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“Abri os olhos e ele estava com o pênis na minha boca”, diz ex-paciente de Renato Kalil

Médico Renato Kalil

Mais mulheres criam coragem para denunciar Renato Kalil após episódio com influencer. Uma delas conta ter sido violentada quando foi atendida com febre alta e cólica, em estado grave:

“Fui estuprada nos três dias de internação. Não tinha como gritar, me mexer, me sentia culpada”. Vítima lidou com o trauma sozinha até sofrer um surto psicótico ao ver o obstetra na TV

Os áudios e os vídeos vazados da influenciadora Shantal Verdelho encorajaram outras mulheres que também teriam sido vítimas do médico Renato Kalil. Mas, diferente da influenciadora, vítima de violência obstétrica, pelo menos duas ex-pacientes relatam ter sido estupradas pelo ‘ginecologista das famosas’. As informações foram publicadas na edição do jornal O Globo desta quinta-feira (16).

A bancária Letícia Domingues disse que foi abusada mais de uma vez pelo obstetra e ginecologista na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Outra mulher, que pediu para ter seu nome preservado, afirmou que quando Kalil era plantonista do Hospital São Luiz, em São Paulo, exibiu o pênis em uma consulta depois de um parto traumático.

Além delas, a jornalista britânica Samantha Pearson, correspondente no Brasil do jornal The Wall Street Journal, já havia relatado ter passado por episódios de assédio moral e violência obstétrica.

As vítimas que se manifestaram nesta quinta-feira afirmam que tinham medo de fazer acusações publicamente até agora e só resolveram expor suas histórias depois de encorajadas pelo caso de Shantal Verdelho e da jornalista britânica.

‘Pênis na minha boca’
Letícia Domingues, hoje com 48 anos, diz que foi estuprada por Kalil depois de se internar para um procedimento ginecológico na Santa Casa, em outubro de 1991, quando foi atendida com febre alta e cólica. Na época, ela tinha apenas 18 anos.

O atendimento foi realizado inicialmente por médicas e enfermeiras, e ela diz que não conhecia Kalil e não se recorda de o obstetra ter feito parte da equipe. Ela afirma que sofreu abusos por três dias em um quarto onde foi internada sozinha.

Abri os olhos e ele estava com uma perna na escadinha da cama e a outra apoiada em cima dos meus braços, e com o pênis na minha boca. Ele já tinha ejaculado no meu rosto. Não tinha como gritar, me mexer, estava me sentindo culpada.

Minha cama ainda ficava atrás de uma porta. Quem entrasse não me veria. Outros médicos e seus alunos passavam, mas nunca com ele junto.

Quando era ele, vinha para me violentar”, descreve a bancária, que só descobriu o nome de seu abusador por comentários que ouvia no corredor do hospital.

Letícia conta que tinha medo de contar aos pais o que ocorria. Kalil, segundo ela, foi um dos médicos que lhe deram alta, e também recomendou aos pais um novo exame.

O pai a levou para a consulta, quando ela foi novamente abusada sexualmente, de acordo com o relato da bancária.

“Minha mãe me falava: ‘nossa, o doutor Kalil é tão bonzinho, um amor’. E eu me remoendo, pensava que se não tivesse ido para o hospital nada daquilo teria acontecido. Eu vi várias vezes o filme do João de Deus (médium condenado por estupro) para entender por que voltei, parece que não acreditava no que tinha acontecido”, disse.

“Quando entrei no consultório, ele não me falou nada sobre o que eu tinha ou o tratamento. Estava com o pênis ereto, se tocando e me olhando. Falou para eu deitar, e eu novamente com medo, deitei. Em momento algum ele me tocou, não teve penetração. Mas ele gozou. Foi a hora em que me toquei que era real. Levantei e saí rápido da sala. Quando ia encontrar meu pai, eu o ouvi chamando outra paciente jovem, pelo diminutivo, como se fosse uma forma carinhosa. Me perguntei se ele também não estaria abusando dela”.

Letícia afirma ter desenvolvido transtornos alimentares, depressão, crise de pânico e outras doenças psicológicas. Diz que, ao relatar o episódio, dois anos depois, a um outro ginecologista, foi aconselhada a não fazer denúncia porque Kalil era “gente de influência”.

A única denúncia que tentou fazer foi por uma ligação anônima ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo, mas foi pedido que formalizasse as acusações, e ela não conseguiu.

“O outro ginecologista, já falecido, falava: ‘Não faça isso, pelo amor de Deus, ele pode colocar uma escuta no seu carro, descobrir onde você mora’.

E eu fiquei ainda com mais medo de denunciar. Eu percebi no hospital, na época que fiquei internada, que o Renato Kalil era o tipo de pessoa prepotente, que ficava assediando as mulheres, muita gente puxava o saco dele”.

