Recrutada na escola, favorita do dono das Casas Bahia morreu aos 22 anos

Saul Klein, herdeiro das Casas Bahia

Sabrina* (nome fictício) tinha 17 anos quando, em julho de 2015, foi contatada pelas redes sociais por uma agência chamada Íris Monteiro Eventos.

A proposta não era do emprego dos sonhos, mas sim para passar um sábado entregando panfletos para uma marca de biquínis chamada Hype nas imediações do shopping Tamboré, em Barueri (SP). A empresa, porém, parecia grande, e o serviço poderia ser uma porta de entrada para a desejada carreira de modelo. Considerada bonita por todos que a conheciam, Sabrina tinha o biotipo das passarelas.

No dia seguinte à panfletagem que havia feito, Sabrina relatou ter sido contatada por Dani e Iris, “agenciadoras” do suposto esquema de exploração sexual do empresário Saul Klein, 67, com uma outra proposta: um serviço especial, com remuneração bem maior, e que envolveria o “dono da loja” de biquínis.

Como Sabrina relutava em aceitar a proposta, contou que teria recebido visitas de Íris no colégio onde estudava, insistindo para que ela topasse, ao menos, participar da entrevista.

E então aceitou passar por uma entrevista com o “dono da loja” — que seria, na verdade, Saul Klein, filho mais novo do fundador das Casas Bahia, Samuel Klein.

Na avaliação, teria sido informada que, se não mantivesse relação sexual com ele, não receberia o pagamento prometido pelo teste. Começaria então uma história envolvendo abusos, traumas e problemas psiquiátricos graves. Cinco anos depois, em 2020, Sabrina tirou a própria vida.

Universa teve acesso a uma carta escrita por Sabrina em 2017, endereçada a Saul Klein, onde ela narra com detalhes uma série de episódios traumáticos que teria vivido durante o convívio com o empresário. A reportagem ouviu, sob condição de anonimato, mulheres que teriam convivido com Sabrina dentro das casas de Klein, além de outras pessoas de seu círculo pessoal.

Klein está sendo investigado pela polícia, por crimes sexuais. As denúncias foram feitas ao MP-SP (Ministério Público de São Paulo), em conjunto, por 32 mulheres: todas acusam o empresário de estupro e afirmam que ele manteria uma rede de aliciamento e exploração sexual —cinco delas alegam que eram menores de idade, como Sabrina, na época em que os abusos teriam sido cometidos.

A reportagem revelou com exclusividade detalhes das acusações contra Klein a partir da íntegra de depoimentos prestados ao MP, de trechos e decisões do inquérito policial e de processos movidos anteriormente contra o empresário na Justiça.

Além disso, foram entrevistadas duas vítimas e seus familiares, entre outras pessoas, para as reportagens “Caso Saul Klein: em relatos inéditos, 9 das 32 mulheres que acusam empresário de estupro descrevem rotina de abusos” e “Anorexia e depressão: vítimas que acusam Klein relatam danos psicológicos”.

A reportagem também obteve três contratos nos quais Klein se compromete a pagar até R$ 800 mil pelo silêncio de três garotas. Dois deles foram confirmados por ele perante a Justiça; no terceiro, ele alegou que sua assinatura havia sido falsificada e obteve vitória em primeira instância.

No dia 15 de abril, uma reportagem da Agência Pública revelou outro escândalo sexual envolvendo a família Klein com os mesmos tipos de acordos de confidencialidade assinados com supostas vítimas.

O pai de Saul e fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, morto em 2014, é acusado de ter mantido um suposto esquema de exploração sexual envolvendo menores de idade durante décadas.

Em 2020, Saul Klein foi candidato a vice-prefeito de São Caetano do Sul (SP) pelo PSD e declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 61,6 milhões.

Antes de tirar a vida, jovem queria denunciar o empresário.
Quando Sabrina aceitou a “entrevista de emprego” oferecida pela suposta agenciadora Andrea, a Puca, teria sido informada de que o homem que iria conhecer era um milionário excêntrico que gostava de organizar grandes festas, cercado por mulheres jovens e bonitas.

O trabalho, que poderia render até R$ 3 mil em um fim de semana, resumia-se a comparecer às festas.

Após um teste inicial, feito em um flat, onde tirou fotos de biquíni e colheu impressões digitais, foi chamada para a segunda entrevista na casa de Klein em Alphaville, bairro nobre de Barueri (SP).

Antes do encontro, Puca a teria alertado: se ela não satisfizesse os desejos do empresário — quaisquer desejos — não receberia nem os R$ 3 mil da vaga, nem os R$ 1 mil que já lhe eram devidos pelos três dias de testes.

Em um quarto escuro, com dezenas de seguranças e funcionários aguardando do lado de fora, Klein a teria a estuprado ao forçar o contato sexual sem o uso de preservativo.

Dias depois de concluir o ensino médio, Sabrina trocaria os planos de tentar ingressar em uma faculdade pela oportunidade de receber até R$ 5 mil por final de semana tanto na casa de Klein em Alphaville quanto no sítio dele em Boituva (SP).

Ela teria abandonado o sonho de ser modelo por um tempo para integrar o grupo de jovens mulheres que passariam dias na casa do empresário sendo coagidas a aceitar abusos sexuais dele.

