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Um governo sem teto e sem chão

No futebol, quando o time sofre uma sequência de derrotas – ficando à beira do rebaixamento e com o vestiário começando a dar sinais de que a equipe não tem mais comando – e então o presidente do clube vem a público afirmar que o técnico goza de toda a confiança da diretoria, pode-se cravar que o técnico está com os dias contados.

Muitas vezes, a troca de comando no meio do campeonato acaba gerando um resultado ainda pior, mas a diretoria busca mostrar para a torcida enraivecida que está fazendo alguma coisa.

A tentativa de Bolsonaro de acalmar o mercado “nervosinho”, procurando demonstrar que Guedes continua prestigiado é, provavelmente, o prenúncio de que o Chicago Boy levará um pé no traseiro.

Bolsonaro obteve o aval das elites financeiras para governar desde o momento em que afirmou que não entendia nada de economia e que quem comandaria essa área seria o Paulo Guedes. Sinalizava, com isso, que radicalizaria a agenda neoliberal.

Ao mesmo tempo, o personagem folclórico e destemperado mostrou que se submeteria ao controle dos militares. Ocorre que, como tudo na vida do militar fracassado, tanto a promessa de seguir a cartilha do Guedes quanto a disposição de se orientar pelos militares não passavam de uma farsa. Ou melhor, o governo Bolsonaro como um todo não passa de uma farsa, incluindo Guedes e os militares.

Caso alguém consiga encontrar uma única política pública deste governo que tenha sido bem-sucedida, merece um prêmio. Poderíamos aqui enumerar uma a uma as áreas de governo para demonstrar, mais uma vez, que foi promovida uma verdadeira ação de desmonte do Estado e das políticas públicas.

Até mesmo na área militar, o que se investiu foi na promoção dos privilégios e não em políticas de defesa. Trata-se de um governo medíocre, incompetente e destruidor de cabo a rabo.

Tudo Bolsonaro procura terceirizar. Ele não é responsável por nada.

Se não teve uma política de saúde para enfrentar a pandemia, a culpa é do STF e não de seus ministros capachos Pazuello e Queiroga.

Se a pandemia levou mais de 600 mil brasileiros à morte, a culpa é dos governadores e não do negacionismo dele próprio que sempre foi contrário ao uso de máscaras e ao distanciamento social e resistiu até onde pode para adotar uma política de vacinação.

Se os combustíveis e o gás de cozinha chegaram a preços estratosféricos, a culpa não é a política de preços da Petrobrás e sim do ICMS cobrado pelos estados.

Se o desemprego e a inflação dispararam, a culpa é dos governadores que adotaram políticas de restrição de atividades para conter a pandemia e não da inexistência de qualquer política econômica do governo federal.

Sendo uma completa nulidade sob todos os aspectos e cercado por um bando de incompetentes, era de se esperar que em algum momento o seu governo começasse a se desintegrar.

Por algum tempo, Bolsonaro conseguiu se segurar alimentando entre seus apoiadores o ódio à democracia e o confronto com os demais poderes. As manifestações autoritárias contaram com a cumplicidade e o silêncio dos militares e de vários aliados oportunistas.

O golpe autoritário chegou até mesmo a ser ensaiado por ele e teve data marcada, o 7 de Setembro.

Os militares, no entanto, não aderiram à aventura, o Judiciário, Legislativo e a sociedade civil reagiram e o desejado levante das polícias militares foi neutralizado pela ação enérgica dos governadores.

Fracassado o golpe, Bolsonaro teve que se jogar nos braços do Centrão para poder sobreviver. Há quase dois meses não se ouve nenhum ataque aos demais poderes e a tentativa de uma agenda positiva com inauguração de pontes de madeira e adutoras sem água viraram rotina.

