no processo de decisão política.

E, nós, como comunidade internacional, temos que trabalhar juntos, apoiar-nos e pedir mais investimentos nessa transição. Precisamos de mais implementação, de mais ação, mais cooperação.

Os mais afetadas por esses problemas, como as que o senhor citou que moram às margens de rodovias, não conseguem estar aqui para pedir mais rapidez. Principalmente em Estocolmo, que tem um custo altíssimo. Como as conferências da ONU podem construir essas pontes entre comunidade internacional e governos em prol dos mais atingidos pelos problemas ambientais?

Qualquer conferência global será sempre muito longe da maioria das pessoas.

Essa é a natureza do encontro, por isso escolhemos representantes, sejam do governo, da sociedade civil. Essa é a natureza de tentar trazer o mundo para discutir o tema em volta de uma mesa de vez em quando.

Nesse caso, a Suécia e o Pnuma convidaram o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para organizar em 60 países consultas nacionais.

Tivemos centenas desses encontros no mundo, em que cidadãos da sociedade civil, políticos, pesquisadores, pessoas do mundo privado discutiram a agenda ambiental de seus países e o que eles gostariam de ver discutido em Estocolmo.

Participaram 46 mil pessoas. Essa é uma ponte que pode ser construída.

Mas, ainda assim, no fim uma reunião global pode ser, parecer abstrata. É preciso voltar para os países, onde estão as pessoas, em lugares reais e tomar decisões de verdade.

Falando em política, o Brasil sempre teve um peso considerável em conferências sobre meio ambiente. Essa liderança agora tem sido questionada. Como o senhor vê o papel do Brasil?

Como você sabe, um oficial da ONU nunca comenta a política nacional.

Não é nosso papel julgar a agenda nacional dos países. Mas o Brasil, só por ser o Brasil, é relevante para o que acontece no mundo. Seja por causa da Amazônia, da sua agricultura, ou da sua infraestrutura de produção de energia e pelo fato de que o país ainda tem uma das menores emissões de CO2 nesse setor.

Essas coisas definem a relevância do Brasil para o mundo e para a agenda de sustentabilidade ambiental.

Mas é verdade também que, em anos recentes, o governo Brasil tem, por própria articulação política, regredido na legislação ambiental, perdeu o engajamento em como enfrentar as mudanças climáticas em nível global, o mesmo para a perda da biodiversidade.

Tudo isso claramente teve um impacto nos níveis de desmatamento, consequentemente, nas emissões de CO2 que são fruto do corte da floresta.

Tudo isso, de certo modo, é produto de um governo que foi eleito com uma agenda que dizia que meio ambiente não era importante, que não acreditavam que a legislação ambiental era para o benefício da maioria.

São os cidadãos brasileiros que têm que julgar se o Brasil da atualidade está mais rico, melhor, mais saudável, ou mais pobre…

Também tenho que dizer que o Brasil submeteu em 2021 uma NDC revisada e adiantou em dez anos a meta zerar as emissões líquidas.

Mesmo um governo que tem claramente sido cético, a ameaça das mudanças climáticas é compreendida como muito real. A economia do Brasil é tão dependente do sucesso de o mundo conseguir lidar com o aquecimento global.

Se você considerar apenas a Amazônia, que eu sempre digo que se trata da maior bomba de água do mundo, não só o Brasil como toda a América do Sul depende dela para sua sobrevivência hidrológica.

Além dos incêndios na Amazônia, os eventos extremos de chuvas que vitimaram tantas pessoas recentemente no Brasil, normalmente os mais pobres, ilustram como é necessário pensar em meio ambiente, sustentabilidade na agenda de desenvolvimento.

O mundo precisa do Brasil. Ele é muito grande, muito significativo, tem sido normalmente um pioneiro na maneira de pensar o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável.

SNesse sentido, eu espero que o Brasil consiga achar sua voz porque, sem o Brasil, somos todos mais pobres.

NÁDIA PONTES

Deutsche Welle Deutsche Welle

Bonn (Alemanha)

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