A bancária afirma que lidou com o trauma sozinha até sofrer um surto psicótico em 2009, ao ver o obstetra em um programa de TV e decidir contar para sua família o estupro que sofreu.

Já com duas filhas na época, ela sentiu que precisava de ajuda para conseguir superar o trauma.

“Eu o vi na TV e despertou algo em mim. Eu comecei a gritar, querer arrancar os meus cabelos, quase fui internada em um hospital psiquiátrico. Minhas filhas ligaram desesperadas para minha mãe, porque eram pequenas, e foi quando eu decidi contar. Na época minha mãe perguntou por que eu não disse antes, mas eu tinha ódio de mim, vergonha, medo. Até hoje eu não me perdoei e me trato com psicólogo e psiquiatra para tentar tirar isso de mim”.

Letícia diz que vai prestar queixa na Delegacia de Atendimento à Mulher.

“Por anos eu me questionei, e às vezes ainda me questiono, o que ele viu em mim? A mente dele precisa ser estudada, ele é um psicopata, perverso, essa é a palavra.”

“Lembro que depois que fui no consultório dele, uma única vez, passei a receber cartões de Natal dele. Acho que chegava para todos os pacientes, mas só aumentava o meu ódio. E pretendo ir na delegacia essa semana fazer a denúncia”.

‘Descolou placenta com o dedo’
O relato da mulher que pediu para não ter o nome divulgado tem menos episódios de abuso sexual, mas também envolve violência obstétrica.

A corretora conta que tinha 27 anos quando foi ao Hospital São Luiz para ter o segundo filho. Diz que o plantonista que a atendeu foi Kalil e o que define como “o horror” começou na sala de pré-parto.

“Ele descolou minha placenta com o dedo, para forçar o parto normal. Foi a maior dor que senti na minha vida. Ele me disse que tinha de fazer parto normal, que eu ficaria bem e que no dia seguinte eu estaria chutando bola, andando, caminhando normal e foi totalmente ao contrário. Foi muito ruim”.

A primeira filha da mulher havia nascido de cesariana. Com o segundo filho, não conseguiu fazer o parto com o mesmo médico do pré-natal.

O bebê nasceu às 3h06 da madrugada do dia 10 de setembro de 1993, a fórceps, procedimento que até hoje lhe causa problemas. Ela hoje está convencida de que o ideal teria sido fazer uma segunda cesariana, já que ela não tinha dilatação alguma.

“O parto foi muito difícil e ele ficava me mandando fazer força insistentemente. O depoimento da Shantal me lembrou muito o que eu vivi. O pós-parto foi muito difícil. Por dias não conseguia nem sentar. Na hora da sutura, ele mandou a enfermeira fazer e tive uma crise nervosa. Comecei a me debater e ele me anestesiou”.

Depois do parto, e após a retirada dos pontos, quando estava acompanhada do marido, Kalil, segundo a corretora, a chamou para uma revisão. Depois de algumas semanas, ela foi ao consultório do médico, onde foi assediada sexualmente.

“Quando cheguei ele foi logo mandando tirar a roupa. Fiquei sem graça e tentei me cobrir. Ele saiu e quando voltou estava com o pênis ereto e para fora da calça. Fiquei sem saber o que fazer, olhei pra ele com cara de ‘o que é isso?’, larguei tudo, pus a roupa e fui embora. Nunca mais o vi”.

A mulher conta que, quando começou a ler novas acusações contra Kalil na internet, mostrou ao seu filho as notícias e, pela primeira vez, falou para alguém sobre o assédio sexual que diz ter sofrido há quase 30 anos.

“Já nas visitas ao quarto era muito estranho. Quando meu marido não estava ele me dava beijinhos no rosto. Quando eu estava acompanhada, era aperto de mãos”.

O Ministério Público de São Paulo instaurou uma investigação preliminar para apurar as denúncias de violência obstétrica a partir do relato de Shantal.

A apuração vai recolher documentos, ouvir pessoas e pode resultar em um inquérito policial. O advogado da influenciadora, Sergei Cobra Arbex, no entanto, informou que já pediu uma investigação à Polícia Civil.

Sobre as acusações relacionadas ao parto de Shantal, o médico já havia afirmado em comunicado que o procedimento “aconteceu sem qualquer intercorrência e foi elogiado por ela em suas redes sociais durante 30 dias”.

A respeito das novas denúncias, o ginecologista e obstetra respondeu em um comunicado que “o doutor Renato Kalil nega veementemente as acusações, considera absurdas e fantasiosas as histórias e estranha que sejam veiculadas agora, 30 anos depois”.

RPP

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