A jovem chegou a cogitar se juntar a outras 13 vítimas para denunciar formalmente o empresário ao Ministério Público de São Paulo, em 2020. O processo, atualmente em fase de inquérito policial, conta com 32 mulheres.

Trancada 72 horas no quarto

A rotina de Sabrina dentro do suposto esquema de exploração sexual de Saul Klein seria diferente da mantida pela maioria das garotas. Suas colegas na casa contam que ela se tornou rapidamente uma das “preferidas” do “excêntrico milionário”.

Isso significava ser selecionada, com frequência, para passar as noites com ele, às vezes várias consecutivas, sem poder sair do quarto. Nos finais de semana, os eventos migravam para o sítio em Boituva (SP) e podiam contar com mais de 40 garotas simultaneamente.

Depois de deixar a casa, em 2017, e antes da existência de qualquer denúncia formal contra Saul Klein, Sabrina enviou uma carta ao empresário, assinada por um advogado, juntamente com outras duas garotas que teriam participado do suposto esquema de aliciamento.

O documento relata vários episódios que ela teria vivido com o empresário e revela o estado de saúde mental de Sabrina à época: “um quadro agudo de distúrbio emocional decorrente dos fatos ocorridos na casa do Sr. Saul Klein”.

Nos meses finais de seu período de dois anos dentro do suposto esquema de exploração sexual de Klein, ela relatou que era obrigada a ficar mais de 48 horas consecutivas dentro do quarto do empresário, sob efeito de álcool e de remédios hipnóticos para insônia.

Em 2017, Sabrina havia decidido deixar a casa de Klein pela primeira vez, mas teria sido contida por seguranças e funcionários.

Ela então teria enviado um áudio a Carlão, um dos motoristas do empresário que estava de plantão para que ele a tirasse dali, mas não foi atendida.

Acabou convencida a permanecer. Ela teria deixado o esquema apenas no segundo semestre daquele ano, depois de ter vivido outro episódio traumático.

Dor, sangramento e possível aborto espontâneo.

Em fevereiro de 2017, Sabrina começou a sentir um enjoo muito forte. Trancada no quarto com Klein no sítio em Boituva (SP), escreveu para outra garota: “Estou tão enjoada que não consigo relaxar”, disse, na troca de mensagens. Ela contou à colega que estava com muita dor no útero e tendo sangramentos.

“Está há uns meses sangrando, mas hoje está diferente”, escreveu. Após essa conversa, Sabrina expeliu um corpo estranho de dentro da vagina. Assustada, disse à amiga que Klein não queria deixá-la sair do quarto.

“Ele está grudado em mim. Fica falando para eu não sair do quarto, não posso nem me mecher [sic]. Estou morrendo de dor no útero.”

 Após três dias dentro do quarto sem sair, ela teria finalmente convencido o empresário da gravidade da situação. Ao invés de ser levada ao hospital, teria sido encaminhada para a casa de Klein e colocada em um quarto privativo.

Ali, teria sido atendida pela médica Sílvia Petrelli, apontada por várias mulheres ao Ministério Público como a responsável pelo tratamento domiciliar de diversas infecções sexualmente transmissíveis que as vítimas teriam contraído por serem obrigadas a fazer sexo sem preservativo com Klein.

Outro médico, o cirurgião plástico Ailthon Takishima, que já tinha realizado aplicações de botox em Sabrina e em outras mulheres, teria participado do atendimento.

Ela dizia não se recordar do diagnóstico preciso, mas que havia sido tratada com antiinflamatórios, um antiviral receitado para herpes e três pomadas de uso tópico.

Petrelli afirmou que jamais praticou ou presenciou qualquer ato ilícito. “Demonstrei isso à delegada de Barueri [responsável pelo inquérito policial] e nada mais tenho a comentar a respeito”, disse.

Por meio de sua secretária, Takishima informou que não iria se pronunciar: “O que ele tinha para falar já conversou com a delegada do caso”.

Na carta enviada a Klein em 2017, Sabrina dizia que o episódio havia sido traumático e que tinha certeza de que havia sofrido um aborto espontâneo. Ela deixaria de participar do suposto esquema poucos meses depois.

“Era muito delicada, mas estava muito triste”
“Quando cheguei na casa ela já era uma das preferidas do ‘Zinho’ [apelido pelo qual Saul Klein pediria para ser chamado], conta Raquel* (nome fictício), uma das garotas que esteve com Sabrina nas residências de Klein em 2017.

“Ela passava muito tempo com ele, mas já parecia estar bem mais triste, deprimida”, diz. Ela conta que a amiga fazia uso frequente de medicamentos hipnóticos misturados com álcool durante o período na casa.

Outra jovem próxima de Sabrina, afirma: “Ela sofreu demais na mão do Saul […] É por ela que a gente precisa que a Justiça seja feita”, afirma.

Raquel conta que perdeu o contato com Sabrina quando ela própria precisou ser internada para se tratar de um trauma daquele período — e sobre o qual ela prefere não falar. Ela gosta de se lembrar que a garota com quem conviveu no período mais difícil da vida morava em um lindo apartamento em São Paulo, decorado com flores. E que tinha consciência de que havia sido vítima de uma relação cheia de abusos.

Em setembro de 2020, Sabrina tirou a própria vida, aos 22 anos. Nas redes sociais, como último registro, deixou a foto de um girassol.

 Pedro Lopes e Camila Brandalise

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