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Ministro da Defesa quer “manter processo eleitoral sob suspeita”, diz cientista política

Ministro da Defesa um palhaço sem picadeiro

O ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, sugeriu na quinta-feira (14) a realização de uma votação paralela no dia das eleições deste ano com cédulas de papel.

A recomendação vai na linha das tentativas infundadas do presidente Jair Bolsonaro (PL) de desacreditar o sistema eleitoral brasileiro às vésperas do pleito presidencial.

A declaração foi dada durante audiência no Senado Federal convocada pelo senador governista Eduardo Girão (Podemos-CE).

Nogueira afirmou que existe necessidade de reforçar a transparência da votação e que o uso de cédulas em papel seria somente um “teste de integridade” do resultado eleitoral.

Rosemary Segurado, cientista política e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), afirma que é “lamentável ver o papel das Forças Armadas” no processo de desacreditar o sistema eleitoral.

A  criação do ambiente de desconfiança em relação às urnas eletrônicas é “uma estratégia do presidente Bolsonaro e que as Forças Armadas, pela própria ação do ministro da Defesa, não só na audiência de ontem mas em outros episódios, mostra que os militares estão questionando juntamente com o presidente Bolsonaro a autoridade do TSE [Tribunal Superior Eleitoral]”.

“Isso é gravíssimo. São propostas tresloucadas. Quer dizer, nós vamos ter duas votações? Uma em papel e uma eletrônica?

E, na verdade, não é nem que eles queiram viabilizar essas propostas. O mais importante é manter a suspeição sobre o processo eleitoral, seguindo a narrativa construída pelo presidente Bolsonaro de que, se ele perder as eleições, é porque as eleições foram roubadas.”

Contestação do processo eleitoral

A contestação da segurança e integridade do processo eleitoral brasileiro tem sido foco do presidente Bolsonaro e de seus aliados de maneira mais intensa neste ano. Em anos anteriores, no entanto, o comportamento já estava presente.

Em julho do ano passado, por exemplo, ele prometeu apresentar provas de que teria ocorrido uma fraude no sistema eleitoral durante o pleito de 2018.

Na época, disse que havia vencido o pleito já no primeiro turno, contra o candidato do PT, Fernando Haddad. Logo depois, no entanto, a “verdade” revelada não passou de alegações antigas e falsas de que as urnas eletrônicas completaram o voto no número do PT à revelia da escolha dos eleitores.

Na segunda-feira (11), seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), disse que não irá aceitar uma eleição fraudada, mesmo sem das provas de que isso poderá ocorrer.

“Meus representados não têm a segurança de que aquilo que eles digitam lá vai ser contado em Brasília de maneira apropriada”, disse em entrevista ao podcast Talk Churras.

Coronel diz que documentos do TSE não garantem segurança das urnas

Na mesma audiência, o coronel do Exército Marcelo Nogueira de Sousa, que é chefe da equipe das Forças Armadas no grupo de Fiscalização do Processo Eleitoral, ainda disse que os documentos entregues pelo TSE às Forças Armadas não garantem que as urnas eletrônicas estão seguras contra ameaças internas.

“No que tange à vulnerabilidade interna, até o momento a gente não tem disponível a documentação que nos leve a formar uma opinião conclusiva que a solução é segura em relação a uma ameaça interna”, completou.

Segundo Sousa, os militares detectaram a possibilidade de inserção de um “código malicioso” nas urnas eletrônicas, o que comprometeria os testes feitos até então pelo TSE.

O coronel propôs, então, um “teste de integridade na seção eleitoral”, depois da lacração das urnas e dos sistemas.

“A gente propõe uma pequena alteração no que está estabelecido, sendo coerente com a resolução do TSE. Ela prevê o teste das urnas em condições normais de uso. Como seria esse teste? Urnas seriam escolhidas, só que em vez de levar para a sede do TRE, essa urna seria colocada em paralelo na seção eleitoral, onde teria eleitores com biometria”, disse.

“O eleitor faria sua votação e seria perguntado se ele gostaria de contribuir para testar a urna. Ao fazer isso, ele geraria um fluxo de registro na urna teste similar à urna original e, após isso, os servidores fariam votação em cédulas de papel e depois dessa votação em cédulas ela seria conferida com o boletim de urna”, sugeriu o coronel.

Repercussão

Nas redes sociais, a fala do ministro da Defesa em favor do voto impresso teve uma repercussão negativa entre políticos e personalidades.

“Há limites? Essa gaiatice do ministro da Defesa em propor votação dupla beira ao deboche ou a crime eleitoral”, disse o jurista Lenio Streck.

“Coisa de gêncio!”, ironizou o deputado federal Carlos Zaratini (PT-SP). Do outro lado do espectro ideológico, João Amoêdo, do partido Novo, afirmou que o ministro “presta um desserviço à democracia”.

Caroline Oliveira e Glauco Faria

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