Tal mudança de estilo, no entanto, não tem sido capaz de reverter a queda de popularidade. Pelo contrário, o impacto das revelações da CPI da Covid, aliadas à inflação e ao desemprego, pressionam os índices de aprovação cada vez mais para baixo e as pesquisas apontam que aqueles que não votariam em Bolsonaro em nenhuma hipótese já beiram os 60%.

E o pior para o Capitão: os caminhoneiros, uma das suas mais fiéis bases de apoio, estão à beira de uma greve em decorrência dos altos preços dos combustíveis.

Nos primeiros meses da pandemia, a popularidade de Bolsonaro já começava a despencar. A adoção do auxílio emergencial, ainda que os 600 Reais tenham sido iniciativa do Congresso, reverteram a tendência de queda, recolocando a aprovação do governo quase nos níveis anteriores.

Porém, o fim desse benefício e a sua retomada neste ano em níveis bem inferiores, associados ao aprofundamento da crise econômica, aceleraram o crescimento da reprovação do governo, com as pesquisas apontando que, apesar de Bolsonaro ainda ser competitivo para chegar a um segundo turno, perderia para qualquer um dos oponentes no confronto direto.

Assim, alguma medida se fazia necessária para salvar a lavoura.

A saída defendida pelos representantes do Centrão no governo passou a ser a conjugação do Bolsa Família com o auxílio emergencial criando um programa social que se chamaria Auxílio Brasil.

Tal movimento passou a ter a oposição da equipe de Paulo Guedes, pois na condição de representante da elite financeira, tinha que defender a manutenção da política fiscalista, em especial a preservação do famigerado teto de gastos.

Após vários exercícios de malabarismos orçamentários e fiscais, chegaram à conclusão de que o auxílio de 400 Reais só seria possível furando o teto de gastos.

Bolsonaro e o Centrão resolveram bancar a parada e colocaram Guedes na fritura. Anunciaram ainda um auxílio aos caminhoneiros para amenizar o custo dos combustíveis.

Obviamente, não serei eu a defender o teto e nem a ser contra um programa de distribuição de renda, mas convenhamos, ambos, Auxílio Brasil e ajuda aos caminhoneiros, da forma como estão sendo pensados, são dois improvisos meramente eleitoreiros que têm tudo para dar errado.

Quanto aos caminhoneiros, só um milagre internacional que faça o preço do petróleo despencar vai resolver. Portanto, haja auxílio para poder compensar a escalada de preços dos combustíveis.

No cenário econômico, também não se vislumbra nenhuma inversão na tendência de crescimento da inflação, do desemprego e até mesmo do desabastecimento, de forma que o novo auxílio não passará de um paliativo.

Pior ainda, é que o tal Auxílio Brasil necessariamente terá que ser implantado e conduzido pelo Centrão e aí, pode-se imaginar a maracutaia que vai ser tal programa em ano eleitoral.

Não serão apenas militares e auxiliares parlamentares recebendo o benefício. Não faltarão cabos eleitorais sendo profissionalizados pelos 400 Reais.

Ao romper com o teto de gastos e impor o calote dos precatórios, Bolsonaro perdeu totalmente o apoio que ainda tinha de alguns setores financeiros.

Guedes passou a ser um inútil descartável tanto para o governo quanto para as elites e com certeza o Centrão não abrirá mão do comando do ministério para controlar o Auxílio Brasil.

O menino de Chicago está com os dias contados.

Sem a cobertura das elites financeiras, Bolsonaro vai ficando também sem bases. Não foi mera coincidência, nessa mesma semana, o anúncio da filiação de Rodrigo Pacheco ao PSD de Kassab e de Sérgio Moro ao Podemos.

A sustentação do governo vai se reduzindo cada vez mais à parcela do Centrão, que pode até segurar o impeachment com Lira na Câmara, mas passará a ter ainda muitas e maiores dificuldades no Senado, sob o comando de Pacheco. Bolsonaro rompeu com o teto, mas vai ficando totalmente sem chão.

Jorge Gregory

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